Estretito de Ormuz: com o Estreito de Ormuz: com fechamento por tempo indeterminado, outros oleodutos têm aumento seus lucros. (Edson Grandisoli/Pulsar)
Colaboradora
Publicado em 8 de agosto de 2026 às 15h04.
O Irã voltou a subir o tom nas negociações pela reabertura do Estreito de Ormuz.
Neste sábado, 8, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do país divulgou uma lista de seis exigências que os Estados Unidos precisam cumprir antes que a via volte a operar normalmente.
São elas:
A novidade complica um processo que já se arrasta desde fevereiro, quando Estados Unidos e Israel atacaram o país e deram início à guerra que colocou em xeque uma das rotas mais estratégicas do mundo para o petróleo.
Ormuz é o único acesso do Golfo Pérsico ao mar aberto.
Por ali passavam, antes da guerra, cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, o equivalente a um quinto de toda a produção mundial, além de parcela relevante do gás natural liquefeito exportado pelo Catar, segundo dados da Agência Internacional de Energia (AIE).
Como retaliação aos ataques de fevereiro, o Irã bloqueou a passagem. Desde então, o fluxo de navios pela região caiu drasticamente, forçando produtores do Golfo a acelerar o uso de rotas alternativas que não dependem da autorização iraniana.
Duas dessas rotas se destacam. Nos Emirados Árabes Unidos, o porto de Fujairah e o oleoduto que alimenta essa instalação viraram peça central da logística de petróleo do Golfo enquanto Ormuz segue travado.
O Abu Dhabi Crude Oil Pipeline (Adcop), também chamado de oleoduto Habshan-Fujairah, tem 400 quilômetros de extensão.
A estrutura liga os campos de produção da região de Habshan, no interior de Abu Dhabi, diretamente ao porto de Fujairah, na costa do Golfo de Omã, sem passar por Ormuz.
Hoje esse oleoduto tem capacidade para escoar até 1,8 milhão de barris por dia.
Em maio, o governo de Abu Dhabi decidiu acelerar a construção de um segundo duto, batizado de Oeste-Leste, para dobrar essa capacidade até 2027, chegando a algo próximo de 3,6 milhões de barris diários.
A obra já está com cerca de 50% de conclusão, segundo a estatal Adnoc.
Fujairah é o único dos sete emirados dos Emirados Árabes Unidos com litoral voltado inteiramente para o Golfo de Omã, fora do alcance direto do Irã.
Isso faz do porto local um dos principais centros mundiais de armazenamento e mistura de petróleo bruto, com capacidade para 18 milhões de metros cúbicos.
O movimento recente não para por aí. A DP World, mesma empresa que administra um terminal no porto de Santos, fechou uma concessão de 50 anos para construir dois novos terminais de águas profundas em Fujairah, capazes de receber navios porta-contêineres de grande porte sem depender de Ormuz.
Com a obra, a capacidade da rede da empresa nos Emirados deve subir de 19,4 milhões para quase 22 milhões de TEUs, unidade usada para medir contêineres.
Enquanto isso, a Arábia Saudita segue a mesma lógica pelo lado do Mar Vermelho, escoando parte da sua produção pelo oleoduto leste-oeste até o porto de Yanbu, com capacidade de até 5 milhões de barris por dia.
A resposta, por enquanto, depende do Irã. E a lista divulgada neste sábado deixa claro que o país não pretende facilitar.
Segundo Mohammad Bagher Zolghadr, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano, os Estados Unidos precisam cumprir as seis exigências para que haja abertura.
A cobrança chega em um momento sensível.
Irã e Omã negociam havia cerca de dois meses um acordo para a gestão conjunta de uma nova rota de navegação pelo estreito, e o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, chegou a dizer que esse entendimento estava perto de ser fechado.
O problema é que, segundo autoridades iranianas, mesmo esse acordo com Omã não é suficiente.
A reabertura plena continua condicionada ao cumprimento das exigências dos Estados Unidos, o que na prática coloca a negociação bilateral entre Teerã e Washington travada desde o chamado Memorando de Islamabad, cessar-fogo intermediado pelo Paquistão em junho e cuja interpretação os dois países ainda divergem.
Do lado americano, o vice-presidente JD Vance reconheceu, em entrevista à Fox News, que as tratativas estão "na metade do caminho" e que ainda vão levar tempo.
Já o presidente Donald Trump tem alternado entre sinalizar otimismo e prometer represálias caso os acordos fracassem.
Esse impasse tem um efeito prático nas rotas alternativas: quanto mais a reabertura de Ormuz se arrasta, mais tempo Fujairah, Yanbu e os oleodutos que os abastecem seguem concentrando fluxo que antes passava pelo estreito.
Um relatório do banco Goldman Sachs, divulgado em junho, estima que o fluxo de petróleo por Ormuz deve se recuperar para, no máximo, cerca de 70% do nível pré-guerra, mesmo depois de a rota ser formalmente reaberta.
O impacto por aqui aparece primeiro no preço dos combustíveis.
Com Ormuz fechado, o barril do petróleo Brent, referência internacional, chegou a ultrapassar US$ 126 em momentos de maior tensão da guerra, e a gasolina no Brasil chegou perto de R$ 6,77 em alguns pontos do país, com o diesel também subindo.
Para conter esse repasse, o governo federal publicou em março a Medida Provisória 1.340/2026.
O texto autoriza uma subvenção de R$ 0,32 por litro para produtores e importadores de diesel, além de instituir um imposto de exportação de 12% sobre petróleo bruto e de 50% sobre o diesel enquanto durar o benefício.
Segundo a Câmara dos Deputados, a combinação dessa subvenção com a zeragem de PIS e Cofins sobre o diesel, definida por decreto do Ministério da Fazenda, deveria reduzir o preço do combustível na refinaria em até R$ 0,64 por litro.
A medida vale até 31 de dezembro de 2026.
A lógica por trás da MP é dupla.
De um lado, o imposto sobre a exportação de diesel busca desestimular o envio do combustível para fora do país, garantindo abastecimento interno.
De outro, a tributação sobre a exportação de petróleo bruto ajuda a financiar a própria subvenção, aproveitando parte do ganho gerado pelo barril mais caro no mercado internacional.
Enquanto o impasse entre Irã e Estados Unidos não é resolvido, esse tipo de resposta tende a continuar sendo o principal instrumento do governo brasileiro para conter os efeitos da crise sobre o bolso do consumidor.