Haiti: atletas da seleção tem passado ligado ao Brasil e hoje encontram seleção brasileira ((Foto: Franck Fife / AFP))
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Publicado em 19 de junho de 2026 às 13h34.
Última atualização em 19 de junho de 2026 às 13h54.
Quando Brasil e Haiti se enfrentarem pela segunda rodada da Copa do Mundo de 2026, nesta sexta-feira, 19, a partida terá um detalhe curioso fora das quatro linhas. Quatro jogadores da seleção haitiana carregam em suas trajetórias uma forte ligação com o futebol brasileiro.
O goleiro Josué Duverger, o lateral Carlens Arcus, o meio-campista Danley Jean Jacques e o atacante Derick Etienne passaram pela Academia Pérolas Negras, projeto criado por brasileiros no Haiti e que, há mais de duas décadas, utiliza o esporte como ferramenta de transformação social.
A iniciativa surgiu em um contexto de instabilidade política e crise humanitária no país caribenho. Em vez de apenas formar atletas, o objetivo era oferecer oportunidades educacionais e sociais para jovens em situação de vulnerabilidade.
Anos depois, alguns desses garotos chegaram à seleção nacional e agora terão pela frente justamente o Brasil, país que ajudou a impulsionar suas carreiras.
A origem da história remonta a 2004. Naquele ano, após a queda do presidente Jean-Bertrand Aristide e o agravamento dos conflitos internos, o Brasil assumiu o comando da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti.
Paralelamente à atuação militar, a ONG Viva Rio iniciou projetos sociais no país a convite da ONU. Saúde, educação e segurança pública estavam entre as prioridades, mas o futebol rapidamente ganhou espaço como instrumento de inclusão e desenvolvimento.
A aproximação entre os dois países ganhou um símbolo marcante poucos meses depois. Em agosto de 2004, a Seleção Brasileira disputou em Porto Príncipe o chamado "Jogo da Paz", evento que reuniu milhares de haitianos e reforçou os laços entre as nações. Foi nesse cenário que nasceu a Academia Pérolas Negras.
Desde sua criação, o projeto foi pensado para oferecer uma estrutura completa aos jovens participantes. Além dos treinamentos esportivos, os alunos recebiam suporte educacional, acompanhamento médico, nutricional e fisioterápico.
Com o crescimento da iniciativa, o Pérolas Negras expandiu suas operações para o Brasil. Em 2016, ganhou uma base no Rio de Janeiro e passou a disputar competições oficiais, inicialmente com atletas haitianos e refugiados.
A equipe participou das edições de 2016 e 2017 da Copa São Paulo de Futebol Júnior e, posteriormente, conquistou a quarta divisão do Campeonato Carioca. Atualmente, o clube segue ativo nas competições estaduais e nas categorias de base.
Entre os jogadores convocados para o Mundial de 2026, quatro nomes representam diretamente o legado do projeto. Josué Duverger, de 25 anos, integrou as categorias de formação da academia ainda em território haitiano e hoje compõe o elenco da seleção nacional.
Carlens Arcus, lateral-direito de 29 anos que atua no futebol francês, também passou pelo projeto antes de iniciar sua trajetória internacional.
O caso mais emblemático é o de Danley Jean Jacques. Atualmente no Philadelphia Union, dos Estados Unidos, o meio-campista passou pela base do Pérolas Negras no Rio de Janeiro e disputou a Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2017. Depois, seguiu carreira na Europa antes de se firmar como um dos principais nomes da seleção haitiana.
Já o atacante Derick Etienne completa a lista. Com passagens pelo futebol norte-americano, ele também teve parte de sua formação ligada ao projeto criado por brasileiros.
Mais de 20 anos depois do início dessa parceria entre Brasil e Haiti, os resultados estarão em campo na Copa do Mundo. Do lado haitiano, quatro jogadores representam uma iniciativa que nasceu em meio a uma crise e encontrou no futebol um caminho para transformar vidas.