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De shows vazios ao Carnaval de sete cidades: a história de sucesso do Monobloco

Após um início turbulento no começo da década de 2000, o tradicional bloco carioca se consolidou como um dos maiores nomes do Carnaval nacional

 (Monobloco/Divulgação)

(Monobloco/Divulgação)

Paloma Lazzaro
Paloma Lazzaro

Estagiária de jornalismo

Publicado em 7 de fevereiro de 2026 às 06h00.

O Monobloco encerrará, mais uma vez, o Carnaval carioca. Parte do Circuito Preta Gil, que reúne os maiores blocos de rua da capital fluminense, o grupo desfilará no dia 22 de fevereiro próximo à Rua Primeiro de Março.

"Isso já é uma tradição nossa de encerrar o carnaval do Rio de Janeiro no domingo após o sábado o desfile das campeãs", afirma o empresário do Monobloco, Flávio Goulart, em entrevista à EXAME.

Duas semanas antes, o bloco fará seu desfile em São Paulo, no Parque Ibirapuera. Após 26 anos de sua fundação, o Monobloco conseguiu se transformar em um dos principais entes do carnaval de rua nas duas maiores cidades do Brasil.

Um  para essa projeção é o alto volume de eventos durante a época de Carnaval. Este ano serão 16 eventos em sete cidades diferentes de cinco unidades federativas: São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Florianópolis (SC), Brasília (DF), Ouro Preto (MG), Votuporanga (SP) e Macaé (RJ).

Outro motivador para essa ascensão foi motivada pelo repertório musical diverso, interpretado pelos mais de 200 ritmistas, formados anualmente nas oficinas de batuque promovidas pelo bloco para paulistas e cariocas.

Circuito Preta Gil: o Monobloco integra o circuito de megablocos que ocorre no Centro do Rio de Janeiro (Monobloco/Divulgação)

"Diferente dos blocos de carnaval da época em que começamos, Monobloco trouxe canções que não eram só samba e isso, para mim, foi o sucesso dele", diz Goulart. O grupo começou a trazer músicas pop, o samba funk, o samba tradicional, disco, xote, reggae e outros ritmos. "Era uma salada", afirma o empresário. "A gente fala que é um 'jovelhinho'. Sempre tentamos tenta se oxigenar através do roteiro musical."

Além do carnaval, o Monobloco mantém atividades ao longo do ano. "Como é que a gente se sustenta? Foi criado um formato menor, compacto, com músicos profissionais que já eram do ambiente Monobloco. Isso nos possibilitou fazer shows no Brasil inteiro, ao longo do ano inteiro", afirma Goulart.

Uma dessas atividades é o Arraial do Monobloco, em que músicas de São João, como Elba Ramalho, Amelinha, Geraldo Azevedo e Luiz Gonzaga, são tocadas nos instrumentos de escola de samba.

O Monobloco nem sempre teve sucesso

Na virada do milênio, a banda Pedro Luiz e a Parede fundou o Monobloco no Rio de Janeiro.

Dois fundadores e dois integrantes da banda eram professores de percussão. "Papo vai, papo vem, eles começaram a ir para essa vertente de percussão e começou aquela ideia de fazer um bloco. Para fazer um bloco, precisávamos de gente, então decidimos dar aula e criar alunos", conta Goulart, que na época era produtor da banda.

Os primeiros shows foram um fracasso retumbante, de acordo com o empresário.

"Não ia ninguém. A gente tocava numa casa chamada Malagueta em São Cristóvão, que era um local dominado pelo forró. Teve os parceiros, Seu Jorge foi da canja com a gente, mas não pegava. Foram três shows tomando prejuízo", relembra.

A guinada veio quando grupo começou a se apresentar no espaço onde ensaiava, na Pacheco Leão, na Zona Sul do Rio. "Esse era o público do Pedro Luiz e a Parede. Um dos administradores do clube ligou que havia vagado uma data. Na primeira sexta-feira quando a gente foi tocar nesse novo lugar foi sucesso. E aí o Monobloco decolou", diz Goulart.

Um bloco para grandes públicos

Em 2025, a concentração na Avenida Presidente Vargas, no centro do Rio de Janeiro, atraiu 1 milhão de foliões, de acordo com Goulart. Conquistar públicos comparáveis à população de uma capital não é novidade para eles, em 2013 a marca de 500 mil já havia sido batida no Rio.

Desfiles no Rio: o Monobloco se consagrou como um dos maiores da cidade e, anualmente, fecha a folia após o Desfile das Campeãs (Monobloco/Divulgação)

Na capital paulista, a situação não é muito diferente. No último Carnaval pré-pandêmico, em 2020, o bloco levou 400 mil pessoas ao Parque do Ibirapuera.

Além do número de pessoas, o Monobloco também se integrou à cultura das cidades. Um dos episódios inusitados da política da década passada fazia referência a ele: o "#MoroBloco".

