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Tarifas, shutdown e imigração: 10 pontos que resumem o 1º ano do governo Trump

O período incluiu ataques inéditos à autonomia do Federal Reserve, a captura de Maduro e ameaças sobre a Groenlândia

Donald Trump: presidente tem ameaçado anexar a Groenlândia (Jabin Botsford/The Washington Post/Getty Images)

Donald Trump: presidente tem ameaçado anexar a Groenlândia (Jabin Botsford/The Washington Post/Getty Images)

Publicado em 20 de janeiro de 2026 às 11h53.

Donald Trump completa, nesta terça-feira, 20, um ano de retorno à Casa Branca, em um período que analistas já classificam como um ponto de inflexão para os Estados Unidos e para a ordem global.

Em ritmo acelerado, o presidente combinou tarifaço comercial, endurecimento migratório, pressão aberta sobre o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e uma política externa mais agressiva, movimentos que mudaram a rotina de Washington e aumentaram a percepção de risco ao redor do mundo.

Na leitura da consultoria Eurasia, os EUA vivem algo inédito em tempos recentes. “O país mais poderoso do mundo está no meio de uma revolução política”, afirma a consultoria, que descreve um presidente “comprometido e capaz de mudar o sistema político” e, com isso, o papel americano no mundo.

Para aliados e adversários, os Estados Unidos passaram a ser “imprevisíveis e pouco confiáveis”. E, segundo a Eurasia, independentemente do desfecho, “as implicações serão sentidas por uma geração”.

O primeiro ano de Trump em 10 pontos

1. Tarifaço como política de Estado

Desde o início do segundo mandato, Trump voltou a tratar as tarifas como eixo central da política econômica e também como instrumento de pressão diplomática. Em abril de 2025, no chamado “Dia da Libertação”, o presidente impôs uma tarifa geral de 10% sobre importações e sobretaxas adicionais a produtos de cerca de 90 países.

Ao longo do ano, a estratégia se aprofundou com o fim da isenção tarifária para remessas de baixo valor (de minimis). A mudança atingiu diretamente consumidores americanos, elevou preços e forçou empresas a reformular cadeias logísticas.

Ao fim de 2025, a tarifa média efetiva dos EUA alcançou o patamar de 16,8%, o maior nível desde os anos 1930, segundo o Yale Budget Lab. A arrecadação tarifária subiu de US$ 7,3 bilhões em janeiro para US$ 27,9 bilhões em dezembro.

2. Confronto direto com a China

A China esteve no centro da ofensiva tarifária do governo Trump. Além de perder a isenção aplicada a encomendas de pequeno valor, produtos chineses passaram a ser tratados como alvo prioritário da política comercial americana, em um esforço declarado de reduzir a dependência dos EUA em relação à segunda maior economia do mundo.

A disputa também se estendeu ao campo tecnológico. O governo americano reforçou restrições ligadas a setores considerados estratégicos, como semicondutores, ampliando a tensão em torno de tecnologia avançada e segurança nacional. As medidas se somaram ao ambiente de incerteza já criado pelas tarifas e aprofundaram o distanciamento entre Washington e Pequim.

3. Pressão inédita sobre o Federal Reserve

Trump intensificou ataques à independência do Federal Reserve, pressionando publicamente por cortes de juros e direcionando críticas pessoais ao presidente do banco central, Jerome Powell. O ambiente institucional se deteriorou ainda mais com a recente investigação aberta sobre a reforma bilionária da sede do Fed.

Além disso, Trump indicou aliados para o conselho do Fed e tentou remover dirigentes da instituição, aprofundando o conflito com a autoridade monetária. Um dos movimentos mais sensíveis foi a pressão direta sobre a diretora Lisa Cook, indicada ainda no governo Biden.

O resultado foi um ambiente interno mais fragmentado no banco central. Segundo o Financial Times, o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) registrou, em dezembro, sua decisão mais dividida desde 2019.

Para a Eurasia, o risco deixou de ser apenas econômico e passou a ser institucional. “Se os mercados acreditarem que a credibilidade do Fed foi comprometida, as consequências para a inflação, os juros e o dólar podem ser severas”, afirma a consultoria no relatório Top Risks 2026.

4. O maior shutdown da história

A disputa entre Casa Branca e Congresso sobre orçamento e subsídios de saúde culminou no maior shutdown da história dos Estados Unidos: 43 dias de paralisação parcial do governo federal. Serviços essenciais foram afetados, trabalhadores ficaram sem pagamento temporariamente e a divulgação de dados econômicos foi interrompida. O acordo que encerrou o impasse restabeleceu programas como assistência alimentar e controle do tráfego aéreo, mas deixou o financiamento federal apenas prorrogado.

Apesar das trocas de acusações no Congresso, nenhum partido saiu com uma vitória clara. Uma pesquisa Reuters/Ipsos mostrou que 50% dos americanos responsabilizaram os republicanos pela paralisação do governo, enquanto 47% atribuíram a culpa aos democratas.

5. Desmonte da USAID

O primeiro ano também foi marcado por um forte enxugamento da política de ajuda internacional. A USAID teve suas operações praticamente paralisadas, e outras estruturas, como a U.S. African Development Foundation, ficaram congeladas após intervenções administrativas e disputas judiciais. O governo justificou as medidas como combate a desperdícios e corrupção.

