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Crise climática, longevidade e a economia do amanhã

Energia, saúde, resíduos e adaptação urbana em debate na segunda edição do ESG Summit

Por Caroline Marino

Publicado em 22/06/2026, às 16:00.

Última atualização em 22/06/2026, às 16:03.

O desafio empresarial do século XXI não será apenas crescer. Será crescer em um mundo marcado por eventos climáticos extremos, envelhecimento populacional, redes de atendimento sob pressão e recursos naturais cada vez mais escassos. Temas que, até pouco tempo, eram tratados isoladamente passaram a ocupar a mesma agenda e influenciar decisões de governos, empresas e investidores.

Os sinais dessa transformação já aparecem nos números. Em 2025, os desastres naturais provocaram perdas de aproximadamente US$ 5,4 bilhões no Brasil, segundo a consultoria Aon. Ao mesmo tempo, 85% dos brasileiros afirmam sentir os efeitos das mudanças climáticas no cotidiano, seja pelo aumento do custo de vida (53%), por problemas de saúde (45%) ou por dificuldades de mobilidade (40%), de acordo com a Aurora Lab e a More in Common. Tudo isso em meio a uma transformação demográfica: até 2031, o país terá mais pessoas velhas do que crianças pela primeira vez na história.

Foi nesse contexto que especialistas se reuniram no ESG Summit 2026, promovido pela EXAME em 28 de maio na capital paulista, para discutir estratégias capazes de garantir a perenidade dos negócios a partir de critérios socioambientais e de governança. Mais do que perdas materiais, a crise do clima influencia a forma como a sociedade enxerga o futuro e reforça a necessidade de incorporar temas como planejamento urbano, prevenção de desastres e qualidade de vida nas discussões.

 

Flávia Bellaguarda, assessora especial do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima para a COP30

Planejar para resistir

A transição energética esteve entre os assuntos centrais. A queima de combustíveis fósseis segue entre as principais fontes de emissão de gases de efeito estufa, com impactos que vão além da questão ambiental. A combustão de carvão, petróleo e gás libera poluentes associados a doenças respiratórias, cardiovasculares e até câncer. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que a poluição do ar mata cerca de 7 milhões de pessoas em todo o mundo.

Os chamados “mapas do caminho” — planos que estabelecem metas, prazos e diretrizes para reduzir gradualmente a dependência de petróleo, carvão e gás natural e acelerar a adoção de fontes renováveis — ajudam nesse processo. “Funcionam como ferramentas de direcionamento para que tenhamos alternativas planejadas diante de cenários mais críticos no futuro”, explicou Flávia Bellaguarda, assessora especial do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima para a COP30.

Ela ressaltou que a proposta ganhou força durante as discussões da COP30 e já começou a avançar no Brasil. As conversas envolvem os ministérios de Minas e Energia, Fazenda e Meio Ambiente, além da Casa Civil, e devem seguir para avaliação do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). A ideia é criar diretrizes para orientar uma transição gradual, construída a partir de negociações e prioridades definidas coletivamente.

A discussão sobre energia, porém, é apenas uma parte da equação. Os eventos extremos afetam cidades, empresas, sistemas de saúde e a capacidade de crescimento econômico. Segundo Marcelo Furtado, head de sustentabilidade da Itaúsa e diretor-executivo do Instituto Itaúsa, o momento exige ampliar o debate sobre quem participa desse enfrentamento. 

Embora a resposta aos desastres seja frequentemente associada ao poder público, ele afirmou que o setor privado tem papel relevante na recuperação econômica, na gestão de riscos e na preparação para situações extremas. Na avaliação de Furtado, a pergunta que as companhias precisam fazer é simples: seus negócios continuarão viáveis nos próximos anos se os efeitos das mudanças climáticas forem ignorados?

"Se você não quiser olhar pela lente ESG ou da sustentabilidade, olhe pela lente da resiliência do negócio. É uma questão de sobrevivência."Marcelo Furtado, head de sustentabilidade da Itaúsa e diretor-executivo do Instituto Itaúsa

Sofia Schuck, Repórter de ESG na EXAME, Caroline Medeiros Rocha Frasson, Diretora executiva da LACLIMA e Marcelo Furtado, Head de Sustentabilidade Itaúsa e Diretor Executivo do Instituto Itaúsa

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Waldir Beira Junior, presidente da Ypê

O valor dos recursos

Na Ypê, a sustentabilidade sempre fez parte da estratégia e está diretamente associada à eficiência operacional e à longevidade do negócio. Um dos exemplos citados no evento foi o investimento de R$ 250 milhões em energia renovável. 

