Árvores milenares: pesquisadores destacam que as madeira guarda evidências de explosões solares registradas há séculos (Freepik)
Redatora
Publicado em 13 de agosto de 2026 às 15h26.
O Sol pode produzir tempestades muito mais intensas do que qualquer uma registrada desde o início da era espacial. A principal evidência não veio de telescópios ou satélites, mas de árvores que viveram por milhares de anos.
Ao analisar anéis de crescimento preservados em diferentes partes do mundo, cientistas descobriram registros de explosões solares extremas que ajudam a entender o comportamento da nossa estrela e a estimar o risco de novos eventos capazes de afetar satélites, sistemas de GPS, comunicações e redes elétricas.
Segundo reportagem da New Scientist, esses registros naturais revelam que o Sol já lançou tempestades muito mais poderosas do que o famoso Evento Carrington, de 1859, considerado até hoje a maior tempestade solar documentada pela humanidade.
Os anéis de crescimento das árvores funcionam como um arquivo natural da atmosfera terrestre. A cada ano, elas incorporam o carbono presente no ar durante a fotossíntese, incluindo o carbono-14, um isótopo formado quando raios cósmicos interagem com a atmosfera da Terra.
Em condições normais, a concentração desse isótopo varia muito pouco de um ano para outro. Porém, quando uma quantidade excepcionalmente grande de partículas energéticas chega ao planeta, ocorre um aumento repentino na produção de carbono-14, que fica registrado nos anéis de crescimento.
Foi justamente esse sinal que chamou a atenção da pesquisadora Fusa Miyake, em 2012, ao analisar antigos cedros da ilha japonesa de Yakushima. Ela identificou um aumento abrupto de carbono-14 entre os anos 774 e 775 d.C., cerca de vinte vezes superior às variações naturais observadas normalmente.
Posteriormente, o mesmo sinal foi encontrado em árvores da Europa e da América do Norte, confirmando que se tratava de um fenômeno global.
A descoberta deu origem ao que hoje é conhecido como evento Miyake. Esses fenômenos representam explosões excepcionais de partículas de alta energia que atingem a Terra e deixam uma assinatura química tanto nos anéis das árvores quanto em núcleos de gelo, por meio do berílio-10.
Desde a descoberta inicial, pesquisadores identificaram outros cinco eventos semelhantes distribuídos ao longo dos últimos milhares de anos.
Embora extremamente raros, eles desafiam o conhecimento atual sobre a física solar, já que estrelas como o Sol, em teoria, não deveriam produzir explosões dessa magnitude.
Além dos raríssimos eventos Miyake, cientistas começaram a encontrar indícios de uma categoria intermediária de tempestades solares.
Em um estudo da Universidade de Groningen, publicado em 2026, pesquisadores combinaram registros de carbono-14 obtidos em árvores da Europa e utilizaram modelos do ciclo global do carbono para identificar possíveis explosões ocorridas nos anos 14, 553, 675 e 954 d.C.
Caso esses sinais sejam confirmados, eles indicam que tempestades muito mais fortes que o Evento Carrington podem ocorrer aproximadamente uma vez a cada 200 anos, frequência maior do que se imaginava anteriormente.
Ainda não foi identificado, porém, se esses eventos fazem parte de uma distribuição contínua ou representam um tipo diferente de fenômeno físico.
Se uma tempestade semelhante atingisse a Terra atualmente, os efeitos dependeriam do tipo de fenômeno produzido pelo Sol.
Caso fosse provocada por uma ejeção de massa coronal, enormes quantidades de plasma interagiriam com o campo magnético terrestre, induzindo correntes elétricas capazes de provocar apagões, danificar transformadores, afetar oleodutos e comprometer longas linhas de transmissão. Já uma intensa erupção solar teria maior impacto sobre satélites e sistemas espaciais.
Como grande parte da infraestrutura moderna depende dessas tecnologias, uma tempestade dessa magnitude poderia provocar impactos econômicos e sociais em escala global. "À medida que caminhamos para uma sociedade mais digitalizada, com extensas redes de telecomunicações, esses eventos podem representar uma ameaça muito maior", afirma Michael Dee, da Universidade de Groningen, na Holanda.
Além disso, os pesquisadores afirmam que ainda existem muitas lacunas na compreensão desses eventos. Cada espécie de árvore registra o carbono de maneira ligeiramente diferente, influenciada por fatores como clima, latitude, disponibilidade de água e época do crescimento anual.
Por isso, equipes internacionais vêm ampliando a busca por árvores extremamente antigas capazes de preservar registros mais precisos. Entre os materiais considerados mais promissores estão as gigantescas kauris da Nova Zelândia, que podem fornecer informações complementares do Hemisfério Sul e ajudar a reconstruir a história da atividade solar ao longo de milhares de anos.