Ciência

Como árvores gigantes conseguem levar água até o topo? Estudo explica

Pesquisa publicada na Science derruba um antigo paradigma da botânica ao revelar adaptações que compensam os efeitos da gravidade

Árvores gigantes: pesquisadores escalaram exemplares de até 71 metros para investigar seu sistema hidráulico (Freepik)

Árvores gigantes: pesquisadores escalaram exemplares de até 71 metros para investigar seu sistema hidráulico (Freepik)

Publicado em 5 de julho de 2026 às 06h40.

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Árvores tropicais com altura equivalente à de prédios de 20 ou 30 andares conseguem transportar água da raiz até a copa sem apresentar maior risco de falhas hidráulicas ou de morte durante períodos de seca. A descoberta contraria uma hipótese aceita há décadas e ajuda a explicar como esses gigantes conseguem continuar crescendo mesmo diante dos limites impostos pela gravidade.

O estudo foi conduzido por pesquisadores de instituições do Reino Unido, do Brasil e de outros países, com participação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e publicado na revista Science na última quinta-feira, 2.

A equipe mostrou que essas árvores desenvolveram adaptações internas capazes de compensar a longa distância percorrida pela água, mantendo o funcionamento do sistema hidráulico mesmo em exemplares com mais de 70 metros de altura.

Como árvores gigantes conseguem levar água até o topo

Durante muitos anos, cientistas acreditaram que árvores muito altas enfrentavam um desafio físico cada vez maior para transportar água das raízes até as folhas.

Quanto maior a altura, maior seria a resistência ao fluxo de água e mais intensa a ação da gravidade. Isso reduziria a fotossíntese, limitaria o crescimento e aumentaria a vulnerabilidade durante períodos de seca. Os novos resultados mostram que isso não acontece.

Os pesquisadores descobriram que essas árvores aumentam gradualmente o diâmetro dos vasos do xilema — estrutura responsável por transportar água e nutrientes pelo interior da planta. Na prática, o estudo explicou que seria como substituir uma mangueira estreita por outra mais larga para facilitar a passagem da água por um percurso maior.

Essa adaptação reduz a resistência ao fluxo e diminui o risco de interrupções no abastecimento de água, mesmo durante condições de estresse hídrico.

Além disso, o estudo identificou outra adaptação importante nas copas. Como as folhas localizadas no topo sofrem maior influência da gravidade, elas operam naturalmente com menor hidratação e tendem a fechar seus estômatos — pequenos poros responsáveis pelas trocas gasosas — mais cedo.

Mesmo assim, as árvores gigantes desenvolveram maior tolerância a essas condições, mantendo seu funcionamento sem perdas significativas. Segundo os pesquisadores, essa adaptação permite que continuem realizando fotossíntese e crescendo mesmo nas partes mais altas da copa.

Seca extrema colocou a teoria à prova

Para testar se exemplares muito altos seriam mais sensíveis às mudanças climáticas, os pesquisadores acompanharam 38 árvores da família Dipterocarpaceae, com alturas entre 7,1 e 71 metros, em uma floresta tropical de Bornéu, na Malásia. As medições incluíram o período de seca severa provocado pelo fenômeno El Niño entre 2023 e 2024.

Ao comparar o crescimento antes, durante e depois da seca, a equipe não encontrou evidências de que as árvores maiores tenham sofrido mais do que as menores. Os resultados indicam que a altura, por si só, não torna essas espécies mais vulneráveis ao estresse hídrico, como se acreditava anteriormente.

Descoberta ajuda a entender o papel das florestas no clima

Os autores destacam que as árvores gigantes desempenham papel fundamental no equilíbrio climático. Embora representem uma pequena parcela da floresta, estima-se que cerca de 1% das maiores árvores tropicais armazenem mais da metade do carbono presente nesses ecossistemas, além de contribuírem para o ciclo das chuvas por meio da evapotranspiração.

Segundo os pesquisadores, compreender como essas espécies resistem às secas permitirá aperfeiçoar modelos sobre o funcionamento das florestas tropicais e prever com maior precisão seus efeitos diante das mudanças climáticas.

O estudo também poderá orientar estratégias de conservação voltadas à proteção desses gigantes, considerados essenciais para o armazenamento de carbono, a manutenção da biodiversidade e a regulação do clima.

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