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Entrar na Anthropic virou passaporte para o clube dos milionários — e isso preocupa o próprio CEO

Com IPO previsto para outubro e valuation que saltou 50 vezes em pouco mais de dois anos, a dona do Claude atrai pesquisadores de elite; Dario Amodei teme que eles cheguem pelo dinheiro, e não pela missão

Dario Amodei: CEO da Anthropic (Chance Yeh /Getty Images)

Dario Amodei: CEO da Anthropic (Chance Yeh /Getty Images)

André Lopes
André Lopes

Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 3 de agosto de 2026 às 09h25.

Há três anos, a Anthropic era uma startup de US$ 4 bilhões que acabava de lançar o Claude ao público. Hoje, negocia perto de US$ 1 trilhão em valuation e tem pedido de abertura de capital protocolado, com estreia mirada para outubro.

Para quem trabalha lá, a aritmética é vertiginosa: um funcionário que recebeu US$ 100 mil em ações em 2023 teria hoje algo perto de US$ 23 milhões no papel, antes de diluições e travas de venda. Até quem entrou no fim de 2025 viu o valor da participação se multiplicar por cinco.

É por isso que uma vaga na dona do Claude virou, no Vale do Silício, sinônimo de bilhete premiado. E é exatamente isso que preocupa o homem que comanda a empresa.

Segundo apuração do site Axios, o CEO Dario Amodei manifestou preocupação com a chegada de novos talentos motivados pelo salário, e não pela missão da companhia, fundada em 2021 por ele e pela irmã, Daniela, com a bandeira da segurança em inteligência artificial como razão de existir.

O desconforto tem lógica de negócio, não só filosófica. A Anthropic se vende como a empresa que faz IA com cautela, e sua tese de valor depende disso. Um time formado por gente que veio atrás do equity pré-IPO tende a se comportar diferente de um time que acredita no discurso, sobretudo quando a alternativa é uma oferta ainda maior do concorrente do outro lado da rua.

Uma ciranda de cérebros

O caso da Anthropic é um sintoma de um mercado em ebulição. Os principais pesquisadores de IA do mundo estão em movimento constante entre um punhado pequeno de laboratórios, num rodízio que o dinheiro sozinho não explica.

A mais recente troca de peso é a de Lilian Weng, cofundadora da Thinking Machines, startup de Mira Murati. Ela anunciou a saída dizendo que o papel de cofundadora afetava sua saúde e que buscava uma posição mais focada, dias depois, o The Information noticiou seu retorno à OpenAI para trabalhar em autoaperfeiçoamento recursivo, a ideia de que sistemas de IA podem ajudar a construir as próximas gerações de IA. Weng é a quarta cofundadora a deixar a Thinking Machines em um ano.

O Google perdeu dois nomes de peso no mês passado: Noam Shazeer foi para a OpenAI, e o Nobel de Química John Jumper, para a própria Anthropic.

A Meta gastou fortunas para montar sua operação de superinteligência, sob Alexandr Wang, e viu vários dos recrutas caros saírem pouco depois. E Ilya Sutskever, ex-cientista-chefe da OpenAI, perdeu o CEO de sua Safe Superintelligence para a Meta.

Não é só dinheiro (mas é bastante dinheiro)

Os pesquisadores citam outras moedas: acesso a poder computacional, influência sobre o que é construído e liberdade para seguir a própria abordagem técnica. Num setor onde muitos acreditam que seu trabalho pode redesenhar a economia global, status e diferenças ideológicas pesam tanto quanto salário.

Há ainda um cálculo mais frio, e revelador: alguns pesquisadores acreditam que sua janela de valorização é curta. Temem que o poder de barganha encolha à medida que os próprios sistemas de IA automatizarem parte do trabalho de desenvolver novos modelos. Em outras palavras, correm para garantir a segurança financeira antes que a tecnologia que constroem torne sua especialidade menos rara.

O custo dessa ciranda não é desprezível. Programas de pesquisa dependem de confiança, memória institucional e times que trabalham juntos por anos. Saídas frequentes atrasam projetos, desestabilizam quem fica e obrigam as empresas a pagar repetidamente pelas mesmas poucas pessoas. É o paradoxo que os laboratórios de IA descobriram: dá para comprar o tempo de um pesquisador de elite, mas lealdade duradoura ainda não tem preço de tabela.

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