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CXMT: a aposta de Pequim na corrida dos semicondutores (Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 27 de julho de 2026 às 06h32.
Última atualização em 27 de julho de 2026 às 12h40.
As ações da ChangXin Memory Technologies (CXMT), a maior fabricante chinesa de chips de memória, dispararam 466% na estreia na Bolsa de Xangai nesta segunda-feira, 27, e transformaram a empresa, em um único pregão, na mais valiosa do mercado de ações da China continental. A companhia fechou o dia avaliada em cerca de US$ 489 bilhões (3,3 trilhões de yuans), à frente do banco ICBC.
Sustentaram o salto uma oferta recorde de US$ 8,6 bilhões, a maior de uma fabricante de chips na história do país, e um lucro que saiu do vermelho para 33 bilhões de yuans em um ano.
Poucos mercados são tão fechados quanto o de memória: três empresas, duas sul-coreanas e uma americana, controlam quase toda a produção mundial, num oligopólio que resiste há décadas.
Foi contra essa barreira que a China apostou bilhões de dólares e, nesta segunda, colheu o primeiro grande retorno na bolsa. Mas a mesma muralha que a CXMT quer furar guarda uma última defesa: a memória de ponta que move a inteligência artificial, onde a chinesa ainda mal chegou.
A CXMT foi fundada em 2016 com apoio do governo chinês, no mesmo espírito de outras apostas de Pequim em setores estratégicos de colocar dinheiro estatal, proteger o mercado interno e esperar que a escala venha depois.
A meta era deixar de depender de Samsung, SK Hynix e Micron para abastecer os celulares, computadores e servidores fabricados na China.
O caminho até a bolsa foi rápido para os padrões do setor. O pedido de listagem, protocolado no fim de 2025, foi a primeira oferta aprovada sob um novo sistema de análise acelerada criado pelas autoridades chinesas para empresas de tecnologia — e saiu em cerca de sete meses. A estreia ocorreu no STAR Market, o pregão de tecnologia de Xangai lançado em 2019 como resposta à Nasdaq.
O momento financeiro fez o resto. No primeiro trimestre de 2026, a CXMT saiu de um prejuízo de 2,83 bilhões de yuans, um ano antes, para um lucro de 33 bilhões — com a receita crescendo mais de 700% na comparação anual.
O IPO aconteceu no timing certo, já que a escassez global de memória, provocada pela demanda por inteligência artificial (IA), empurrou os preços para cima e valorizou todos os fabricantes de uma só vez.
A aposta chinesa mira um setor em plena disparada. O mercado global de memória deve alcançar cerca de US$ 295 bilhões em 2026, uma alta de quase 40% em um ano, segundo a associação World Semiconductor Trade Statistics (WSTS).
É a categoria que mais cresce dentro dos semicondutores, puxando o mercado total de chips para perto de US$ 975 bilhões.
O motor desse crescimento é a mesma memória de ponta que a CXMT ainda não domina.
Segundo estimativas da consultoria Yole Group, a receita global de HBM — o chip de alta largura de banda usado em IA — deve saltar de cerca de US$ 35 bilhões em 2025 para US$ 60 bilhões em 2026, e chegar a US$ 170 bilhões até 2031.
Algumas projeções vão além e apontam que, em 2028, o mercado de HBM sozinho pode superar o valor de todo o mercado de DRAM comum de 2024.
Diferentemente de uma estreia baseada em promessa, a CXMT chegou à Bolsa com pedidos na mão.
No fim de junho, fechou um contrato de fornecimento de memória para servidores com a Tencent avaliado em mais de US$ 3 bilhões. No início deste mês, a Apple passou a testar os chips da empresa para aparelhos vendidos no mercado chinês.
Os preços de venda da companhia já estão a uma distância de 5% a 10% dos praticados pelas líderes globais, segundo a consultoria SemiAnalysis.
Para tentar entrar no grupo de frente, a CXMT planeja triplicar a capacidade de produção e superar a fatia de 15% do mercado — o patamar que a indústria trata como divisor entre quem sobrevive e quem desaparece no longo prazo.
Pode parecer que duas gigantes de chips disputam o mesmo espaço, mas CXMT e Nvidia fazem coisas diferentes e, em tese, complementares.
A Nvidia projeta os processadores gráficos (GPUs, na sigla em inglês) que treinam os modelos de IA — o cérebro da operação. A CXMT fabrica a memória, que guarda os dados que esse cérebro processa. Uma não substitui a outra; um sistema de IA precisa das duas.
O problema, para a empresa chinesa, é que a Nvidia não usa qualquer memória. Seus aceleradores exigem a HBM (sigla em inglês para memória de alta largura de banda), a versão de ponta que empilha camadas e transfere dados cerca de 20 vezes mais rápido que a memória comum.
A CXMT fabrica a DRAM convencional, que vai para celulares, computadores e servidores — não para os processadores de IA. E é justamente na HBM que ela ainda não sabe produzir em escala.
Nesse mercado de ponta, a chinesa praticamente não existe. A SK Hynix controla sozinha entre 56% e 63% da HBM global, e a CXMT está anos atrás: desenvolve uma versão do chip, mas ainda não provou fabricá-la com qualidade estável.
A consultoria Counterpoint projeta que a empresa só deve gerar cerca de US$ 2 bilhões em receita de HBM até 2028, e mesmo assim puxada pela demanda interna, ligada aos chips de IA da Huawei.
Há ainda uma barreira que independe de esforço próprio. A CXMT não tem acesso às máquinas de litografia mais avançadas, fabricadas pela holandesa ASML e bloqueadas para a China pelos controles de exportação dos Estados Unidos.
Sem elas, opera com um custo por bit cerca de 30% maior que o de Samsung e Micron, segundo a consultoria SemiAnalysis.
A estreia enfatiza a velocidade com que a China montou, do zero e sob sanções, uma fabricante de memória com escala de gigante. Se essa velocidade vai alcançar a fronteira tecnológica é a pergunta que os US$ 8,6 bilhões levantados na bolsa ainda não conseguem responder.
O que aconteceu: as ações da CXMT, maior fabricante chinesa de chips de memória, dispararam 466% na estreia na Bolsa de Xangai nesta segunda-feira, 27.
Quanto vale: a empresa fechou o pregão avaliada em cerca de US$ 489 bilhões, superando o banco ICBC e virando a companhia mais valiosa da bolsa da China continental.
Por que importa: é a maior oferta de uma fabricante de chips na história do país e a aposta de Pequim para furar o oligopólio global de memória, mas a chinesa ainda não domina a memória de ponta que move a IA.