Zendaya usa vestido Jacquemus e brincos de ouro de Ziwiye, com origem no primeiro milênio a.C., em evento de ‘A Odisseia’ em Londres (Reprodução/Instagram)
Jonalista colaborador
Publicado em 27 de julho de 2026 às 18h03.
Um par de brincos foi o suficiente para deslocar a conversa sobre o guarda-roupa de Zendaya para um território bem diferente do habitual. A atriz, conhecida ao lado do stylist Law Roach por escolhas de moda que rendem manchete, como o traje prateado inspirado em robô de Thierry Mugler usado em 2024 na divulgação de Duna: Parte Dois, ou o vestido Schiaparelli em forma de escultura de mármore que estreou horas antes de ela vesti-lo neste mês.
Dessa vez, em outro evento de divulgação de A Odisseia, o assunto girou em torno de uma joia com quase três mil anos de história.
No evento em Londres, Zendaya usou um vestido marfim com capuz da grife francesa Jacquemus e complementou o look com brincos de discos de ouro e diamantes. Segundo a galeria londrina Barron London, especializada em joias e pedras raras, que publicou uma foto da atriz usando a peça em seu Instagram, a origem dos discos remonta ao primeiro milênio antes de Cristo. No site da galeria, os brincos são descritos como placas medalhão de ouro de Ziwiye, montadas com diamantes pelo joalheiro Glenn Spiro.
A Barron afirmou, em comunicado ao jornal britânico The Guardian, ter adquirido as peças em 2025 diretamente de Spiro, cuja coleção Materials of the Old World reúne artefatos antigos convertidos em joias. Representantes de Zendaya, de Law Roach, da galeria e do joalheiro não responderam a pedidos de comentário.
Os discos fazem parte do chamado tesouro de Ziwiye, um conjunto de objetos escavado na década de 1940 nos arredores do castelo de Ziwiyeh, no noroeste do Irã. Peças do mesmo achado circulam hoje por museus ao redor do mundo, entre eles o Metropolitan Museum of Art, em Nova York.
Anne Hathaway usou relógio da Bulgari cravejado de diamantes, com uma moeda romana antiga incrustada na caixa, no mesmo evento de "A Odisseia" em Londres (Reprodução/Instagram)
A repercussão negativa partiu principalmente de arqueólogos. A criadora de conteúdo e arqueóloga Dr. Z classificou o uso do artefato como forma de fetichizar o passado, com risco de estimular o mercado ilegal de antiguidades. Peter Edwell, professor de história e arqueologia da Universidade Macquarie, em Sydney, disse ao New York Times que o material carrega problemas de procedência conhecidos do meio acadêmico. Segundo ele, a documentação sobre boa parte dos achados do período no Oriente Médio é escassa, e o cenário mais provável envolve pilhagem e saque.
Vestir peças com esse tipo de passado não é exatamente novidade no red carpet, que já vem sendo palco de disputas por deep cuts de moda e referências históricas há alguns anos. Anne Hathaway, colega de elenco de Zendaya em A Odisseia, usou no mesmo evento em Londres um relógio da Bulgari cravejado de diamantes, com uma moeda romana antiga incrustada na caixa. Meses antes, na première de O Morro dos Ventos Uivantes, Margot Robbie apareceu com o colar Taj Mahal, da Cartier, joia que pertenceu a Elizabeth Taylor, presente do marido Richard Burton. A pedra central havia sido dada pelo imperador mogol Shah Jahangir ao filho Shah Jahan, que décadas depois ordenou a construção do próprio Taj Mahal, no século 17.
Ainda em entrevista ao New York Times, Edwell comentou que, ao aparecer com peças carregadas de história, celebridades acabam sendo incorporadas a essa narrativa, tornando-se parte dela diante do público.
Parte da crítica recebida por Zendaya também esteve ligada ao momento político. A arqueóloga e produtora Annelise Baer, radicada em Los Angeles, disse ao New York Times que os bombardeios em curso no Irã podem ter intensificado a reação ao look, somados ao racismo que a atriz e a colega de elenco Lupita Nyong'o enfrentam desde que o elenco da adaptação da epopeia grega foi anunciado. Já a Barron, em comunicado ao Guardian, reconheceu esse cenário, dizendo esperar que os brincos também sirvam para lembrar ao público o legado cultural, artístico e histórico do Irã, num momento em que o país costuma ser lido apenas pela lente da política atual.
Baer chegou a publicar um dos primeiros comentários públicos sobre o episódio, defendendo que a entrada de artefatos antigos no universo fashion pudesse ser vista de forma positiva. A repercussão nas redes foi contrária, e ela optou por desativar os comentários da publicação. Em depoimento ao New York Times, afirmou considerar que a polêmica teve um efeito relevante ao levar para o debate público discussões sobre propriedade de antiguidades, procedência e colonialismo, que costumam ficar restritas a conselhos de museus e especialistas do setor.