(Reprodução/Pinterest)
Publicado em 8 de julho de 2026 às 17h44.
A Seleção Brasileira foi eliminada nas oitavas de final da Copa do Mundo pela Noruega. A camisa amarela, porém, sobreviveu ao fracasso esportivo e ganhou uma nova temporada fora dos gramados.
As vendas de camisas de futebol nos e-commerces brasileiros movimentaram R$ 1,2 bilhão entre janeiro e junho de 2026, alta de 80,2% sobre o mesmo período de 2025. Foram mais de 4 milhões de unidades vendidas, com ticket médio de R$ 295,90, segundo levantamento da Confi por meio de sua plataforma de dados Neotrust.
A amarelinha é o retrato mais claro do fenômeno. Entre o lançamento, em 13 de março, e 2 de junho, foram 915 mil unidades vendidas e R$ 382 milhões em faturamento, o equivalente a 48,7% de toda a categoria, ainda de acordo com o mesmo estudo. As vendas aconteceram antes de a bola rolar, já que o torneio só começou em 11 de junho.
A ascensão da jersey como item de moda, dentro e fora do contexto da Copa, dominou o Jersey Club Dafiti, evento realizado pela fashiontech em parceria com a Adidas na última segunda-feira, 6, no Edifício Copan, no centro de São Paulo. Palco da 2ª edição do Dafiti Fashion Talks, o encontro reuniu Bárbara Ikari, head de marketing da Adidas; a embaixadora da marca Ana Flavia Lobo; Graziela Araújo, Lead Client Partner do Pinterest; e a especialista em tendências, Iza Dezon, em conversa conduzida por Caroline Rullo, host da Dafiti.
"Já não é de hoje que a cultura de camisas de futebol entrou para o streetwear. Esperávamos um aumento de busca e de venda por esse produto, e ele aconteceu, principalmente com as linhas da Adidas, que estão muito alinhadas com o que vemos na moda urbana", diz Daniel Soares, CCO da Dafiti para Brasil e Colômbia.


Um ponto de observação é como a camisa da seleção é usada. Em vez do short e da chuteira, a peça também compõe looks de alfaiataria. "Desde que a jersey culture começou, ela está muito vinculada às roupas de alfaiataria, principalmente às peças mais amplas. Normalmente vemos um consumo conjunto, e também dos tênis de perfil mais baixo, que lembram uma chuteira, como foi o Samba", diz Daniel.
A aposta foi planejada com antecedência. A Dafiti visitou a central da Adidas na Alemanha nove meses antes do torneio para conhecer os lançamentos e montar seu estoque para a Copa do Mundo.
O perfil do consumidor ajuda a explicar por que o fenômeno explodiu no digital. Levantamento da Serasa Experian aponta que cerca de 13,5 milhões de brasileiros têm maior propensão a ampliar gastos durante a Copa. Nesse grupo, 87% compram online, quase o dobro dos 44% registrados na população geral.
Dentro de campo, a Copa produziu sua própria tendência: as chuteiras rosas. Nike, Adidas, Puma e New Balance chegaram ao Mundial com coleções lançadas em períodos próximos e em variações do mesmo rosa vibrante, o chamado "electric fuchsia", movimento registrado por veículos como o New York Times e a BBC. A cor domina os gramados, mesmo sem aparecer no uniforme de nenhuma das 48 seleções do torneio, e calçou brasileiros como Vini Jr. e Matheus Cunha.
Chuteira rosa: peça esteve presente nos pés de diversos atletas como Vini Jr. e Matheus Cunha
A escolha é estratégica: o rosa oferece contraste máximo com o verde do gramado e ganha destaque em transmissões, replays e vídeos para redes sociais. Odinga Nimako, da equipe global de calçados de futebol da Nike, disse ao jornal The Athletic que a demanda partiu dos próprios atletas, para quem "cores vibrantes dão confiança".
A Copa acelera as vendas, mas o que sustenta o fenômeno é uma virada cultural mais ampla: a valorização de símbolos brasileiros pelo mercado global de moda. Segundo o Google Trends, as buscas pelo termo "brazilcore" dispararam mais de 5.000% na comparação com os três meses anteriores.
O termo batiza a estética que transforma símbolos nacionais em roupa: a camisa amarela da Seleção combinada com alfaiataria ou jeans largo, o verde e amarelo da bandeira em bonés, bolsas e acessórios, as Havaianas e referências da cultura popular brasileira incorporadas ao streetwear. O movimento ganhou projeção global em 2022, quando celebridades internacionais como Bella Hadid e Hailey Bieber apareceram com o uniforme da CBF fora dos estádios, e voltou com força no ciclo da Copa de 2026.
Dentro da Dafiti, o comportamento se repete. As pesquisas por "brazilcore" na plataforma cresceram 829% no último trimestre, segundo dados internos da companhia, enquanto as buscas por "Brasil" subiram 506% e por "camisa de futebol", 40%.
O futebol é a porta de entrada, mas não o limite. No terceiro trimestre de 2025, a Havaianas liderou o ranking global de produtos mais desejados da plataforma de moda Lyst, reforçando que sandálias, cores da bandeira e referências populares brasileiras circulam hoje como ativos de desejo na moda internacional.
E a vitrine ainda não fechou. Com as quartas de final começando nesta quinta-feira, 9, e a decisão marcada para 19 de julho, o varejo tem quase duas semanas de audiência global pela frente. A próxima aposta da parceria entre Dafiti e Adidas já mira o pós-Copa: o tênis Adidas Megaride, silhueta que resgata a estética retrô-tech dos anos 2000 e se consolidou como principal destaque das marcas no ecossistema de moda urbana. "A camisa de time ganhou o status de item indispensável no guarda-roupa urbano", diz Soares.