Ciência

Células cerebrais humanas podem virar computadores — e isso preocupa cientistas

Especialistas pedem novas regras de consentimento para pesquisas que usam organoides cerebrais na computação

Biocomputadores: organoides cerebrais podem impulsionar a computação, mas levantam questões sobre consentimento (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Biocomputadores: organoides cerebrais podem impulsionar a computação, mas levantam questões sobre consentimento (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Publicado em 28 de julho de 2026 às 09h31.

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Computadores construídos com organoides cerebrais — pequenas estruturas de tecido nervoso cultivadas em laboratório — vêm sendo apontados como uma das tecnologias mais promissoras para o futuro da computação. No entanto, um grupo de pesquisadores alerta que o avanço dessa área está deixando de lado uma questão fundamental: o consentimento de quem doa as células usadas nesses experimentos.

Em um artigo de publicado na revista Nature, os autores defendem que as pessoas que autorizam o uso de seus tecidos para pesquisas biomédicas muitas vezes não são informadas de que essas células poderão ser utilizadas em biocomputadores, inclusive em projetos com potencial de aplicação comercial.

O que são os biocomputadores?

A chamada biocomputação baseada no cérebro utiliza organoides cerebrais produzidos a partir de células-tronco pluripotentes, capazes de originar diferentes tipos celulares. Em laboratório, elas são induzidas a formar pequenas estruturas tridimensionais que reproduzem algumas características do cérebro humano.

Os pesquisadores utilizam esses organoides porque neurônios humanos formam circuitos mais complexos do que os de outros animais, característica que pode favorecer o processamento de informações. Experimentos já demonstraram que esses sistemas conseguem executar operações computacionais simples, semelhantes às usadas por modelos de inteligência artificial para reconhecer padrões e fazer previsões.

Por que essa tecnologia desperta interesse?

Segundo o artigo, a biocomputação tenta aproveitar características naturais do cérebro que ainda são difíceis de reproduzir em computadores convencionais.

Enquanto os sistemas atuais dependem de chips de silício, o tecido cerebral reúne memória e processamento no mesmo substrato biológico e consome muito menos energia do que os sistemas usados atualmente para inteligência artificial, além de dispensar grandes estruturas de resfriamento. Por isso, pesquisadores acreditam que a tecnologia poderá futuramente complementar ou superar algumas limitações do hardware tradicional.

Onde está o problema ético?

Os autores argumentam que o principal debate não deve se limitar à possibilidade de os organoides desenvolverem algum nível de consciência — tema frequentemente discutido na literatura científica. Para eles, existe uma questão mais imediata: o consentimento dado pelos doadores de células.

Hoje, quem participa de pesquisas biomédicas costuma autorizar o uso de suas amostras em estudos relacionados à saúde. No entanto, esses formulários raramente mencionam a possibilidade de que as células sejam empregadas em pesquisas de computação, engenharia ou desenvolvimento de tecnologias comerciais.

Na avaliação dos pesquisadores, uma pessoa que doa tecido para contribuir com pesquisas sobre câncer, por exemplo, pode não imaginar que essas mesmas células poderão ser utilizadas futuramente na construção de biocomputadores.

Consentimento amplo pode não ser suficiente

O artigo destaca que muitos biobancos utilizam o chamado consentimento amplo, que permite o uso das amostras em pesquisas futuras ainda não definidas no momento da doação.

Embora esse modelo seja amplamente adotado na pesquisa biomédica, os autores argumentam que ele pode não ser suficiente para aplicações em áreas distintas, como biocomputação e outras tecnologias de engenharia.

Para ilustrar essa preocupação, eles citam o caso da tribo indígena Havasupai, nos Estados Unidos. Na década de 1990, integrantes da comunidade doaram sangue para pesquisas sobre diabetes, mas anos depois descobriram que as amostras também haviam sido utilizadas em estudos sobre ancestralidade e doenças mentais. O episódio resultou em uma disputa judicial e tornou-se um dos casos mais conhecidos sobre os limites do consentimento em pesquisas com material biológico.

O que os pesquisadores propõem?

Os autores defendem que pesquisas envolvendo organoides cerebrais para biocomputação passem a contar com uma supervisão ética específica.

A principal recomendação é que novos doadores sejam informados explicitamente sobre esse tipo de aplicação antes de autorizarem o uso de suas células. Quando isso não for possível, os pesquisadores sugerem três alternativas, em ordem de prioridade:

  • criar novas linhagens celulares obtidas com consentimento específico para biocomputação;
  • solicitar um novo consentimento aos doadores que já forneceram amostras;
  • submeter os projetos à avaliação de um comitê independente de supervisão ética quando não for possível localizar os doadores.

Segundo os autores, esse modelo permitiria conciliar o avanço da biocomputação com a proteção da autonomia dos participantes.

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