Testosterona: especialistas esclarecem que níveis elevados do hormônio nem sempre significam mais força ou melhor desempenho (Freepik)
Redatora
Publicado em 23 de julho de 2026 às 22h57.
A testosterona é frequentemente associada à força, à masculinidade e ao desempenho físico. No entanto, especialistas afirmam que muitas crenças sobre o hormônio não são sustentadas pelas evidências científicas. Embora desempenhe um papel importante no desenvolvimento do organismo e na saúde masculina, ter níveis mais altos de testosterona não significa, necessariamente, ser mais forte, mais agressivo ou mais saudável.
Em artigo publicado no The Conversation, o psicólogo Adam Stanaland, da Universidade de Richmond, explica o que a testosterona realmente faz no corpo, qual faixa é considerada normal e em quais situações a reposição hormonal pode ser indicada.
Embora seja conhecida como um hormônio masculino, a testosterona é produzida por pessoas de todos os sexos, em diferentes quantidades.
Nos homens, seus níveis aumentam durante a puberdade, contribuindo para o desenvolvimento da massa muscular, do crescimento de pelos corporais e da produção de espermatozoides. A partir dos 30 anos, é comum que a concentração do hormônio diminua gradualmente.
Na avaliação de Stanaland, a reposição de testosterona costuma ser indicada apenas quando os níveis estão significativamente abaixo do normal e são acompanhados de sintomas como fadiga intensa, perda importante de massa muscular e redução da libido.
De acordo com o especialista, valores entre 300 e 1.000 nanogramas por decilitro (ng/dL) são considerados normais para homens adultos.
Dentro dessa faixa, porém, a quantidade de testosterona não determina o grau de masculinidade nem prediz características como força física.
O autor destaca que os níveis do hormônio variam naturalmente ao longo do dia e também podem mudar conforme a época do ano. Por isso, médicos geralmente solicitam o exame apenas quando há sintomas que levantam suspeita de deficiência hormonal.
Um dos principais mitos abordados pelo especialista é a ideia de que níveis elevados de testosterona tornam um homem automaticamente mais forte.
Segundo ele, a testosterona está relacionada ao desenvolvimento da massa muscular, mas, em homens saudáveis, fatores como treinamento, alimentação e qualidade do sono exercem influência muito maior sobre a força física.
Da mesma forma, décadas de pesquisas indicam que a relação entre testosterona e agressividade é muito mais complexa do que se imaginava.
Análises que reuniram dezenas de estudos encontraram apenas associações fracas entre níveis do hormônio e comportamento agressivo. Em muitos casos, fatores sociais e psicológicos exercem um papel mais importante do que a própria biologia.
Embora a terapia de reposição possa beneficiar homens com deficiência comprovada de testosterona, o tratamento não é isento de efeitos colaterais.
Segundo o artigo, a suplementação pode reduzir a produção natural do hormônio pelo organismo, diminuir o tamanho dos testículos e comprometer a produção de espermatozoides.
Além disso, o tratamento pode favorecer o surgimento de acne, calvície e aumento do tecido mamário devido à conversão parcial da testosterona em estrogênio.
Para o autor, a popularização da testosterona como forma de melhorar desempenho ou masculinidade ignora esses riscos e simplifica excessivamente o papel do hormônio no organismo.
Além disso, o especialista também destaca que fatores como estresse crônico, privação de sono e alimentação inadequada podem reduzir os níveis de testosterona, mesmo em homens jovens.
Um exemplo citado é um estudo com militares norte-americanos, que mostrou queda significativa da testosterona durante treinamentos intensos marcados por poucas horas de sono e elevado desgaste físico.
Segundo Stanaland, esse tipo de evidência reforça que a saúde hormonal depende não apenas da biologia, mas também das condições de vida, dos hábitos diários e do ambiente em que a pessoa está inserida.