Bolsa: acessório foi criado com uma derme sintética produzida a partir de colágeno reconstruído de T. rex (Lab-Grown Leather Ltd./Divulgação)
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Publicado em 28 de julho de 2026 às 11h43.
Uma bolsa criada com um biomaterial produzido a partir da reconstrução do colágeno de um Tyrannosaurus rex (T. rex) será leiloada em Paris por um valor estimado entre 300 mil e 500 mil euros (cerca de R$ 1,7 milhão a R$ 2,9 milhões).
Desenvolvido a partir de fragmentos de proteínas preservados em fósseis do dinossauro extinto há cerca de 68 milhões de anos, o material demonstra como a biotecnologia pode criar novos biomateriais inspirados em organismos pré-históricos.
O projeto reúne pesquisadores da The Organoid Company e da Lab-Grown Leather Ltd., em parceria com a agência VML, e foi detalhado em reportagem do The Scientist.
Apesar de ser divulgada como uma bolsa de "couro de dinossauro", a peça não foi produzida com pele fossilizada, mas com uma derme sintética cultivada em laboratório.
O desenvolvimento começou com a análise de fragmentos de colágeno preservados em fósseis de T. rex. Como essa proteína não permaneceu intacta após milhões de anos, os pesquisadores recorreram a um modelo de inteligência artificial treinado para prever sequências de proteínas.
O sistema utilizou como referência os fragmentos conhecidos do colágeno do dinossauro e o colágeno tipo 1 de galinhas, consideradas os parentes vivos mais próximos desses animais. A partir dessas informações, a IA gerou diferentes versões possíveis da proteína original.
Segundo Che Connon, pesquisador da Lab-Grown Leather Ltd., o resultado representa a melhor aproximação científica disponível para o colágeno do T. rex, mas não uma reprodução exata. Isso ocorre porque ainda não existem dados suficientes para reconstruir integralmente essa proteína apenas com os fósseis conhecidos.
Na etapa seguinte, os pesquisadores inseriram a sequência obtida em células de mamíferos cultivadas em uma plataforma de engenharia de tecidos. As células passaram a produzir colágeno e outros componentes típicos da derme, formando um biomaterial sem utilizar pele animal.
Após cerca de nove meses de desenvolvimento e um processo tradicional de curtimento, o material deu origem à bolsa criada pela marca de moda Enfin Levé.
Apesar do nome, o acessório não utiliza couro ou pele fossilizada. No processo convencional, o couro é obtido a partir da pele de um animal. Neste projeto, porém, os pesquisadores produziram apenas uma derme sintética baseada na reconstrução molecular do colágeno identificado nos fósseis de T. rex.
A equipe também optou por não aplicar os compostos normalmente utilizados para uniformizar a superfície do couro. Como resultado, a peça manteve uma textura irregular e tátil, preservando um acabamento mais próximo do biomaterial obtido em laboratório.
O acessório será leiloado pela casa parisiense Auctioneers Giquello, que estima um valor entre 300 mil e 500 mil euros. Desenhada pela marca Enfin Levé, a bolsa combina biotecnologia e design de luxo.
A estimativa de venda reflete tanto o caráter experimental do projeto quanto a exclusividade do biomaterial produzido em laboratório.
Segundo os pesquisadores, a bolsa funciona como uma demonstração das possibilidades da engenharia de biomateriais, e não apenas como um produto de luxo.
A tecnologia poderá contribuir para o desenvolvimento de alternativas ao couro convencional sem recorrer ao uso de animais nem de plásticos derivados do petróleo. Além disso, a reconstrução de proteínas antigas pode abrir caminho para novas pesquisas sobre materiais com propriedades inéditas.
Mary Schweitzer, paleontóloga responsável por identificar os primeiros fragmentos de colágeno em fósseis de T. rex, afirma que projetos como esse também ajudam a ampliar o interesse pela paleontologia molecular.
Segundo a pesquisadora, compreender como essas proteínas permaneceram preservadas por cerca de 68 milhões de anos pode ampliar o conhecimento sobre a evolução dos dinossauros e inspirar novas aplicações em biomateriais.