Alexandre Baldasseirine (Nestal), Carlos Henrique Leclerc (CTO da Aliado), André Franco (CEO da Aliado), Romero Rodrigues (Headline) e Paulo Avian (Nestal)
Repórter
Publicado em 9 de janeiro de 2026 às 06h29.
A Aliado, startup de inteligência artificial para o varejo físico fundada há apenas oito meses, acaba de levantar R$ 13 milhões em uma rodada seed liderada pelos fundos Headline e Nestal, em um cheque bem acima da média para empresas tão jovens no ecossistema brasileiro.
Fundada em 2025 por André Franco (CEO) e Carlos Henrique Leclerc Oliveira (CTO), a Aliado se define como a primeira plataforma de Conversion Intelligence, inteligência de conversão, do país.
Usando microfones de lapela presos aos vendedores e uma camada própria de IA, a empresa captura e analisa cada interação em loja para responder a uma pergunta que varejistas têm dificuldade em enxergar: por que as vendas não acontecem.
A criação da Aliado promete treinar vendedores em tempo real e recuperar vendas segundos antes de serem perdidas, funcionando como um “coach de ombro” digital que dá feedback imediato após cada atendimento.
Eles têm menos de 30 anos e R$ 120 milhões para substituir vendedores com IA
O cheque de R$ 13 milhões é relevante em um mercado em que o valor médio investido ao longo de toda a trajetória de uma startup brasileira gira em torno de R$ 1 milhão, segundo dados da Abstartups.
A rodada, portanto, sinaliza uma aposta alta dos investidores em um nicho ainda pouco explorado: a inteligência de dados sobre “vendas perdidas” em lojas físicas.
O investimento foi liderado pela Headline, gestora global de venture capital comandada no Brasil por Romero Rodrigues. Os fundos brasileiros possuem US$ 500 milhões em ativos sob gestão em mais de 70 investimentos, incluindo companhias como Pismo, Creditas, Gympass, RD Station, Rappi, Olist, entre outras.
A Nestal, empresa criada por três ex-sócios da Easynvest: Alexandre Baldasseirine Neto, Carlos Avian e Paulo Avian, também liderou o aporte. “A expectativa é que em pouco tempo a Aliado se torne essencial, sendo aplicada em vários segmentos, desde moda até saúde, beleza, automotivo, imóveis, dentre outros”, diz Baldasseirine.
Os recursos serão usados para acelerar o desenvolvimento de produto e tecnologia, reforçar o time — hoje com cinco pessoas — e destravar a estratégia de entrada e expansão comercial com varejistas de médio e grande porte.
A dor que a Aliado tenta resolver é conhecida no varejo: os executivos sabem tudo sobre o que foi vendido, mas quase nada sobre o que ficou pelo caminho.
“Os varejistas me diziam: ‘eu tenho dez sistemas para analisar minhas vendas, mas não sei por que eu não vendo’”, diz Franco.
Hoje, muitas redes já contam fluxo de pessoas com câmeras inteligentes para descobrir a taxa de conversão — quantos clientes que entram saem com compra.
A Aliado tenta ir além: com microfones de lapela conectados a um software próprio, a ferramenta grava apenas os atendimentos, transcreve a conversa via IA e apaga o áudio em seguida.
Em cima do texto, a plataforma identifica padrões de comportamento, objeções mais comuns e causas da não conversão, como falta de estoque, preço, encaixe do produto ou falhas de atendimento.
Após cada interação, o vendedor recebe um “microtreinamento”: uma mensagem com nota e sugestões específicas de melhoria, baseada em um playbook de vendas, um manual com o passo a passo ideal de atendimento definido junto ao cliente.
A Aliado avalia pontos como abordagem, sondagem, explicação de produto e oferta de adicionais. Também indica, por exemplo, quando o vendedor esquece sistematicamente de sugerir um item complementar.
Do lado da gestão, a ferramenta entrega um painel de business intelligence focado em não conversão. Varejistas podem enxergar se estão perdendo vendas por ruptura de estoque, preço desalinhado ou falta de treinamento, além de receber alertas por WhatsApp sobre tendências em tempo real, como um aumento repentino na busca por um tipo específico de produto.
