Navio petroleiro no Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico (Germán Vogel/Getty Images)
Repórter
Publicado em 16 de março de 2026 às 17h31.
O Estreito de Ormuz é o principal acesso à costa do Irã, através do qual cerca de 25% do petróleo mundial é transportado.
Ao contrário de outras passagens semelhantes, como o Canal do Panamá, na América Central, ou o estreito de Malacca, no sudeste asiático, Ormuz é um beco sem saída – pelo sul, conecta o Oriente Médio ao Mar Arábico, mas ao norte, leva ao Golfo Pérsico, transformando a passagem em uma rota de direção única.
Sua importância vem justamente por ser a única passagem do Golfo Pérsico para o mar aberto, já que a região conta com alguns dos países mais ricos em reservas de petróleo do mundo.
Como um ponto vital para a economia global situado em uma região geopoliticamente sensível, a importância de Ormuz foi, no passado, alavancada durante conflitos: Na década de 1980, durante a guerra entre o Irã e o Iraque, o que ficou conhecido como a “guerra dos cargueiros” viu ataques em embarcações comerciais por ambos os lados visando desequilibrar a economia. Em resposta, os EUA organizaram a maior operação de comboio marítimo desde a Segunda Guerra, buscando manter estável as operações da passagem.
Com a maior parte de sua costa sendo composta pelo Irã, que em tempos de paz conduz a administração da passagem juntamente com Omã, o fechamento dessa importante rota marítima durante conflitos pode ser facilmente conduzido por Teerã – oficiais americanos acreditam que o Irã tenha preenchido a passagem com minas marítimas, utilizando centenas ou até milhares de pequenas embarcações, segundo o New York Times.
Mapa dos principais eventos da guerra do Irã, com o estreito de Ormuz destacado (Arte/EXAME) (Arte/Exame)
Desde o início dos ataques, mais de 1.000 embarcações comerciais ficaram presas em Ormuz, principalmente cargueiros com petróleo e grandes quantias de gás natural, causando choques na economia global e em cadeias de suprimentos.
Após os ataques iniciais, o Irã disse que fecharia o estreito, e membros de alto escalão da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC, na sigla em inglês), chegaram a dizer à midia local que “incendiariam os navios” presos no estreito. Desde então, ataques chegaram a afundar embarcações, e o Irã assumiu a responsabilidade por alguns.
O novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, afirmou que “a alavancagem de bloquear o estreito de Ormuz deve continuar a ser usada.”
Todavia, o estreito não está formalmente fechado, e, mesmo com o medo da possibilidade de minas terrestres, o comércio ainda continua. Apesar das ameaças, Teerã afirmou que Ormuz está fechado apenas para os EUA e seus aliados – o ministro de relações exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse que o estreito ““Está aberto, mas fechado aos nossos inimigos, àqueles que perpetraram esta agressão covarde contra nós e aos seus aliados”.
Dessa forma embarcações operando sob bandeiras que não estão diretamente alinhadas aos EUA ou a Israel podem vir a obter passagem pelo estreito, mesmo que em escala reduzida devido ao conflito.
Países como China, Turquia, Paquistão e Índia estão em diálogos diplomáticos com o Irã para garantir a passagem de alguns navios. Karachi, embarcação paquistanesa, foi a primeira a sair do estreito com uma autorização do governo iraniano. Além disso, até mesmo países como França e Itália, ideologicamente mais próximos dos EUA, estariam negociando passagem para suas embarcações, apura o The Financial Times.
Com tensões por Ormuz, preço do petróleo dispara (Arte/EXAME) (Montagem/Canva/Exame)
A Agência de Energia Internacional (IEA, na sigla em inglês), órgão que monitora os sistemas de energia pelo globo, estima que cerca de 25% do comércio global de petróleo passe por Ormuz. Em 2025, isso representou 20 milhões de barris por dia, 80% dos quais eram destinados para a Ásia. Além disso, cerca de 19% do comércio global de gás natural também passa pelo estreito, representando cifras de 93% da produção do Catar, e até 96% dos Emirados Árabes Unidos, estima a IEA.
Após o começo da guerra, o número de barris de petróleo exportados por Ormuz caiu em cerca de 60%, estima a Reuters. Durante a semana passada, a média de barris por dia passando pelo estreito foi de 9,71 milhões, uma queda significativa dos 25,13 milhões diários em fevereiro. A produção de petróleo dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita, devido a guerra, caíram em mais de 50% e em cerca de 20%, respectivamente. O Iraque, por sua vez, viu uma redução de até 70% na sua produção de petróleo, apura o veículo.
Mesmo assim, o Irã continua mantendo – senão aumentando – suas exportações pelo estreito. A organização Tanker Trackers, que acompanha por satélite o movimento de cargueiros pelo mundo, diz que, desde o início da guerra no fim de fevereiro, o Irã havia exportado um total de 11,7 milhões de barris de petróleo por Ormuz, a maiora dos quais tem como destino final a China, um importante parceiro comercial do país.
Enquanto isso, a cifra de barris que continuam flutuando na passagem sem conseguir sair para o mar aumenta, com 50 milhões de barris imobilizados por semana nas águas da passagem, em comparação aos 10 milhões antes da guerra estourar, diz a Reuters.
Rotas alternativas a Ormuz ainda existem, mas com escopos significativamente menores (PRIO/Divulgação) (PRIO/Divulgação)
O estreito de Ormuz é favorecido por sua conveniência em transportar produtos facilmente, em grandes quantidades e de maneira barata para o mar aberto. Por mais que nenhuma das rotas alternativas seja capaz de replicar a quantidade e conveniência da passagem, existem algumas opções, apontadas pela IEA:
Emirados Árabes Unidos – Oleoduto de Petróleo Bruto de Abu Dhabi (ADCOP, na sigla em inglês)
Esse oleoduto se estende por 400 km, conectando instalações de produção de petróleo na cidade de Habshan ao mar, na cidade costeira de Fujairah, pouco abaixo do Estreito de Ormuz. Sua capacidade atual é de cerca de 1,8 milhões de barris por dia. Em uma rota doméstica, os EAU movimentam cerca de 1,1 milhão de barris por dia pelo oleoduto para seu próprio uso, deixando um espaço para exportação de cerca de 700 mil barris por dia.
Arábia Saudita – o sistema de oleodutos Abqaiq-Yanbu (oleoduto de petróleo bruto leste-oeste)
Esse sistema atravessa a Arábia Saudita de leste a oeste, conectando as cidades de Abqaiq a Yanbu, no Mar Vermelho. O sistema é composto por duas linhas com uma capacidade projetada total de 5 milhões de barris de petróleo bruto por dia.
Em março de 2025, a Aramco, companhia petrolífera do país, informou que havia aumentado a capacidade para 7 milhões de barris por dia, mas o fluxo sustentável nesse nível ainda não foi testado. Estima-se que, no início de 2026, cerca de 2 milhões de barris diários estejam sendo transportados, restando entre 3 e 5 milhões de capacidade ociosa, dependendo das condições operacionais e da capacidade de exportação disponível na costa oeste da Arábia Saudita.