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Jane Austen: como uma escritora do século XIX moldou a comédia romântica

Duzentos anos após a morte da autora, seus seis romances seguem sendo adaptados, reinterpretados e copiados por Hollywood, Bollywood e até pela televisão brasileira

Jane Austen: escritora britânica morta em 1817 tem todos os romances adaptados para cinema e TV. (Imagem gerada por IA/EXAME)

Jane Austen: escritora britânica morta em 1817 tem todos os romances adaptados para cinema e TV. (Imagem gerada por IA/EXAME)

Publicado em 25 de abril de 2026 às 06h01.

Em 1995, uma adolescente loira de Beverly Hills chamada Cher Horowitz apareceu nas telas americanas planejando a vida amorosa das pessoas ao redor enquanto ignorava os próprios sentimentos. "As Patricinhas de Beverly Hills" foi um sucesso imediato — e poucos espectadores perceberam que estavam assistindo a uma adaptação de Emma, romance publicado por Jane Austen em 1815.

Esse descompasso entre a origem literária e o produto final é, em si, a melhor prova do poder de Austen: suas estruturas narrativas funcionam tão bem que atravessam séculos, continentes e gêneros sem perder a forma.

Morta em 1817, aos 41 anos, Austen publicou seis romances completos em vida ou logo após sua morte: Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, Mansfield Park, Emma, Persuasão e A Abadia de Northanger. Todos foram adaptados para cinema e TV. Várias vezes.

O boom dos anos 1990 e a 'Austenmania'

Críticos e acadêmicos identificam entre 1995 e 1999 o momento em que a popularidade de Austen na cultura de massa atingiu seu pico moderno.

Em menos de quatro anos, Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade, Persuasão, Emma e Mansfield Park ganharam novas versões para cinema ou TV simultaneamente. O fenômeno foi batizado de "Austenmania" — e não se limitou à Inglaterra.

O filme "Sense and Sensibility" (1995), dirigido por Ang Lee com roteiro e atuação de Emma Thompson, abriu o ciclo com força e conquistou o Oscar de melhor roteiro adaptado.

No mesmo ano, a minissérie da BBC de "Orgulho e Preconceito", com Colin Firth como Mr. Darcy, tornou-se fenômeno cultural britânico.

Em 1996, "Emma" chegou às telas com Gwyneth Paltrow.

A cada nova produção, o nome de Austen voltava às listas de mais vendidos das livrarias.

Orgulho e Preconceito como template do rom-com

De todos os romances, Orgulho e Preconceito (1813) é o mais adaptado e o de maior influência estrutural sobre o cinema. O arco entre Elizabeth Bennet e Mr. Darcy — dois protagonistas que se julgam mal, trocam farpas e, ao longo da narrativa, reconhecem o valor um do outro — tornou-se o esqueleto da comédia romântica contemporânea.

Roteiristas como Nora Ephron já afirmaram publicamente que praticamente toda romcom moderna deriva de duas fontes: A Megera Domada, de Shakespeare, e Orgulho e Preconceito.

O filme de 2005, dirigido por Joe Wright com Keira Knightley e Matthew Macfadyen, é a versão cinematográfica mais recente da trama original. Mas a influência aparece com ainda mais clareza nas releituras.

"O Diário de Bridget Jones" (2001) é assumidamente inspirado no romance, inclusive com Colin Firth — o mesmo Mr. Darcy da BBC — no papel de um executivo contemporâneo com o mesmo sobrenome.

A transposição funciona porque o conflito de fundo é idêntico: orgulho mal colocado, preconceito de classe e o momento em que os dois cedem.

Emma, As Patricinhas de Beverly Hills e a arte de traduzir Austen

Se "Orgulho e Preconceito" é o modelo do rom-com, "Emma" é o romance que melhor demonstra a adaptabilidade dos enredos de Austen a outros contextos culturais. Além das versões fiéis de 1996 e 2020 — esta última com Anya Taylor-Joy —, o romance gerou duas transposições radicais que se tornaram clássicos por conta própria.

"As Patricinhas de Beverly Hills" (1995) desloca a trama para Beverly Hills e transforma Emma Woodhouse em Cher Horowitz, uma garota rica obcecada em arranjar casamentos enquanto ignora seus próprios sentimentos.

A produção é descrita oficialmente como "livremente baseada em Emma" e é citada em estudos de adaptação como exemplo de "transcoding": transportar enredo e conflitos para outro tempo e espaço mantendo o esqueleto dramático intacto.

"Aisha" (2010), produção indiana, faz o mesmo movimento em direção à alta sociedade de Déli, mostrando que os mecanismos criados por Austen funcionam igualmente bem em Mumbai ou em Los Angeles.

Pesquisadores de adaptação apontam que isso é possível porque os romances têm estruturas muito sólidas — heroína espirituosa, conflito social, transformação emocional, final romântico — que funcionam tanto em trajes de época quanto em cenário de shopping.

Bollywood, Brasil e a ironia que viaja bem

A capacidade de Austen de atravessar culturas fica evidente quando se mapeia a distribuição geográfica de suas adaptações. "Bride and Prejudice" (2004) recria "Orgulho e Preconceito" como musical bollywoodiano. "Kandukondain Kandukondain" (2000) transpõe "Razão e Sensibilidade" para o Tamil Nadu.

No Brasil, a novela das 18h da Globo Orgulho e Paixão (2018), escrita por Marcos Bernstein, reuniu personagens e tramas de seis obras de Austen em um único folhetim, ambientado no interior de São Paulo no início do século XX.

Em entrevistas à Época, Bernstein descreveu Austen como uma "autora pop" com um universo de heroínas fortes e romances perfeitamente encaixáveis na estrutura da telenovela brasileira.

A afirmação resume que o que Austen criou no início do século XIX tem muito mais em comum com o folhetim do que com a literatura canônica, e é exatamente por isso que resiste tão bem às telas.

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