Em 2016, em um protesto em Copacabana, um grupo de 35 apoiadores do juiz Sérgio Moro, que tinha se projetado nacionalmente com a Operação Lava-Jato, usaram uma camiseta amarela identificada como #MoroBloco. O nome do grupo, que contou com a participação dos atores Marcelo Serrado e Susana Vieira, era um trocadilho do nome do juiz com bloco de Carnaval.

Uma década e três presidências depois, o Monobloco continua nas ruas, apesar de não ter mais sido citado em disputas políticas semelhantes.

As oficinas de batuque

Desde o início, a oficina de batuque é uma atividade que o Monobloco compartilha entre São Paulo e Rio de Janeiro. Aliás, a primeira oficina, mais de uma década atrás, foi realizada na capital paulista, no Sesc Vila Mariana.

"O Sesc viu que trabalhamos com instrumentos de percussão e nos chamaram para dar aula para alguns funcionários e sócios do Sesc. Foi uma oficina de aproximadamente quatro dias, e deu super certo. A partir de então pensamos: 'a gente tem um método, a gente pode melhorar esse método, vamos colocar em prática'", diz Goulart.

Outros blocos cariocas já haviam feito o mesmo em São Paulo, como o Bangalafumenga, em 2011, e o Quizomba, em 2012. Seguindo esses exemplos, o Monobloco conquistou espaço na capital paulista e mantém a atividade desde então nas duas cidades.

Para Goulart, o modelo funciona como "faculdade" para os ritmistas e mantém a qualidade musical dos desfiles. "O aluno entra lá sem saber tocar nada em maio, faz o curso inteiro até o carnaval e desfila com o Monobloco. É um momento muito importante para ele."

Oficinas de batuque: parte importante do sucesso do Monobloco se deve ao engajamento criado nas oficinas (Monobloco/Divulgação)

O bloco também tentou expandir para a oficina para Belo Horizonte, mas não conseguiu por motivos logísticos e financeiros. "Desfilamos três anos lá, foi muito legal, mas a conta não fechava. Tivemos que optar qual cidade a gente ia sacrificar", diz Goulart.

União carnavalesca SP-RJ

O Monobloco não é o único que se apresenta nas duas grandes capitais, mas seu modelo tem essa disseminação como fator central.

A administração do bloco ocorre de maneira conjunta entre Rio de Janeiro e São Paulo, explica o fundador do Grupo Pipoca, Rogério Oliveira. O grupo é responsável por grandes nomes do carnaval de rua paulistano e é parceiro do Monobloco em São Paulo.

"Nós somos grandes parceiros. Hoje a gente faz para eles também todo esse trabalho com marcas, não só em São Paulo, mas também para o Rio de Janeiro. A gente é uma unidade, o nome já diz aí, o Monobloco é grudado, com uma administração centralizada, exceto no operacional das oficinas", diz Oliveira.

Ele conheceu o modelo de carnaval de rua com oficinas de percussão em 2011, no Rio, e decidiu trazê-lo para a capital paulista. O Monobloco teve um papel relevante nessa virada.

"Em 2013, a Pipoca organizou um desfile numa rua sem saída na Vila Madalena. Apareceram 50 mil pessoas para esperar o bloco, esse foi o estopim para a cidade, para a prefeitura, perceber o potencial adormecido que existia e uma demanda do paulistano por Carnaval", conta Oliveira, que trabalhou 17 anos no mundo corporativo antes de se dedicar ao carnaval.

Desfiles de rua: durante o Carnaval, o Monobloco se alterna entre diversas cidades, mas os dois maiores desfiles se mantém no Rio de Janeiro e em São Paulo (Monobloco/Divulgação)

Para ele, o diferencial do carnaval de rua está no protagonismo. "O folião pode criar o bloco dele e ser artista, pode ser vocalista sem nunca ter sido cantor. Uma pessoa pode entrar numa oficina de percussão, se tornar um bom batuqueiro e fazer parte do Monobloco."

A relação com o poder público também evoluiu ao longo dos anos. "Nosso relacionamento com o poder público e com todas essas entidades é muito bom. Eu venho de grandes eventos, então essa relação sempre foi boa. O Monobloco nunca bateu de frente. A gente entende das regras, a gente segue as regras. O diálogo sempre existe e sempre foram abertos", afirma Goulart.

O empresário também acredita que os grandes eventos realizados na década passada foram essenciais na formação de expertise.

"A gente criou uma universidade rápida durante a Copa do Mundo de 2014. No Rio de Janeiro, logo depois, a gente teve a Olimpíada. Foi uma pós-graduação", afirma. "O Rio tem um prefeito que enxerga no carnaval uma grande oportunidade para taxistas, vendedores ambulantes e para o setor de hotelaria como um todo. Tratar bem as pessoas que vêm para cá é fundamental."

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