Atualmente, 70% da eletricidade consumida pela empresa é proveniente de parques solares e eólicos desenvolvidos em parceria com outros agentes. O restante é compensado, permitindo que a operação seja abastecida integralmente por fontes renováveis.

"Quando você coloca a variável sustentabilidade no processo decisório, surgem oportunidades que não acharia se não pensasse dessa forma."Waldir Beira Junior, presidente da Ypê

A busca por modelos de negócios mais sustentáveis passa também pela economia circular. Apesar dos avanços registrados nos últimos anos, o país enfrenta entraves estruturais para ampliar a reciclagem e consolidar o reaproveitamento de materiais em larga escala. 

Entre os principais estão a falta de infraestrutura para o reaproveitamento, a baixa reciclabilidade de parte das embalagens, as questões tributárias relacionadas aos resíduos, a necessidade de melhorar as condições de trabalho dos catadores e o fortalecimento da educação ambiental.

Além disso, Rodrigo Oliveira, CEO da Green Mining, destacou a escassez de investimentos e o fato das responsabilidades já previstas na regulação não serem plenamente executadas ou fiscalizadas. “Impulsionar a logística reversa exige criar condições que garantam o cumprimento das mesmas regras por todos os agentes envolvidos.”

"Impulsionar a logística reversa exige criar condições que garantam o cumprimento das mesmas regras por todos os agentes envolvidos."Rodrigo Oliveira, CEO da Green Mining

Outro ponto levantado foi a própria concepção das embalagens. Decisões relacionadas ao design, às cores e à combinação de materiais influenciam diretamente o potencial de recuperação de um produto. 

“A indústria já conhece boa parte dos obstáculos existentes e precisa acelerar a adoção de mudanças e tecnologias capazes de ampliar a circularidade”, ressaltou Roberto Rocha, presidente da Associação Nacional de Catadores (Ancat). O especialista defendeu o fortalecimento de arranjos de negócios que aproximem cooperativas, empresas e poder público.

"A colaboração entre os diferentes elos da cadeia é essencial para ampliar a recuperação de materiais e viabilizar modelos economicamente sustentáveis."Roberto Rocha, presidente da Associação Nacional de Catadores (Ancat)
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Leticia Ozório, Repórter de ESG na EXAME, Roberto Rocha, Presidente da ANCAT e Rodrigo Oliveira, CEO da Green Mining

Uma nova fronteira do cuidado

Os desafios chegam igualmente à área da saúde. À medida que secas, enchentes, queimadas e ondas de calor se tornam mais frequentes, hospitais, unidades básicas e profissionais da área precisam responder a novos padrões de adoecimento e incorporar a preparação para eventos extremos às estratégias de prevenção e atendimento.

“A saúde deveria ser transversal”, afirmou Evangeline Araujo, diretora e fundadora do Instituto Ar. Para ela, o tema é tratado de forma isolada, quando deveria guiar decisões relacionadas à infraestrutura, transporte, planejamento urbano, meio ambiente e políticas sociais. A discussão ganhou impulso na COP30 com o Plano de Ação em Saúde de Belém, uma iniciativa internacional voltada à relação entre mudanças climáticas e seus impactos na saúde humana.

Essa mudança de perspectiva já começou a influenciar as graduações. Entre 2025 e 2026, as novas diretrizes dos cursos de Medicina e Enfermagem passaram a incorporar o conceito de saúde planetária, que aborda clima, sustentabilidade e vulnerabilidades sociais. 

“Não somos uma pessoa doente; somos uma pessoa doente no ambiente”, afirmou Arlindo Gonzaga, médico e professor da Afya. Segundo ele, em um país de dimensões continentais como o Brasil, a grade curricular precisa combinar uma base comum com adequações às características regionais. “Uma asma em São Paulo é diferente de uma asma em Rondônia.”

