Trump e Lula: tarifaços americanos amargam a diplomacia com o Brasil, e os resultados econômicos já se tornaram visíveis (Divulgação)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 22 de junho de 2026 às 17h24.
A participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu ao menor nível desde o início da série histórica do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), iniciada em 1997 durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC).
Entre agosto de 2025 e maio de 2026, os americanos responderam por 9,3% das vendas externas do Brasil, segundo levantamento divulgado pelo jornal Valor Econômico.
O recuo ocorre após o tarifaço anunciado pelo governo de Donald Trump em julho de 2025, que elevou as tarifas aplicadas a produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos. Antes da entrada em vigor das medidas, entre agosto de 2024 e maio de 2025, os EUA representavam 12,4% da pauta de exportações brasileira.
O movimento reforça uma tendência de perda gradual de participação do mercado americano no comércio exterior brasileiro, ao mesmo tempo em que evidencia uma mudança estrutural na relação comercial entre os dois países. No início dos anos 2000, os EUA chegaram a responder por cerca de 26% das exportações brasileiras, no auge da série histórica.
Segundo o levantamento do Valor, a fatia dos EUA já vinha diminuindo nas últimas décadas devido ao crescimento da participação chinesa nas compras brasileiras, principalmente de commodities. A China passou a ocupa atualmente o maior espaço na pauta brasileira.
Dados da Balança Comercial Brasileira, divulgados pelo Governo Federal, mostram que as exportações para o país asiático cresceram 21,8% entre janeiro e maio de 2026, alcançando US$ 46,26 bilhões.
O impacto recente, porém, ocorreu em um intervalo mais curto e foi associado às novas barreiras comerciais.
Os efeitos da redução das vendas aos Estados Unidos foram registrados em praticamente todo o país. Segundo o levantamento, 24 dos 26 estados e o Distrito Federal tiveram queda na participação americana em suas exportações após a adoção das tarifas.
A retração também aparece nos dados mensais do governo brasileiro. Apenas no mês de maio, as exportações para os Estados Unidos somaram US$ 3,09 bilhões, uma queda de 14% na comparação com o mesmo mês do ano anterior, logo antes do tarifaço de Trump ser anunciado.
No acumulado dos cinco primeiros meses do ano, a corrente de comércio entre Brasil e EUA caiu 14,3%, para US$ 29,49 bilhões.
No período, as importações brasileiras de produtos americanos também recuaram. Entre janeiro e maio, as compras do Brasil de produtos dos Estados Unidos diminuíram 12,6%, para US$ 15,48 bilhões, enquanto a balança comercial com o país registrou déficit de US$ 1,47 bilhão.
Apesar da retração nas vendas para os Estados Unidos, as exportações totais brasileiras continuaram em expansão. Segundo a Balança Comercial Brasileira, o Brasil exportou US$ 148,57 bilhões entre janeiro e maio de 2026, alta de 8,7% em relação ao mesmo período de 2025.
O governo brasileiro informou que, no acumulado de janeiro a maio, o setor agropecuário exportou US$ 34,53 bilhões, alta de 7,3%. A indústria extrativa somou US$ 36,47 bilhões, crescimento de 17,3%, enquanto a indústria de transformação alcançou US$ 76,76 bilhões, avanço de 5,6%.
O desempenho foi impulsionado principalmente pelo aumento das vendas para a China. No acumulado do ano, as exportações para a China cresceram 21,8%, enquanto as vendas para a União Europeia aumentaram 6,7%, chegando a US$ 21,81 bilhões.
O país asiático também ampliou as importações de produtos brasileiros no acumulado do ano, com superávit comercial para o Brasil de US$ 15,50 bilhões entre janeiro e maio.
A queda na participação americana ocorre em meio à possibilidade de novas medidas tarifárias dos Estados Unidos contra produtos brasileiros.
O Brasil tem argumentado que mantém uma relação comercial historicamente favorável aos Estados Unidos. De acordo com o embaixador Maurício Lyrio, o país acumulou déficit comercial de cerca de US$ 400 bilhões com os americanos ao longo das últimas décadas.
As negociações entre os dois países seguem em andamento, mas representantes brasileiros avaliam que há dificuldades para avançar em alguns pontos apresentados pelo governo americano.
A audiência pública do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos está prevista para 6 de julho, etapa que poderá anteceder novas decisões sobre as tarifas.