Um dos próximos recursos, batizado de “salva-vendas”, pretende avisar gerentes e vendedores, durante o atendimento, de que uma venda está prestes a ser perdida. Assim, consegue sugerir na hora o melhor argumento para contornar a objeção.
Se a promessa de elevar a conversão interessa ao caixa, a ideia de gravar atendimentos em loja acende o alerta da hipervigilância. Franco diz ter rejeitado, desde o início, qualquer posicionamento da Aliado como ferramenta de supervisão.
“Teve cliente que sugeriu chamar o produto de ‘supervisão’. A gente descartou na hora. Não queremos ser uma câmera escondida em cima do ombro de ninguém”, afirma.
Na prática, a empresa tenta se blindar em três frentes. A primeira é técnica: o áudio não passa por humanos, é transcrito pela IA e apagado imediatamente; a transcrição é anonimizada, retirando dados pessoais como nome e CPF. “Nem a Aliado, nem o varejista conseguem recuperar o áudio depois”, diz o fundador.
A segunda é operacional: quem controla o início e o fim da gravação é o vendedor, por meio de um controle conectado a um box instalado na loja. A ideia é gravar apenas momentos de atendimento, não conversas entre colegas ou pausas de trabalho.
A terceira é jurídica: a Aliado contratou um escritório de advocacia para desenhar um parecer sobre LGPD e fornecer modelos de comunicação a clientes, incluindo avisos em loja e termos específicos para colaboradores. Esses documentos estabelecem que os dados não podem ser usados como justificativa direta para demissão, mas sim para treinamento e gestão de desempenho.
À frente da operação está André Franco, um “serial founder” que chega à quinta startup. Antes da Aliado, ele fundou e vendeu a Dialog, empresa de comunicação interna e RH que já atendia grandes redes varejistas como Carrefour, Via Varejo e EspaçoLaser — experiência que serviu de pano de fundo para mapear as dores de treinamento e conversão em loja física.
Logo nas primeiras validações da Aliado, em 2025, Franco levantou R$ 500 mil em capital semente com investidores-anjo, como Marden Neubert, ex-CTO do PagSeguro. O aporte serviu para montar a equipe inicial de quatro pessoas e começar os primeiros pilotos.
Hoje, a empresa opera com cerca de dez varejistas entre clientes pagantes e testes avançados, em segmentos que vão de moda a concessionárias de veículos.
Em um dos casos citados por Franco, uma vendedora de carros saiu de cinco vendas mensais para 14 no mês em que passou a usar a ferramenta. O executivo admite que ainda não há massa de dados suficiente para atribuir o salto 100% à Aliado, mas diz ver uma correlação direta entre uso intenso da plataforma e aumento de vendas.
Pelos cálculos internos, um aumento de 3% na taxa de conversão já seria suficiente para pagar o custo da solução — a meta, porém, é entregar de 5 a 10 vezes o retorno sobre o investimento ao varejista.
O plano é fechar 2026 com mais de 30 colaboradores, reforçando principalmente as áreas de produto e tecnologia, e escalar a base de lojas ativas no Brasil antes de uma expansão internacional. A Aliado já está no Cubo, hub de inovação do Itaú, e participa de programas de startups de empresas como AWS, Nvidia e Google, em busca de créditos de nuvem e apoio técnico para treinar modelos de IA proprietários.
No lado tecnológico, a empresa combina hoje modelos de linguagem de mercado com uma camada própria de análise, mas pretende avançar para um modelo mais especializado. A ambição é que a plataforma deixe de apenas “seguir” o playbook de cada cliente e passe a sugerir novos roteiros de atendimento com base no que realmente converte — uma espécie de “upload” das melhores práticas dos top performers para o restante da equipe.
Nas palavras de Franco, a visão de longo prazo é que a Aliado deixe de ser vista apenas como uma plataforma de treinamento de vendedores e passe a operar como uma empresa de inteligência de dados de varejo, capaz de indicar tendências de consumo em tempo real para redes e marcas. "Como uma Nielsen do varejo", explica.