"Não somos uma pessoa doente; somos uma pessoa doente no ambiente."Arlindo Gonzaga, médico e professor da Afya

O movimento exige, ainda, ajustes na operação das instituições. A Beneficência Portuguesa de São Paulo, por exemplo, desenvolveu uma matriz de risco climático capaz de projetar, até 2100, fatores ambientais que podem afetar o funcionamento do pronto-socorro. 

A ferramenta permite antecipar efeitos de cenários de seca ou calor extremos e orientar medidas de adaptação. A Coalizão Cardio, iniciativa criada em 2018 para o rastreamento precoce de Condições Crônicas Não Transmissíveis (CCNT), também passou a analisar de que forma episódios severos — especialmente o calor e a poluição — podem agravar os riscos para pacientes cardiovasculares.

"O que trará a maior transformação são as políticas públicas."Evangeline Araujo, diretora e fundadora do Instituto Ar

Daniele F. Beiriz Machado, líder coalizão Cardio BP - Beneficiência Portuguesa de São Paulo. Evangeline Araujo, diretora e fundadora do Instituto Ar e Arlindo Gonzaga, médico e professor da Afya

A revolução da longevidade

A transformação demográfica impõe uma segunda frente de atenção na assistência. De 2012 a 2025, a participação dos brasileiros com menos de 30 anos caiu de 49,9% para 41,4%, enquanto a parcela de idosos avançou de 11,3% para 16,6%, segundo dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE.

“A saúde é criada no contexto do dia a dia. Está relacionada à forma como cada indivíduo se alimenta, trabalha, vive, se locomove e acessa serviços e espaços urbanos”, explicou Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional da Longevidade Brasil (ILC-Brasil). 

Na visão do especialista, preparar o país para essa realidade passa por tornar escolhas saudáveis mais acessíveis e por qualificar os profissionais para atender uma população cada vez mais velha.

O Brasil possui atualmente 494 escolas de medicina, ficando atrás apenas da Índia, país quase sete vezes mais populoso. Estar entre os líderes em número de cursos, porém, não significa oferecer uma graduação de qualidade. 

Em uma avaliação do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, cerca de 30% das faculdades não ensinam o suficiente sobre o tema. O problema não será resolvido apenas com a formação de mais geriatras — o essencial é que todos os estudantes de medicina aprendam mais sobre como a idade altera anatomia, fisiologia, farmacologia e interação entre medicamentos.

"Se estamos falando de sustentabilidade, o maior recurso natural não é energia, reciclagem de alumínio ou painéis solares. É gente — gente velha."Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional da Longevidade Brasil (ILC-Brasil)

Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional da Longevidade Brasil (ILC-Brasil)

Resistência como estratégia

Entre 2015 e 2024, os eventos extremos custaram R$ 61 bilhões aos cofres públicos brasileiros, segundo levantamento da Codex. Ao mesmo tempo, estudos do World Resources Institute (WRI) mostram que cada dólar investido em resiliência climática pode gerar outros US$ 10 em benefícios ao longo de uma década. 

Contudo, 77% dos brasileiros já tiveram prejuízos ou foram afetados diretamente por eventos climáticos severos, de acordo com pesquisa da Descarbonize Soluções.

Para Caroline Medeiros Rocha Frasson, diretora-executiva da Laclima, a grande contribuição do Plano Clima de Adaptação — lançado pelo Governo Federal em fevereiro de 2026 — é transformar um problema amplamente conhecido em uma agenda estruturada, com metas, indicadores e 16 planos setoriais voltados a áreas como cidades, infraestrutura, agropecuária e oceanos. 

“O desafio agora é transformar planejamento em execução e engajar estados e municípios que apresentam diferentes níveis de capacidade técnica, institucional e financeira”, afirmou.

A diferença entre países que constroem resiliência e os que ainda reagem a desastres está, em grande medida, na capacidade de antecipar. “Algumas estão passando por essa crise em transatlânticos e outras em canoas furadas”, disse Frasson, ressaltando que os impactos não atingem as pessoas da mesma forma. 

O Brasil, como país em desenvolvimento, tem menor capacidade de recuperação diante de desastres. O que torna a prevenção ainda mais urgente.

Veja os melhores momentos.

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Caroline Marino

Caroline Marino

Jornalista especializada em carreira, RH e negócios

Jornalista especializada em carreira, RH e negócios

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