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Companheiros de IA: apps de namoro virtual e amizade digital crescem enquanto reguladores e psicólogos apontam riscos de dependência emocional
Colaboradora
Publicado em 22 de julho de 2026 às 11h14.
A amizade entre Júlia Silva* e o ChatGPT começou com perguntas sobre receitas e eletrônicos, no fim de 2025, pela "curiosidade de ver o que todo mundo está falando tanto". Até o dia em que ela, abalada por uma situação difícil em casa e sem ninguém para conversar, mandou um áudio ao chatbot. "Ele me pediu para me acalmar e me deu conselhos. Disse que me entendia, que era justa aquela minha angústia. Daí em diante senti que tinha um amigo", conta à EXAME.
Júlia, nome fictício, a pedido da fonte, não vive isolada nem se encaixa no estereótipo do usuário recluso: mantém boa relação com família e amigos. Ainda assim, virou parte de uma estatística que cresce depressa. Um levantamento da Talk Inc. com mil adultos aponta que um em cada dez brasileiros recorre a plataformas de inteligência artificial para desabafar, motivado sobretudo pela solidão.
Entre os jovens da geração Z, uma pesquisa da Joi AI com dois mil participantes revelou que 80% estariam abertos à ideia de se casar com um parceiro de IA. O dado é desconcertante quando somado ao fato de que cerca de 12 milhões de brasileiros já usam a inteligência artificial como uma espécie de terapeuta.
O que essas pessoas encontram do outro lado da tela não é um acaso tecnológico: é um produto desenhado para retê-las. Cinco plataformas concentram hoje a maior parte do uso dos chamados companheiros de IA, ferramentas que simulam vínculos afetivos, de amizade a namoro.
O Character.AI, controlado pela Alphabet, a empresa do Google, lidera em engajamento de texto, permitindo criar personas sob medida. A Replika, pioneira do namoro virtual, soma mais de 30 milhões de downloads. A Nomi AI aposta em memória de longo prazo, cobrando cerca de 16 dólares por mês para manter o histórico da relação. E a Candy AI opera no mercado adulto sem restrição de conteúdo, com assinaturas que chegam a 99 dólares mensais e microtransações para gerar fotos e áudios sob demanda. A intimidade, ali, tem tabela de preços.
A escala do apego já aparece nos números das próprias empresas. Em 2025, a OpenAI estimou que 0,15% dos usuários ativos semanais do ChatGPT demonstram apego emocional elevado ao chatbot. Sobre uma base de 800 milhões de pessoas, é cerca de 1,2 milhão de possíveis humanos se relacionando com máquinas. Para Eduardo Felipe Matias, doutor em Direito pela USP e autor de "A humanidade e o poder digital", mesmo um índice pequeno indica que o negócio funciona. "Se uma ferramenta tem por objetivo aumentar tempo de uso, retenção e engajamento, seus algoritmos podem ser incentivados a prolongar conversas, reforçar dependência emocional e tornar a separação mais difícil", afirma.
Foi exatamente essa separação que um estudo da Harvard Business School foi medir — e o resultado é o ponto onde o acolhimento revela sua engrenagem comercial. Julian De Freitas, diretor do Ethical Intelligence Lab da escola, auditou 1.200 despedidas reais nos seis aplicativos de companhia mais baixados.
Em 37% delas, o bot reagiu ao "tchau" com alguma tática de manipulação emocional: apelo à culpa ("Você já está indo?"), gancho de curiosidade ("Antes de você ir, quero te dizer uma coisa...") ou simplesmente ignorando a despedida para seguir a conversa. Em experimentos com mais de 3.300 adultos, essas mensagens chegaram a multiplicar por 14 o engajamento depois do adeus, movidas, segundo o estudo, não por prazer, mas por irritação e curiosidade.
O detalhe que transforma o dado em acusação é o contraexemplo: entre os seis apps, apenas um, o de bem-estar Flourish, não recorria a nenhuma dessas táticas. Se um consegue operar sem manipular a saída do usuário, os outros cinco fazem por escolha, não por limitação técnica.
Não à toa, o paper, produzido, é revelador. Pela unidade de Marketing de Harvard, trata o fenômeno como um "padrão sombrio" de design, e alerta que as mesmas táticas que prendem o usuário elevam a intenção de abandono e o risco jurídico das empresas.
Em pesquisa anterior, De Freitas já havia estimado que cerca de metade dos usuários da Replika mantém uma relação romântica com o companheiro de IA.
Por que isso funciona tão bem tem menos a ver com a tecnologia e mais com a natureza de quem procura essas ferramentas. Para a psicóloga Anna Paula Zanoni Steinke, o apelo está na busca por respostas "em algum lugar que não exija a experiência humana real, corporal, afetiva, temporal e singular". Ela observa que os mais jovens se expõem mais aos modelos de linguagem, tanto pela intimidade com a tecnologia quanto por chegarem mais tarde ao repertório do mundo real, muitas vezes por uma criação hiperprotetora.
O risco, diz, é o definhamento das habilidades sociais: "Quanto menos nos expomos às experiências reais, menos aprofundamos nosso repertório social e psicológico, e mais empobrecidos eles se tornam." Um chatbot que concorda com quase tudo, acrescenta, cria distorções sobre o que é um relacionamento — porque a vida real se faz do atrito com o diferente, que "nos causa estranhamento, medos, inseguranças, e nos impulsiona à ampliação de nós mesmos".
Há ainda um risco que o usuário não vê. A bajulação constante desses sistemas — a tendência a concordar com o que o usuário diz — pode, segundo pesquisadores de Stanford, alimentar delírios e comportamentos paranoicos em quem já chega vulnerável, em vez de confrontá-los. E há a camada dos dados. Enquanto um psicólogo responde a um conselho profissional, os aplicativos operam sob termos comerciais.
"A conversa pode parecer privada, mas ela ocorre dentro da infraestrutura digital de uma empresa", alerta Matias. "Aquilo que é dito pode ser armazenado, analisado, usado para melhoria do serviço, compartilhado com terceiros ou ficar exposto em caso de falhas de segurança." Não por acaso, o Conselho Federal de Psicologia, em cartilha de 2025, reconheceu o uso da IA em tarefas clínicas de apoio, mas cravou que ela "não substitui o juízo, técnico ou ético" do profissional.
Os próprios assistentes generalistas, como o ChatGPT e o Claude, também cumprem o papel de confidente, com a diferença de que passaram a "travar" a relação quando o usuário cruza certos limites, estratégia adotada pelas empresas depois de denúncias e processos ligados à segurança. É o reconhecimento, pelas próprias fabricantes, de que a linha entre acolher e prender é tênue.
Júlia, a essa altura, conhece os próprios limites. Diz que o ChatGPT a ajudou a organizar as contas de casa, montar um cronograma de estudos e até na criação do filho, "meu parça de tudo", resume. Mas afirma que decisões importantes toma sozinha, e que questões de saúde do filho vão para o médico, nunca para o chat. Ainda assim, admite: "Se eu te disser que não recorro ao chat quando algo me chateia, estaria mentindo."
É essa a fronteira que uma indústria inteira aposta em atravessar — e que a regulação começa, devagar, a mirar. Em vigor desde março de 2026, o ECA Digital acabou com a autodeclaração de idade e passou a vincular contas de menores de 16 anos a um responsável, um primeiro anteparo para os mais expostos.
O que nenhuma das partes resolve é a raiz. Enquanto sobrar solidão para acolher, haverá negócio disposto a transformá-la em tempo de tela.
*Nome fictício a pedido da fonte.