Patrocinado por:
Jensen Huang: CEO da Nvidia defende o uso de modelos de IA chineses de código aberto nos EUA (Wikimedia Commons/Fundo gerado por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 22 de julho de 2026 às 12h01.
O CEO da Nvidia, Jensen Huang, saiu em defesa dos modelos de inteligência artificial (IA) de código aberto desenvolvidos na China e afirmou que a maior ameaça aos Estados Unidos não são esses modelos, e sim a campanha para bani-los. Para ele, a proibição pode ser um "tiro no pé".
"Esses modelos chineses são excelentes", disse Huang em entrevista ao site Axios. "Modelos de código aberto que são excelentes devem ser usados."
Segundo ele, empresas americanas deveriam "absolutamente" ter permissão para usar modelos chineses.
A posição coloca o comandante da maior fabricante de chips de IA do mundo em rota de colisão com integrantes do governo Donald Trump e com laboratórios americanos — entre eles a OpenAI e a Anthropic, clientes da própria Nvidia — que pressionam Washington para restringir esses modelos.
O estopim foi o lançamento do Kimi K3, da chinesa Moonshot AI, em meados de julho.
O modelo combina três características raramente vistas juntas, segundo a Axios — desempenho próximo ao topo da indústria, preços muito mais baixos e pesos abertos, que os desenvolvedores poderão baixar e personalizar.
A combinação alimentou uma queda nas ações da Nvidia e de outras fabricantes de chips, ao reacender o temor de que modelos mais baratos e eficientes enfraqueçam a justificativa para os investimentos bilionários em infraestrutura de IA.
Foi a reação mais intensa desde que o DeepSeek abalou os mercados em janeiro de 2025.
Para o executivo, Wall Street e Washington leram o episódio de trás para frente. "O mercado interpretou mal o impacto do DeepSeek da primeira vez", disse, ao afirmar que o mesmo se repetiu com o Kimi.
Modelos abertos e baratos levam a IA a mais pessoas e empresas, o que aumenta a demanda por chips, data centers e capacidade de processamento — os produtos que a Nvidia vende.
"IA gratuita deveria ser ótima para o hardware. Deveria ser ótima para os chips. Deveria ser ótima para os data centers", afirmou.
Huang também rebateu a ideia de que a OpenAI e a Anthropic deveriam temer os modelos abertos, argumentando que eles ampliam o mercado ao dar a mais gente um primeiro contato com a IA, enquanto muitos usuários seguirão pagando por serviços fechados.
"Não há cenário em que a China tire as empresas americanas da estrada", disse. "Possibilidade zero."
No campo da política, Huang sustentou que restringir modelos abertos em nome da segurança nacional pode deixar os Estados Unidos mais vulneráveis, não menos.
Ele rejeitou o que chamou de "equívoco" de que modelos chineses baixados criariam uma "porta dos fundos" para Pequim, argumentando que as empresas podem personalizá-los e controlar seu acesso em ambientes isolados.
Para o executivo, a abertura torna a IA mais segura, porque pesquisadores externos podem inspecionar os modelos, expor fragilidades e construir defesas.
"Não há cenário em que a China tire as empresas americanas da estrada. Possibilidade zero" — Jensen Huang
"Se tudo vira um único modelo, um único ponto de ataque, uma única fonte de falha, acho que o mundo fica muito, muito mais vulnerável", disse.
Com o mesmo raciocínio, ele pediu que a Anthropic libere seu modelo restrito de segurança cibernética, o Claude Mythos, em vez de limitar o acesso. "Segurar a Anthropic não é do interesse dos Estados Unidos", afirmou.
As declarações vieram horas depois do secretário do Tesouro, Scott Bessent, dizer à Fox Business que o governo analisa modelos chineses em busca de propriedade intelectual americana roubada, e estuda sanções em resposta.
Segundo Bessent, há "marcas d'água" de modelos americanos dentro dos chineses, o que daria base para punições por roubo.
Huang teve uma conclusão diferente. "Destilação, aprender com a IA, aprender com outras fontes de conhecimento, são fundamentais para a inteligência", disse.
'Comunismo total da IA': entenda a disputa que divide Claude, ChatGPT e a ChinaPara ele, empresas devem responder por violações de privacidade ou de contrato, mas o alvo deve ser a conduta indevida, não os modelos.
O executivo também diverge de Washington sobre a própria natureza da disputa. Ele descartou a ideia de que se trata de "uma corrida com linha de chegada".
"Vamos continuar usando IA para sempre. Os Estados Unidos vão estar aqui por muito tempo. A China vai estar aqui por muito tempo", afirmou.