Ciência

Como algumas árvores presentes no Brasil podem piorar a qualidade do ar

Pesquisa identificou espécies que liberam compostos ligados à formação de ozônio, efeito que tende a se intensificar com o aumento da temperatura

Árvores: pesquisadores defendem que a escolha das espécies considere também seus efeitos sobre a qualidade do ar (Freepik)

Árvores: pesquisadores defendem que a escolha das espécies considere também seus efeitos sobre a qualidade do ar (Freepik)

Publicado em 22 de agosto de 2026 às 08h01.

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As árvores são fundamentais para reduzir a temperatura, armazenar carbono e aumentar a biodiversidade nas cidades. Mas um estudo publicado na revista científica Science Advances e divulgado nesta quinta-feira, 20, na Nature mostra que algumas espécies também podem favorecer a formação de ozônio na atmosfera, um poluente associado a problemas respiratórios.

Segundo os pesquisadores, esse efeito pode se intensificar com o aumento das temperaturas provocado pelas mudanças climáticas. Durante a análise, a pesquisa identificou que determinadas árvores liberam grandes quantidades de compostos orgânicos voláteis (COVs). Essas substâncias reagem com poluentes emitidos principalmente por veículos e indústrias na presença da luz solar, desencadeando processos químicos que levam à formação do ozônio.

Como as árvores influenciam a formação de ozônio

O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Jinan, na China, que inicialmente buscavam medir o impacto das atividades humanas na poluição por ozônio em Pequim. Durante a investigação, a equipe encontrou um resultado inesperado: a vegetação urbana tinha uma participação muito maior na formação do poluente do que se imaginava.

Segundo Bin Yuan, químico atmosférico da Universidade de Jinan e coautor do estudo, os próprios pesquisadores chegaram a duvidar dos resultados antes de confirmarem as análises.

O ozônio não é emitido diretamente pelas árvores. Ele se forma quando os compostos orgânicos voláteis reagem com óxidos de nitrogênio (NOx) — liberados principalmente pelo trânsito e por atividades industriais — sob a ação da luz solar. A inalação desse gás pode inflamar as vias respiratórias, dificultar a respiração e agravar doenças como a asma.

Algumas espécies presentes no Brasil liberam mais compostos

Nem todas as árvores apresentam o mesmo potencial para emitir compostos orgânicos voláteis. Os pesquisadores identificaram que espécies dos gêneros Salix (salgueiros) e Populus (álamos ou choupos) estão entre as maiores emissoras de isopreno, um composto produzido naturalmente durante a fotossíntese.

Esses gêneros também estão presentes no Brasil. O salgueiro-chorão (Salix babylonica) é utilizado na arborização e no paisagismo, enquanto espécies de álamos (Populus spp.) são cultivadas principalmente na Região Sul, embora não sejam nativas do país.

Em Pequim, aproximadamente 35% das árvores pertencem a espécies emissoras de isopreno.

Vegetação respondeu por mais da metade das reações que formam ozônio

Para realizar a pesquisa, a equipe coletou amostras de ar em Pequim entre maio e julho de 2021 e comparou as concentrações de compostos orgânicos voláteis com dados de monitoramento do ozônio. Os resultados mostraram que a vegetação respondeu por cerca de 10% das emissões totais de COVs, enquanto as atividades humanas representaram os outros 90%.

No entanto, quando os pesquisadores avaliaram a capacidade desses compostos de participar das reações químicas que levam à formação do ozônio, encontraram um cenário bem diferente: a vegetação respondeu por 52% da reatividade química associada à formação do poluente, tendo o isopreno como principal responsável.

Problema pode ocorrer em outras cidades

Os pesquisadores também estimaram as emissões de isopreno em 24 megacidades ao redor do mundo. Os cálculos indicam que diversas cidades podem apresentar potencial de emissão ainda maior do que Pequim. Em Sydney, por exemplo, cerca de 65% das árvores pertencem a espécies emissoras de isopreno.

O estudo não avaliou cidades brasileiras, portanto não é possível afirmar que o mesmo impacto ocorra no país. Ainda assim, a presença de espécies dos gêneros Salix e Populus na arborização brasileira mostra que o tema também pode ser relevante para pesquisas futuras e para o planejamento urbano.

Segundo Ian Jamie, químico ambiental da Universidade Macquarie, na Austrália, a participação relativa da vegetação aumentou porque as emissões de compostos orgânicos provenientes de veículos diminuíram significativamente nas últimas décadas.

Aquecimento global pode agravar o efeito

A pesquisa também mostrou que a emissão desses compostos aumenta significativamente com a temperatura. Segundo os cálculos, a 35 °C, a velocidade das reações envolvendo os COVs emitidos pela vegetação é sete vezes maior do que a observada a 20 °C. Como consequência, a contribuição das árvores para a reatividade química ligada à formação do ozônio aumenta de 21% para 74% entre essas duas temperaturas.

Os pesquisadores também avaliaram o efeito das ilhas de calor urbanas em Pequim. Eles estimam que um aumento típico de 0,8 °C durante o verão pode elevar em cerca de 12% as emissões de isopreno das árvores da cidade.

Segundo Robyn Schofield, pesquisadora da Universidade de Melbourne, o estresse térmico faz com que árvores em ambientes urbanos emitam mais compostos orgânicos voláteis do que indivíduos da mesma espécie presentes em florestas. Os autores alertam que, com o avanço das mudanças climáticas, esse efeito tende a se tornar ainda mais intenso.

Pesquisa não recomenda reduzir o plantio de árvores

Apesar dos resultados, os autores ressaltam que o estudo não deve ser interpretado como um argumento contra a arborização urbana.

Segundo Bin Yuan, as árvores continuam desempenhando funções essenciais para as cidades, como reduzir a temperatura, armazenar carbono e favorecer a biodiversidade. Para o pesquisador, os resultados indicam que a escolha das espécies deve fazer parte do planejamento urbano, sobretudo diante do avanço das mudanças climáticas.

Além disso, os pesquisadores também destacam que a maior parte dos compostos orgânicos voláteis presentes na atmosfera ainda é proveniente de atividades humanas, como o uso de derivados de petróleo e solventes industriais. Além disso, reduzir as emissões de óxidos de nitrogênio (NOx) continua sendo uma das estratégias mais eficazes para limitar a formação de ozônio nas cidades.

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