Economia

Exportações para os EUA caem 12% no semestre: o que explica esse movimento?

Enquanto isso, as vendas para a China cresceram quase 20%, totalizando US$ 69,3 bilhões. A EXAME conversou com especialistas para entender o que está por trás desses dados

Balança comercial: sobre o futuro da relação comercial com os EUA, os economistas são cautelosos (StockSnap/Pixabay/Divulgação)

Balança comercial: sobre o futuro da relação comercial com os EUA, os economistas são cautelosos (StockSnap/Pixabay/Divulgação)

Naty Falla
Naty Falla

Repórter

Publicado em 7 de agosto de 2026 às 17h47.

Os chineses compram cada vez mais do Brasil. Os americanos, cada vez menos. É o que mostra os dados da balança comercialNo primeiro semestre, o total das exportações para os EUA caíram 12,2%, totalizando US$ 20,95 bilhões, enquanto para a China cresceram 19,7%, totalizando US$ 69,3 bilhões.

Só em julho, as exportações brasileiras para os EUA recuaram 5% na comparação com o mesmo mês do ano passado, de US$ 3,8 bilhões para US$ 3,6 bilhões. Já as vendas para a China subiram 8,6% no período, somando US$ 10,67 bilhões -- quase três vezes o volume negociado com os americanos, segundo dados do Mdics (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e Serviços).

A EXAME conversou com especialistas para entender esse movimento. Segundo o economista Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior (2007-2011), as tarifas impostas pelo governo de Donald Trump sobre produtos brasileiros freia as exportações. "São barreiras que os EUA colocaram sobre alguns produtos brasileiros. O déficit tende a aumentar", diz.

Marcos Piellusch, professor da FIA Business School, explica que isso encarece as exportações brasileiras no mercado americano e aprofunda esse desequilíbrio. 

"O Brasil importa dos Estados Unidos bens que têm maior valor agregado, como equipamentos, produtos químicos e serviços tecnológicos, e exporta principalmente commodities e produtos semimanufaturados. Esse padrão de comércio já vinha gerando déficits ou saldos próximos de zero há quase duas décadas. O que mudou foi a intensidade”, diz.

Para o especialista Sérvulo Mendonça, o pano de fundo é mais amplo do que a composição da pauta comercial. Segundo ele, a rivalidade crescente entre Estados Unidos e China transformou o comércio internacional em ferramenta de disputa geopolítica. E isso não fica de fora da equação bilateral com o Brasil. "Hoje, comércio exterior e geopolítica caminham lado a lado, e seria um equívoco analisar os números sem considerar esse contexto", afirma.

A queda de dois dígitos nas vendas aos EUA

O recuo não se limita a julho. Segundo Piellusch, a retração está concentrada em produtos específicos (petróleo bruto, café não torrado, aço e ferro semiacabados), justamente os itens que ficaram de fora da lista de isenções tarifárias.

"Não se trata de um problema geral de competitividade da indústria, nem de uma queda ampla na demanda americana, que ainda segue estável. O fator que determinou essa queda é a tarifa imposta pelos Estados Unidos desde agosto de 2025, que é de natureza claramente política e comercial, não econômica", avalia o professor.

Presidente dos EUA, Donald Trump, exibe ordem executiva assinada por ele que impõe tarifaço global

Imagem de arquivo: presidente dos EUA, Donald Trump, exibe ordem executiva assinada por ele que impõe tarifaço global (Saul Loeb/AFP)

Carlos Eduardo Oliveira Jr., presidente do Sindicato dos Economistas do Estado de São Paulo, também descarta um problema estrutural. "A queda reflete principalmente fatores conjunturais, como a redução da demanda americana por alguns produtos brasileiros, o impacto de barreiras tarifárias e mudanças nas condições do comércio internacional. A retração está mais associada a fatores específicos de mercado e à política comercial dos Estados Unidos", diz.

