Ciência

Como uma bactéria do Rio de Janeiro pode revelar pistas sobre vida em Marte

Pesquisadores da USP usam bactéria resistente ao sal para testar como a vida reagiria às condições do planeta vermelho

Marte: pesquisadores investigam se o planeta já reuniu condições para sustentar vida microbiana (Freepik)

Marte: pesquisadores investigam se o planeta já reuniu condições para sustentar vida microbiana (Freepik)

Publicado em 11 de julho de 2026 às 08h37.

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Uma bactéria encontrada em uma laguna hipersalina de Araruama, no litoral do Rio de Janeiro, está ajudando pesquisadores a investigar se Marte pode reunir condições para sustentar vida microbiana. Os experimentos analisam como o microrganismo reage a ambientes semelhantes aos que podem existir na superfície do planeta vermelho.

A pesquisa é conduzida por cientistas do Laboratório de Astrobiologia (AstroLab), do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP). O foco do trabalho é a bactéria Staphylococcus nepalensis, capaz de sobreviver a grandes variações de salinidade, característica considerada importante para compreender a possibilidade de vida em ambientes extremos.

A espécie foi descoberta em 2003 no trato digestivo de cabras no Nepal, mas também já foi identificada em outros hospedeiros e ambientes. No Brasil, ela foi encontrada em 2019 na laguna Brejo do Espinho, um dos corpos d'água do complexo lagunar da Região dos Lagos.

Laguna fluminense reúne condições semelhantes às de Marte

O Brejo do Espinho apresenta uma concentração de sal superior à da água do mar e sofre mudanças intensas de salinidade ao longo do ano.

Durante os períodos de seca, a evaporação aumenta a concentração de sais. Já nas épocas chuvosas, esse índice diminui rapidamente. Essa alternância cria um ambiente hostil, onde poucos microrganismos conseguem sobreviver.

Segundo os pesquisadores, essas características tornam a laguna um ambiente análogo às salmouras intermitentes que podem existir em Marte. Essas formações consistem em pequenos fluxos de água extremamente salgada que podem surgir temporariamente na superfície do planeta.

Como a bactéria ajuda a estudar Marte

Nas pesquisas, os cientistas investigam como a S. nepalensis responde às condições que poderiam ocorrer durante o verão marciano. Nesse período, parte das salmouras pode descongelar durante o dia, aumentando a quantidade de água líquida disponível. À noite, com a queda da temperatura, essas soluções voltam a congelar, elevando novamente a concentração de sal e reduzindo a disponibilidade de água.

Essas mudanças rápidas representam um desafio para qualquer forma de vida. Os experimentos procuram identificar se a capacidade de adaptação observada na bactéria poderia indicar mecanismos que permitiriam a sobrevivência de microrganismos em condições semelhantes.

Outro desafio está na composição química do planeta vermelho. Ao contrário da Terra, onde predominam sais como o cloreto de sódio, Marte possui grande quantidade de percloratos, compostos capazes de alterar proteínas e DNA. Ao mesmo tempo, esses sais reduzem o ponto de congelamento da água, favorecendo a formação das salmouras.

Pesquisa também investiga adaptação genética

Além da resistência à salinidade, os pesquisadores estudam a capacidade da bactéria de realizar transferência horizontal de genes, processo em que uma espécie transmite material genético diretamente para outra.

A equipe também busca identificar quais genes são ativados quando o microrganismo é exposto a diferentes condições ambientais, como altas concentrações de percloratos e mudanças bruscas na salinidade.

Segundo o AstroLab, esses estudos podem ampliar o conhecimento sobre os limites da vida em ambientes extremos e contribuir para avaliar a habitabilidade de Marte e de outros corpos do Sistema Solar.

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