6. Redução do tamanho do Estado

Segundo a Eurasia, o primeiro ano do segundo mandato de Trump foi marcado por um enfraquecimento da capacidade do Estado americano. Cortes orçamentários, demissões e a substituição de servidores de carreira por aliados políticos reduziram a habilidade do governo de produzir dados confiáveis, antecipar crises e responder a emergências.

Nesse processo, ganhou destaque o Department of Government Efficiency (Doge), liderado pelo empresário Elon Musk. Criado com a promessa de enxugar gastos e tornar o governo mais eficiente, o órgão impulsionou cortes amplos no funcionalismo e contribuiu para o esvaziamento de estruturas federais, incluindo áreas sensíveis como ajuda externa, regulação econômica e proteção ao consumidor.

Mais de 150 mil servidores aceitaram programas de desligamento voluntário ao longo de 2025, levando o quadro federal ao menor nível desde 2018, segundo dados do governo americano. A iniciativa, no entanto, foi encerrada antes do previsto, com a saída de Musk ainda no primeiro ano de governo.

7. Mão de ferro na política migratória

A imigração foi o tema mais polarizador do primeiro ano do governo Trump. No primeiro dia de mandato, o presidente declarou emergência na fronteira, retomou o programa “Remain in Mexico”, que obriga solicitantes de asilo a aguardarem no país vizinho enquanto seus pedidos são analisados, encerrou o “catch and release”, prática que permitia a liberação provisória de imigrantes detidos, e ampliou as deportações. Até dezembro, mais de 622 mil pessoas foram deportadas, enquanto cerca de 1,9 milhão deixaram o país voluntariamente, segundo o The Guardian.

Além disso, o governo endureceu o regime de detenções ao reclassificar imigrantes como “applicants for admission”, um enquadramento legal que permite prisão automática, sem direito a fiança, inclusive para pessoas que vivem há anos nos Estados Unidos. A medida gerou uma enxurrada de ações judiciais: mais de 275 juízes federais, em 1.100 decisões, consideraram as detenções ilegais, segundo o site Politico.

Em paralelo, restrições a benefícios de saúde e a retomada de uma versão da Public Charge Rule reforçaram críticas. Em novembro, o governo Trump passou a permitir que agentes de imigração negassem pedidos de residência permanente de imigrantes legais que tivessem utilizado serviços públicos como o Medicaid.

8. Ucrânia e Rússia

No conflito entre Rússia e Ucrânia, Trump passou a questionar publicamente a continuidade do apoio a Kiev e, em diferentes ocasiões, relativizou a responsabilidade russa pela guerra, chegando a se alinhar retoricamente a Moscou. Segundo o Financial Times, a postura de Trump rompeu consensos históricos da política externa americana em relação à segurança europeia.

O movimento causou desconforto entre aliados da Otan e aprofundou a percepção de incerteza sobre os compromissos americanos. Em sua análise sobre o novo cenário global, a Eurasia afirma que os Estados Unidos passaram a ser vistos como um ator menos previsível no cenário global.

9. Captura de Maduro

A operação na Venezuela que resultou na captura de Nicolás Maduro foi um dos episódios mais dramáticos da política externa do segundo governo Trump até agora. Antes da ação, Washington promoveu uma escalada prolongada: ampliou sanções, anunciou uma recompensa de US$ 50 milhões, realizou a maior mobilização naval no Caribe em décadas, fechou o espaço aéreo venezuelano, apreendeu petroleiros e impôs um bloqueio de fato ao tráfego de petróleo do país. O desfecho veio com uma operação de forças especiais que levou Maduro aos Estados Unidos para responder a acusações criminais.

Segundo a Eurasia, no entanto, o sucesso da operação não desmontou o regime chavista. “A estrutura do regime permanece em grande parte intacta”, afirma o relatório, ao destacar que as principais engrenagens políticas e militares do chavismo sobreviveram à queda de Maduro. A consultoria alerta ainda que, ao assumir protagonismo direto no pós-Maduro, Trump também absorve os riscos do processo: “quanto mais o presidente Trump reivindica a autoria do processo, mais ele passa a ser responsável por tudo o que der errado”.

10. A ameaça sobre a Groenlândia

Trump voltou a surpreender aliados ao retomar declarações sobre a possibilidade de os Estados Unidos assumirem o controle da Groenlândia, território autônomo ligado à Dinamarca. As declarações foram recebidas com preocupação na Europa e reforçaram a percepção de uma política externa mais imprevisível, personalista e assertiva, inclusive em relação a parceiros históricos. O episódio ganhou peso simbólico por envolver um aliado da Otan.

Essa sinalização sobre a Groenlândia se encaixou em um padrão mais amplo da política externa de Trump. Ao longo de 2025, o governo americano combinou pressão militar, coerção econômica e intimidação diplomática, com ações que incluíram ataques a embarcações suspeitas de tráfico, ameaças de intervenção na Colômbia e no México e sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

Para a Eurasia, esse padrão tende a produzir efeitos colaterais relevantes: "em 2026, essa postura tende a ampliar o risco de excessos na política externa e de consequências não intencionais".

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