Supercentenários: pesquisa encontrou níveis elevados de células de defesa associadas ao combate ao câncer e a infecções (Magnific/Reprodução)
Redatora
Publicado em 22 de agosto de 2026 às 08h00.
Pessoas que vivem mais de 110 anos podem compartilhar uma característica incomum: um sistema imunológico capaz de permanecer altamente ativo mesmo após mais de um século de vida. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Osaka, no Japão, identificou que os chamados supercentenários apresentam uma quantidade significativamente maior de um tipo de célula de defesa envolvida no combate ao câncer e a infecções.
Os resultados foram publicados na revista científica Cell Reports e divulgados pela New Scientist. Segundo os autores, essa resposta imunológica diferenciada pode representar uma das razões pelas quais algumas pessoas conseguem alcançar idades extremas mantendo maior resistência a doenças comuns no envelhecimento.
Para investigar como o sistema imunológico muda ao longo da vida, a equipe analisou amostras de sangue de 28 voluntários, divididos em três grupos: pessoas entre 70 e 99 anos, centenários de 100 a 109 anos e supercentenários, com 110 anos ou mais.
Embora o número de participantes seja reduzido, os pesquisadores destacam que essa população é extremamente rara. De acordo com dados do censo japonês citados no estudo, existem cerca de 150 supercentenários em todo o país.
As análises mostraram um aumento progressivo da proporção de linfócitos T citotóxicos CD4 (CD4 CTL) conforme a idade avançava. Essas células representavam aproximadamente 4% das células T no grupo de 70 a 99 anos, quase 10% entre os centenários e mais de 17% nos participantes com mais de 110 anos.
Além de serem mais numerosas, essas células permaneceram altamente funcionais. Os pesquisadores observaram que elas não apresentavam sinais de exaustão imunológica, fenômeno em que células de defesa perdem eficiência para eliminar células cancerígenas ou infectadas por vírus.
Segundo a equipe da Universidade de Osaka, esse resultado indica que o sistema imunológico de pessoas extremamente longevas não apenas evita um declínio acentuado com a idade, como também preserva uma capacidade importante de adaptação diante dos desafios que surgem ao longo do envelhecimento.Os autores explicam que o envelhecimento aumenta a exposição do organismo a células anormais, como as cancerígenas, além da reativação de vírus que permanecem latentes no corpo.
Na avaliação dos pesquisadores, o aumento dos linfócitos T citotóxicos CD4 pode representar uma resposta a esse cenário. Eles acreditam que compreender os fatores que levam à expansão dessas células poderá ajudar, futuramente, no desenvolvimento de estratégias capazes de reproduzir essa resposta imunológica em outras pessoas.
O estudo também sugere que essas células podem desempenhar um papel importante na chamada imunovigilância, processo pelo qual o sistema imunológico identifica e elimina células potencialmente cancerígenas antes que elas se desenvolvam.
A nova pesquisa amplia resultados obtidos anteriormente pelo mesmo grupo, que já havia identificado os linfócitos T citotóxicos CD4 como uma característica marcante dos supercentenários.
O trabalho também reforça conclusões de outras pesquisas sobre longevidade excepcional. Entre elas está um estudo liderado pelo geneticista Manel Esteller, do Instituto de Pesquisa Sant Pau, em Barcelona, que investigou María Branyas Morera, considerada a pessoa mais velha do mundo até morrer, aos 117 anos.
Segundo Esteller, pessoas que atingem idades tão avançadas parecem apresentar um sistema imunológico particularmente eficiente para combater infecções e, possivelmente, células cancerígenas. Durante sua vida, Branyas enfrentou diversas infecções e chegou a contrair covid-19 em idade extremamente avançada, permanecendo assintomática.