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A boiada de Trump: Brasil e Argentina disputam 300 mil toneladas de carne nos EUA

Crise no rebanho americano cria uma disputa entre exportadores sul-americanos por uma fatia do mercado de carne moída

Carne nos EUA: crise da carne nos Estados Unidos abriu uma disputa que coloca Brasil e Argentina frente a frente por um mercado de alto valor. (Getty Images)

Carne nos EUA: crise da carne nos Estados Unidos abriu uma disputa que coloca Brasil e Argentina frente a frente por um mercado de alto valor. (Getty Images)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 22 de agosto de 2026 às 08h00.

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A crise da carne nos Estados Unidos abriu uma disputa que coloca Brasil e Argentina frente a frente por um mercado de alto valor. A decisão de Donald Trump de liberar temporariamente a entrada de até 300 mil toneladas de carne bovina sem a tarifa extra para volumes acima das cotas criou uma corrida entre fornecedores internacionais para abastecer um país com menos animais disponíveis e preços elevados.

A medida, anunciada nesta sexta-feira, 21, terá duração de 90 dias e é voltada principalmente para carne destinada à produção de carne moída, um dos produtos mais pressionados pela falta de oferta nos EUA. Para analistas ouvidos pela EXAME, o Brasil pode se beneficiar da medida.

O Brasil aparece como um dos principais candidatos, mas a Argentina também tenta ampliar sua participação no mercado americano. A resposta dependerá das regras que Washington ainda precisa divulgar — principalmente se o volume será dividido entre países ou se funcionará pelo modelo de ordem de chegada.

Segundo análise da Safras & Mercado, as 300 mil toneladas anunciadas pelos EUA não representam uma cota exclusiva para o Brasil. Ainda faltam informações sobre os países elegíveis, os produtos contemplados e o mecanismo de distribuição.

O cenário mais favorável aos exportadores brasileiros seria um modelo de “quem chegar primeiro leva”.

Nesse caso, a consultoria estima que o Brasil poderia capturar entre 30% e 40% do volume, o equivalente a aproximadamente 90 mil a 120 mil toneladas. Como referência para projeções, a Safras considera 100 mil toneladas um cenário plausível.

“São dois cenários. Quais vão ser as regras dessas 300 mil toneladas adicionais? Nós vamos acessar a maior fatia dessa cota? Se for livre, quem chegar primeiro leva”, diz Fernando Iglesias, analista de pecuária da Safras & Mercado.

Para ele, o Brasil tem uma vantagem porque já possui uma cadeia exportadora estruturada e capacidade de atender rapidamente à demanda americana.

“Numa primeira leitura, se for quem chegar primeiro leva, o Brasil vai ser o grande beneficiado dessa história. Só precisa dos Estados Unidos colocarem as regras e estabelecerem como essa exportação vai funcionar”, diz Iglesias.

O movimento ocorre em um mercado no qual o Brasil já ampliou sua presença nos Estados Unidos. Entre janeiro e julho, os americanos compraram 234 mil toneladas de carne bovina brasileira, alta de 17,1% sobre o mesmo período de 2025, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).

No total, o Brasil exportou 1,969 milhão de toneladas de carne bovina nos primeiros sete meses do ano, crescimento de 10%, com receita de US$ 11,43 bilhões, avanço de 28%.

A oportunidade também surge em um momento estratégico para o Brasil. Para a Safras, a nova janela americana pode ajudar a compensar parcialmente as limitações impostas pela salvaguarda chinesa, ampliando a diversificação dos destinos da carne brasileira.

No final de 2025, a China impôs uma cota de 55% sobre as importações de carne do país, em uma tentativa de proteger o setor pecuário local.

Do outro lado da disputa está a Argentina, que ganhou relevância nas últimas iniciativas do governo americano para ampliar a oferta de carne nos Estados Unidos.

ano para ampliar a oferta de carne nos Estados Unidos. No início de 2026, Trump anunciou que ampliaria em 200 mil toneladas as compras do país.

A Argentina tem tradição na produção bovina e mantém uma posição reconhecida no mercado internacional, mas especialistas avaliam que a escala brasileira pode ser um diferencial decisivo.

Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a produção de carne bovina da Argentina permanece estável em cerca de 3,2 milhões de toneladas por ano, volume que representa aproximadamente 5% da oferta global. O Brasil, por outro lado, produz cerca de 12 milhões de toneladas anuais, quase quatro vezes mais que o país vizinho.

“O Brasil tem muito mais condições de atender os Estados Unidos do que a Argentina, principalmente por sua maior competitividade e capacidade de ampliar a oferta”, afirma Maurício Nogueira, diretor da Athenagro.

Segundo ele, o momento favorece o Brasil porque a carne nacional está mais competitiva em um período de reorganização dos fluxos globais.

“Estamos perdendo uma parcela importante das exportações para a China em razão da salvaguarda. A abertura do mercado norte-americano ocorre em um contexto no qual a carne brasileira se tornou ainda mais competitiva, criando uma oportunidade que precisa ser aproveitada”, diz.

Segundo a Abiec, o setor ainda trata com cautela a decisão do republicano. A entidade afirmou não ter detalhes sobre os volumes, os critérios de distribuição ou os países que poderão utilizar a nova cota.

“Uma eventual ampliação da cota tarifária pode beneficiar o Brasil”, afirmou em nota.

Crise da carne nos EUA

O anúncio de Trump ocorre em um momento em que os frigoríficos americanos enfrentam um dos períodos mais difíceis do ciclo pecuário nos Estados Unidos, marcado pela menor disponibilidade de animais, aumento dos custos e margens apertadas.

Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. Já o rebanho bovino total dos EUA atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir as áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar o caixa.

Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com isso, os Estados Unidos perderam para o Brasil a liderança global na produção da proteína.

As restrições sanitárias impostas às importações de gado do México, um dos principais fornecedores dos Estados Unidos, em razão do avanço da bicheira-do-Novo-Mundo, adicionaram pressão à disponibilidade de animais no país.

O resultado é alta nos preços da carne bovina. Desde 2020, a valorização chega a 75%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis. Segundo o USDA, os preços da proteína estão 16% acima dos níveis registrados há um ano, tornando a carne bovina um dos principais símbolos da inflação persistente no país, especialmente às vésperas da temporada de churrascos de verão.

A situação fez a Tyson Foods, um dos principais frigoríficos dos EUA, a fechar unidades no país. Além dela, JBS e Cargill encerraram operações em unidades nos Estados Unidos em 2025, em um movimento interpretado por analistas como sinal de que as condições da indústria são ainda mais difíceis do que o esperado.

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