Piellusch faz uma ressalva. Parte da queda pode estar ligada à realocação de fluxos comerciais, com exportadores redirecionando cargas para outros destinos, como a própria China. Isso reforça a leitura de um fenômeno pontual, ligado à tarifa, e não a uma perda de competitividade.

O cenário de expansão com a China

Do lado chinês, o cenário é de expansão. No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para a China cresceu 19,7%, totalizando US$ 69,03 bilhões. 

"Isso reflete uma forte demanda chinesa por produtos como soja, petróleo, minério de ferro e carnes, além do movimento de redirecionamento de parte do comércio que antes ia para os Estados Unidos", diz Piellusch.

Barral atribui o resultado principalmente ao preço das commodities. "A China tem mais de 30% da exportação brasileira, muito concentrada em commodities. O que você teve ao longo desse ano foi um aumento de preço de itens como soja e combustível. Isso gera um efeito de maior superávit com a China", afirma.

No entanto, o economista faz um alerta sobre a concentração do comércio exterior brasileiro em um único parceiro. "A China é uma grande oportunidade, até porque paga bem e é um mercado crescente. Isso aumenta, por exemplo, a exportação de carnes. Mas o Brasil tem que diversificar para outros destinos, porque se houver uma crise econômica na China, você pode ter um efeito macroeconômico sobre a economia brasileira, o que não aconteceu com os Estados Unidos."

Déficit com os EUA é sinal de fragilidade?

Os especialistas concordam em um ponto: o resultado negativo com os Estados Unidos, isoladamente, não deve ser lido como um sinal de fraqueza da economia brasileira. "O Brasil tem chance de ter um superávit global recorde este ano, justamente por conta do efeito de preço das commodities", diz Barral.

Piellusch reforça a separação entre o resultado bilateral e o resultado total do país. "Mesmo com esse déficit ampliado em relação aos Estados Unidos, a balança comercial brasileira como um todo ainda segue superavitária, sustentada principalmente pelo comércio com a China e com outros parceiros da Ásia e da América Latina. Déficits bilaterais isoladamente não são algo raro, refletem um padrão de especialização de cada relação comercial", afirma.

Para Oliveira Jr., o ponto central é a natureza das importações vindas dos EUA. "Parte relevante das importações brasileiras provenientes dos EUA é composta por bens de capital e insumos utilizados pela indústria nacional. O aspecto mais relevante é acompanhar se o déficit decorre de perda estrutural de competitividade ou de fatores temporários relacionados ao comércio internacional", avalia.

Mendonça vai na mesma direção, mas acrescenta que o problema, para ele, não estaria no saldo em si, e sim no que ele pode sinalizar sobre o espaço do Brasil dentro do mercado americano. "O verdadeiro desafio seria perder relevância econômica, tecnológica e estratégica na relação bilateral", diz.

Há chance do cenário mudar?

Sobre o futuro da relação comercial com os EUA, os economistas são cautelosos. Segundo Piellusch, tudo depende do andamento das negociações entre Brasília e Washington, que já vêm acontecendo desde o fim de 2025, com conversas conduzidas por autoridades como o vice-presidente e o secretário de Estado americanos, além de contatos diretos entre os presidentes dos dois países.

"Uma sinalização de acordo, a ampliação das isenções ou até mesmo a redução da alíquota tende a aliviar esse déficit de forma relativamente rápida, já que foi justamente o aspecto das tarifas que promoveu esse desequilíbrio", diz.

Ele cita outras variáveis que podem pesar no resultado: o ritmo da atividade econômica americana, o comportamento do câmbio, um real mais depreciado favorece as exportações, e o grau de diversificação de mercados que os exportadores brasileiros conseguirem alcançar, sobretudo na Ásia.

Barral é mais direto quanto ao curto prazo. "A não ser que o Brasil reverta as tarifas, o que eu não vejo acontecer neste semestre, as tarifas americanas vão continuar sendo uma barreira importante para o acesso ao mercado americano. A tendência aumentar para outras regiões, principalmente para a Ásia."

 

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