Novas descobertas sobre o abacate, algo tão familiar para nós, prometem melhorar o futuro da produção da planta (Gil Ndjouwou/Unsplash)
Repórter
Publicado em 9 de agosto de 2026 às 07h00.
Última atualização em 9 de agosto de 2026 às 08h36.
Há mais ciência por trás de uma porção de guacamole do que a maioria das pessoas imagina: pesquisadores descobriram novos detalhes sobre o curioso comportamento reprodutivo dos abacateiros, que mudam de sexo ao longo do dia.
O fenômeno já era conhecido há décadas, mas um novo estudo publicado na National Academy of Sciences, entidade acadêmica americana, ajuda a explicar como ele funciona em nível genético. A descoberta pode desbloquear novas formas de cultivar a fruta e acelerar o desenvolvimento de variedades mais adaptáveis, por exemplo, com maior resiliência a pestes ou às mudanças climáticas.
Dessa forma, o interesse econômico é enorme — o consumo de abacate nos Estados Unidos quadruplicou desde 2000, o que aumenta a pressão por plantas mais produtivas e resistentes.
Jeffrey Groh, geneticista evolutivo afiliado à University of California, Davis, e autor principal da pesquisa, afirma ao Wall Street Journal que a identificação de um gene específico pode “reduzir em anos o processo de melhoramento de novas variedades para os climas do futuro”.
Todos os abacateiros seguem um dos dois cronogramas reprodutivos. Algumas variedades, como a Hass, abrem flores femininas pela manhã e masculinas à tarde.
Outras, como a Bacon, fazem o contrário. Por isso, os agricultores costumam plantar os dois tipos no mesmo pomar para aumentar as chances de polinização.
O grande problema era que cientistas e produtores não conseguiam distinguir os tipos antes da floração. Como um abacateiro pode levar até 15 anos para florescer, o melhoramento genético torna-se lento e caro.
Cada flor possui estruturas masculinas e femininas, mas elas não funcionam simultaneamente. A planta alterna fases de recepção e de liberação de pólen para reduzir a autopolinização.
A nova pesquisa identificou o gene responsável por determinar o tipo reprodutivo da planta. Com isso, será possível saber muito antes qual padrão de floração cada muda apresentará.
Para desvendar o mecanismo, pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis congelaram folhas de diferentes variedades e sequenciaram seu DNA. Assim, conseguiram localizar a região genética associada à alternância de fases sexuais.
Mas a equipe queria entender quando o gene era ativado. Groh e outro pesquisador chegaram a acampar em um pomar de abacates durante vários dias para coletar amostras de flores em diferentes momentos de abertura e fechamento.
As análises de RNA mostraram que a atividade do gene varia exatamente de acordo com os estágios de floração. As oscilações acompanharam o ciclo diário das flores.
“É fascinante que uma planta tão familiar a todos nós esteja exibindo esse comportamento reprodutivo tão maravilhoso e curioso”, afirmou Groh.
Os cientistas concluíram que esse sistema existe há mais de 42 milhões de anos. Isso sugere que dezenas de outras espécies aparentadas ao abacate compartilham o mesmo mecanismo reprodutivo.
O estudo também amplia pesquisas anteriores sobre nogueiras e pecaneiras, que apresentam alternância sexual semelhante. Embora não sejam parentes próximas do abacate, elas parecem ter evoluído estratégias comparáveis para evitar problemas genéticos causados pela autofecundação.