Lua: pesquisadora testa como cultivar alimentos no solo lunar simulado (Imagem gerada por IA/EXAME)
Redatora
Publicado em 5 de julho de 2026 às 11h00.
Cultivar alimentos na Lua deixou de ser apenas um conceito da ficção científica e passou a integrar os planos da Nasa para futuras missões de longa duração. A agência espacial financia pesquisas que buscam transformar o regolito lunar — a camada de poeira e fragmentos de rocha que cobre a superfície do satélite — em um substrato capaz de sustentar plantações.
Uma das cientistas à frente desse desafio é a botânica Jessica Atkin, da Universidade Texas A&M. Em entrevista à revista New Scientist, ela explicou como conseguiu fazer grão-de-bico germinar em solo lunar simulado usando uma combinação de matéria orgânica e fungos benéficos, uma estratégia que poderá ajudar a alimentar astronautas em futuras bases permanentes na Lua.
Levar comida da Terra continuará sendo essencial nas primeiras missões lunares, mas esse modelo é pouco viável para uma ocupação permanente.
Segundo Atkin, enviar carga até a superfície da Lua custa dezenas de milhares de dólares por quilograma, podendo chegar a cerca de US$ 100 mil para apenas meio quilo, dependendo da missão. No entanto, produzir alimentos no próprio satélite reduziria custos e aumentaria a autonomia das futuras bases.
Além disso, as plantas ajudam a reciclar dióxido de carbono, produzem oxigênio e podem integrar sistemas fechados de suporte à vida, essenciais para permanências prolongadas no espaço.
Apesar de ser chamado de "solo lunar", o regolito está longe de ser um solo fértil. Ele é formado por partículas extremamente finas, afiadas e eletricamente carregadas, que aderem a equipamentos, desgastam trajes espaciais e representam riscos quando inaladas.
Na agricultura, o problema também é grande. Ao receber água, o regolito tende a se compactar como cimento, dificultando que a umidade alcance as raízes.
Embora contenha nutrientes importantes, como fósforo, cálcio, potássio e magnésio, também possui elevadas concentrações de ferro e alumínio, que podem prejudicar o crescimento das plantas.
A estratégia de Atkin é aproveitar uma parceria que já existe naturalmente na Terra. Fungos micorrízicos vivem associados às raízes das plantas, facilitando a absorção de água e nutrientes e aumentando sua resistência ao estresse ambiental.
Nos experimentos, a pesquisadora misturou simulantes de regolito lunar com matéria orgânica e esses fungos. O resultado foi um desenvolvimento mais eficiente das raízes do grão-de-bico em comparação com plantas cultivadas sem os microrganismos.
Embora ainda apresentem sinais de estresse e produzam menos sementes do que em solos terrestres, os testes indicam que essa combinação pode transformar gradualmente o regolito em um ambiente mais favorável ao cultivo.
Enquanto muitos estudos priorizam culturas como alface e tomate, Atkin optou pelo grão-de-bico.
Além de ser rico em proteínas, ele suporta condições adversas e estabelece naturalmente associações com fungos e bactérias do solo, características que favorecem seu desenvolvimento em ambientes hostis.
Essas propriedades fazem da leguminosa uma das candidatas para futuras fazendas espaciais, onde água e nutrientes serão recursos limitados.
Mesmo que o cultivo no regolito seja viável, será necessário utilizar estufas adaptadas ao ambiente lunar. Segundo Atkin, essas estruturas precisarão proteger as plantas da intensa radiação espacial, controlar temperatura e umidade, fornecer iluminação durante as cerca de duas semanas de noite lunar e impedir que a poeira do regolito alcance as áreas habitadas pelos astronautas.
Outro desafio será adaptar os sistemas de irrigação à gravidade lunar, equivalente a apenas um sexto da gravidade da Terra.
Nas primeiras bases lunares, proteínas de origem animal ainda deverão ser levadas da Terra em alimentos de longa duração. Já frutas, verduras, legumes e leguminosas poderão ser produzidos localmente, oferecendo alimentos frescos às tripulações.
Atkin acredita que culturas como tomate, morango e grão-de-bico poderão fazer parte desse cardápio. Em tom de brincadeira, ela diz que sonha em abrir uma "barraquinha de falafel na Lua", usando grão-de-bico cultivado diretamente na superfície lunar.
As pesquisas fazem parte dos esforços da Nasa para desenvolver tecnologias que sustentem futuras missões do programa Artemis. Embora ainda existam muitos desafios técnicos, transformar o regolito em um ambiente cultivável é considerado um passo importante para reduzir a dependência de suprimentos enviados da Terra e viabilizar uma presença humana permanente na Lua.