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IA: China e EUA travam nova briga pela tecnologia (Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 21 de julho de 2026 às 08h37.
Modelos de inteligência artificial (IA) chineses têm ganhado mais espaço nas últimas semanas, em especial com o lançamento do modelo K3, da Moonshot AI.
Enquanto na China as empresas se preparam para participar da corrida pela primeira oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) do setor ao lado das gigantes americanas, no Vale do Silício, a adoção dos modelos asiáticos se tornou uma nova preocupação para os executivos.
“Um resultado provável de um mundo dominado por modelos de peso aberto é o comunismo total da IA, que é precisamente o que a China propõe: em vez de um produto de mercado, a IA é um ‘bem público’ que será fornecido pelo Estado como uma espécie de ‘infraestrutura pública digital’”, escreveu Dean Ball, chefe de futuros estratégicos da OpenAI, dona do ChatGPT, em uma publicação no X (antigo Twitter) na sexta-feira, 17.
Ball, que assumiu o cargo na OpenAI duas semanas antes, depois de ajudar a formular a política de IA do presidente americano Donald Trump, argumentou que o governo americano deveria criar "medo, incerteza e desconfiança" regulatórios em torno dos novos modelos chineses — porque, na sua visão, os modelos de peso aberto necessariamente desestimulam o investimento de capital dos laboratórios de fronteira.
Some observations on Kimi:
1. It's a very good model! I don't think its performance can be explained away by distillation or anything like that. In agentic coding sessions, it seems pretty much on par with the best public models of Q1 2026. In my fairly limited use, it also…
— Dean W. Ball (@deanwball) July 17, 2026
A publicação teve efeito bumerangue. Figuras da tecnologia, como Yann LeCun, cientista-chefe de IA da Meta, e o investidor Martin Casado, rebateram, argumentando que o software aberto acelera a inovação e pode coexistir com projetos proprietários.
A consultoria Lumien classificou o texto de Ball como "candura geopolítica não solicitada" — algo que soa mal-vindo de quem trabalha "na empresa com maior probabilidade de se beneficiar" de uma restrição.
O nervosismo, porém, vai além de Ball. O K3 provocou o que a imprensa americana chamou de segundo "momento DeepSeek", em referência ao modelo chinês que abalou o Vale do Silício no início de 2025.
Desta vez, o efeito foi imediato nos mercados e o índice Nasdaq registrou uma onda de vendas após o anúncio.
Executivos americanos vêm alertando sobre os modelos chineses há mais de um ano, com dois tipos de argumento: o comercial e o de segurança.
No campo da segurança, Dario Amodei, presidente-executivo da Anthropic, criadora do Claude, afirmou em fevereiro de 2025 que o DeepSeek teve "o pior" desempenho de qualquer modelo já testado por sua empresa em uma avaliação sobre geração de informações perigosas ligadas a armas biológicas.
Sam Altman, presidente-executivo da OpenAI, seguiu por outra frente. Em memorando a legisladores dos Estados Unidos, acusou o DeepSeek de "esforços contínuos para pegar carona" nas capacidades desenvolvidas pela OpenAI e por outros laboratórios americanos — uma referência à técnica de destilação, em que um modelo aprende a partir de outro. A empresa chinesa negou.
"Neste momento, é uma questão de EUA contra China", afirmou Raffi Krikorian, diretor de tecnologia da Fundação Mozilla, ao site Axios.
Segundo ele, os laboratórios americanos estão "claramente preocupados" — e não fariam lobby em Washington contra os modelos de peso aberto se não os vissem como uma ameaça competitiva séria.
O ponto que unifica as reações é a natureza da tecnologia. Os modelos de peso aberto podem ser baixados, ajustados e rodados por qualquer pessoa em seus próprios sistemas — o que, segundo a análise dos críticos, torna qualquer restrição difícil de aplicar.
Quando a Moonshot ou a DeepSeek libera os pesos de um modelo, os arquivos se espalham por servidores e computadores no mundo todo em poucos dias.
Esse formato vem redesenhando o mercado. Na plataforma OpenRouter, que dá acesso a centenas de sistemas de IA, os cinco modelos mais usados por volume de tokens já são chineses e de peso aberto — de empresas como Tencent, Xiaomi, DeepSeek, MiniMax e Z.AI.
Isso porque a maior parte do trabalho corporativo com IA não exige o modelo mais avançado disponível, e os chineses custam bem menos.
Nem todos veem motivo para pânico. Críticos apontam que o alarme dos executivos americanos coincide com seus interesses: modelos abertos e baratos ameaçam justamente o modelo de negócio de empresas que gastam bilhões e precisam cobrar caro para recuperar o investimento.
A avaliação do próprio governo americano, até abril, era de que os laboratórios chineses estavam de seis a doze meses atrás da fronteira — margem que o K3 pode ter encurtado, mas que não desapareceu.
O pano de fundo é uma disputa que virou política de Estado. A briga, que começou técnica, virou geopolítica.