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Casal tinha R$ 700 mil para erguer casa. Em vez disso, abriram negócio que hoje fatura R$ 16 mi

A Twiggy cria um 'DNA' único para todo tipo de peça e já atende Arezzo, Grupo Soma e Michael Kors; agora, acelera a expansão no mercado americano

Ian Oliveira e Ariadne Alcântara, da Twiggy: plano dos fundadores é ter ponte Brasil-Nova York

Ian Oliveira e Ariadne Alcântara, da Twiggy: plano dos fundadores é ter ponte Brasil-Nova York

Laura Pancini
Laura Pancini

Repórter

Publicado em 10 de janeiro de 2026 às 07h30.

A Twiggy, startup brasileira de inteligência artificial aplicada ao varejo de moda, saiu de um app quase inviável financeiramente para um negócio que faturou R$ 12 milhões em 2024, deve fechar 2025 em R$ 16 milhões e projeta dobrar esse valor em 2026, impulsionada pela expansão nos Estados Unidos.

Criada em 2022 pelos paulistas Ian Oliveira e Ariadne Alcântara, a empresa desenvolveu uma tecnologia própria de busca e recomendação de roupas por imagem. Em vez de depender apenas de filtros tradicionais, como cor e tamanho, a ferramenta “lê” fotos de peças, extrai mais de 200 atributos (como caimento, tipo de estampa e detalhes de acabamento) e cria um código de identificação da peça.

Como o DNA, cada peça acaba com uma combinação única em código. Assim, consegue sugerir itens semelhantes em segundos dentro do e-commerce das marcas.

Isso permite, por exemplo, que o sistema entenda que uma jaqueta com zíper lateral e determinado tipo de estampa combina mais com o gosto do usuário do que outra peça que é similar somente na cor.

A associação acontece não devido ao que a IA vê na imagem, mas por conta de trechos semelhantes nos códigos de cada peça. O resultado: mais itens relevantes mostrados em menos cliques — e carrinhos mais cheios.

Hoje, a plataforma oferece três pilares principais: busca inteligente por texto, busca por imagem e vitrines de recomendação. A Twiggy promete elevar em cerca de 30% tanto a taxa de conversão quanto o ticket médio dos sites de moda.

Atualmente, a startup atende mais de 40 marcas brasileiras — incluindo Grupo Soma (Animale, Hering, entre outras), Arezzo e Shoulder — e quatro marcas americanas, como Michael Kors, Anthropologie e Steve Madden. Como o tíquete costuma ser mais alto, cerca de 70% da receita já vem dos Estados Unidos.

Casa própria ou negócio próprio?

Antes de empreender, Ian Oliveira atuou em áreas de pesquisa de negócios e gestão de produto em empresas como o Shopping Iguatemi; Ariadne Alcântara construiu carreira em tecnologia, com foco em qualidade de software e eficiência operacional em grupos como a rede de farmácias DPSP (Drogaria São Paulo e Drogarias Pacheco).

Os dois se conheceram em hackathons de tecnologia. Anos depois, quando já eram um casal, decidiram investir R$ 700 mil que haviam separado para construir uma casa no interior de São Paulo em uma ideia ainda incerta de negócio. “Ou era a casa, ou era a empresa”, diz Oliveira.

A Twiggy nasceu como um app feito para o consumidor final. O usuário tirava a foto de um look e encontrava peças parecidas em outras marcas. A primeira versão chegou a 60 mil downloads, mas gerava pouca receita e quase levou ao fechamento da empresa.

O ponto de virada veio quando os fundadores decidiram migrar para o modelo B2B (de empresa para empresa). A partir daí, o usuário passou a encontrar recomendações e buscas por imagem embutidas na própria experiência de compra — sem precisar instalar um novo aplicativo no celular.

Desde então, a empresa levantou R$ 600 mil com Bossa Nova e WOW Aceleradora em 2022 e, em 2023, entrou para o Google Black Founders Fund, programa voltado a fundadores negros. Em 2024, anunciou uma rodada pre-seed de R$ 3,5 milhões com o fundo soberano do Espírito Santo (FUNSES), Bossa Invest, WOW Aceleradora e ACE Ventures.

“Motor invisível” dos e-commerces

No exterior, a Twiggy enfrenta concorrentes que já provaram sua tese de personalização em escala. Um dos benchmarks citados pela dupla é a Dynamic Yield que, em 2019, foi comprada pelo McDonald's por US$ 300 milhões e posteriormente vendida para a Mastercard por um valor não divulgado.

Quando trabalhava com a rede de fast food, por exemplo, a Dynamic desenvolveu uma tecnologia para os drive-thrus que associava a placa do carro ao último pedido feito pelo cliente. Assim, já sabia exatamente o que sugerir no guichê.

A disputa, portanto, não é só tecnológica, mas também de acesso a dados e poder de integração com grandes redes.

Por enquanto, a promessa da startup é ser o “motor invisível” de IA no fundo do site: o consumidor continua navegando pela vitrine da marca favorita, mas a lógica de quais produtos aparecem, quando e para quem passa a ser definida por algoritmos próprios da Twiggy.

Startup de IA que ‘ouve’ vendedores em lojas físicas levanta R$ 13 milhões

Para alcançar R$ 30 milhões em faturamento até 2026, a startup prepara o lançamento de um novo produto, batizado de Twiggy Cart Recovery, focado na recuperação de carrinhos abandonados em sites de moda. A ideia é ir além dos e-mails genéricos de “você esqueceu algo no carrinho” e usar conversas automatizadas para entender, de fato, por qual motivo o usuário desistiu da compra.

Em vez de apenas oferecer cupons de desconto, a ferramenta promete identificar causas estruturais de abandono (como fretes altos em determinadas regiões ou prazos de entrega pouco competitivos) e devolver esses insights para as marcas, que podem renegociar contratos de logística ou rever políticas comerciais.

O produto deve ser lançado inicialmente para a base atual de clientes, no Brasil e nos Estados Unidos, e depois oferecido a novos contratos. Se funcionar, pode reforçar a posição da Twiggy como parceira estratégica não só na etapa de descoberta de produtos, mas também na de retenção e recuperação de receita.

O plano dos fundadores é fazer uma ponte Brasil–Nova York nos próximos anos. Oliveira deve se mudar primeiro para os EUA, enquanto Alcântara mantém a operação no Brasil, numa divisão de tarefas que tenta equilibrar vida pessoal, casamento e expansão internacional.

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