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Como o capital estatal chinês criou uma gigante de chips de US$ 490 bilhões

A CXMT nasceu em 2016 com dinheiro do governo de Hefei; após anos de prejuízo bancados pelo Estado, virou a empresa mais valiosa da bolsa chinesa

CXMT: a arma da China na corrida dos chips que virou a empresa mais valiosa de Xangai (Imagem gerada por IA/Exame)

CXMT: a arma da China na corrida dos chips que virou a empresa mais valiosa de Xangai (Imagem gerada por IA/Exame)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 27 de julho de 2026 às 14h19.

Última atualização em 27 de julho de 2026 às 15h38.

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Uma empresa chinesa virou assunto de analistas de mercado nesta segunda-feira, 27, ao se tornar a mais valiosa da Bolsa de Xangai. A CXMT subiu mais de 460% em seu primeiro dia como companhia aberta, alcançando um valor de mercado de cerca de US$ 490 bilhões, mas, antes disso, passou quase uma década sustentada por investimentos públicos.

A ChangXin Memory Technologies, ou CXMT, foi fundada em 2016 por um veículo de investimento ligado à zona de desenvolvimento econômico de Hefei, capital da província de Anhui, no leste da China.

O aporte inicial foi de apenas 10 milhões de yuans, cerca de US$ 1,5 milhão, modesto para um setor em que uma única fábrica custa bilhões de dólares.

A CXMT é estatal?

A resposta tem nuances. Em seu prospecto, a empresa afirma não ter um acionista controlador formal.

No entanto, embora no papel nenhum órgão detenha o controle isolado, a soma dos entes governamentais confere ao Estado o controle de fato da companhia.

Ao somar as participações do governo de Hefei, de entes provinciais de Anhui, Pequim e Guangdong e do fundo nacional de semicondutores, a fatia estatal chega a cerca de metade do capital, o suficiente para garantir influência decisiva na governança.

Só os investidores ligados ao governo de Hefei detêm 36,8%, formando o maior bloco isolado. Entre os acionistas privados aparecem investidores estratégicos como a Alibaba Cloud e a Xiaomi.

Como funciona o investimento chinês em chips

A CXMT é um retrato do modelo que Pequim vem aperfeiçoando há uma década: usar dinheiro público como capital de risco em setores estratégicos.

Em vez de esperar que o mercado financie sozinho uma indústria cara e de retorno lento, o Estado entra como sócio, banca os anos de prejuízo e aposta na escala futura.

O instrumento central é o Big Fund, o Fundo de Investimento na Indústria de Circuitos Integrados da China, criado em três fases.

A última, de 2024, é a maior. Foram 344 bilhões de yuans (cerca de US$ 47,5 bilhões), mais do que as duas anteriores somadas.

A CXMT, nova gigante chinesa dos chips, é uma estatal?

O gatilho para o aumento dos aportes foi externo. A cada rodada de controles de exportação dos Estados Unidos, que restringem o acesso chinês a chips avançados, Pequim respondeu ampliando o próprio financiamento, numa corrida por autossuficiência até 2030.

Hefei é o exemplo local mais agressivo. A cidade ficou conhecida por atuar como um fundo de capital de risco governamental, aplicando recursos públicos em chips, veículos elétricos e painéis de display.

A aposta na CXMT foi a maior delas — e a valorização das ações converteu anos de prejuízo em ganho bilionário para os cofres municipais.

Nem tudo, porém, correu sem falhas. Em 2022, o Big Fund foi alvo de investigações por corrupção que atingiram gestores e funcionários públicos.

O que a CXMT faz

A empresa é a quarta maior fabricante de memória DRAM do mundo, atrás das sul-coreanas Samsung e SK Hynix e da americana Micron.

É, ao lado da YMTC, uma das duas principais fabricantes chinesas de memória — a CXMT produz DRAM, para o processamento temporário de dados, enquanto a YMTC faz NAND flash, voltada ao armazenamento.

A companhia chega à bolsa com contratos relevantes. No fim de junho, fechou um acordo de fornecimento de memória para servidores com a Tencent avaliado em mais de US$ 3 bilhões.

E a Apple passou a avaliar seus chips para aparelhos vendidos no mercado chinês — embora a decisão esbarre no risco de restrições americanas, o mesmo que fez a fabricante do iPhone recuar de um plano semelhante com a YMTC em 2022.

Poupada da lista negra, mas não livre

A CXMT vive uma situação regulatória ambígua nos Estados Unidos. Em junho de 2026, a Reuters revelou que a empresa e a startup de inteligência artificial (IA) DeepSeek haviam sido aprovadas por uma comissão interagências para entrar na Entity List, que barra o acesso de companhias estrangeiras a tecnologia americana.

O governo Trump, porém, segurou a publicação para não escalar as tensões com Pequim.

Não foi um perdão completo. Dias antes, em 10 de junho, a CXMT e a YMTC haviam sido recolocadas na lista de Empresas Militares Chinesas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos — outro instrumento de pressão, separado da Entity List.

A empresa escapou de um banimento comercial já aprovado, mas segue no radar de Washington.

O modelo estatal também tem limites técnicos. A CXMT opera na faixa da memória comum e está anos atrás da memória de ponta, a HBM, exigida pelos processadores da Nvidia e dominada pela SK Hynix.

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