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António Guterres, secretário-geral da ONU, na London Climate Action Week: "não há embargo sobre a luz do sol nem bloqueio sobre o vento", disse ao defender a transição. (Florence Mondou/United Nations)
Editora ESG
Publicado em 23 de junho de 2026 às 19h30.
Londres vive um dos junhos mais quentes já registrados. E é justo na semana em que o termômetro supera os 35°C, sob o primeiro alerta vermelho de calor extremo emitido pelo Met Office, que acontece a maior edição já realizada da London Climate Action Week.
Fora do noticiário meteorológico, o que move as conversas entre os mais de mil eventos não é o clima do lado de fora, e sim uma inquietação política.
Não por acaso, "cooperação climática num mundo fragmentado" é o lema desta edição, que ocorre vive a transição de comando após a renúncia do primeiro-ministro Keir Starmer, anunciada na véspera da abertura da semana, e poucos meses depois de os Estados Unidos deixarem oficialmente o Acordo de Paris pela segunda vez.
Com a adesão à pauta climática sob pressão política, a questão deixou de ser convencer alguém de que a transição importa. Passou a ser destravar o que a atrasa.
O custo dessa demora já é mensurável. A própria Europa atravessa seu segundo episódio extremo do tipo antes mesmo de o verão engatar, num padrão que deixou de ser anomalia e virou tendência estatística: crises de estresse térmico ficaram sete vezes mais frequentes desde os anos 1980 e a mortalidade em cada uma delas quintuplicou.
Conforme Laurence Tubiana, arquiteta do Acordo de Paris e CEO da European Climate Foundation, que acompanha a semana londrina e enquadra o problema para além do conforto individual, "o que falta é a seriedade política e institucional à altura do problema", afirma, ao classificar alguns debates como uma distração estreita diante da pergunta de fundo, a de o que significa qualidade de vida num clima em aquecimento.
A leitura econômica reforça o argumento e desloca a adaptação do campo moral para o da gestão de risco. Cada grau acima de 30°C custa cerca de US$ 1,30 por trabalhador a cada hora de produtividade perdida, segundo estudo da Allianz Trade, e o verão passado tirou 43 bilhões de euros da produção europeia.
Do lado da oportunidade, a Global Cooling Initiative, do Pnuma, projeta poupar até US$ 43 trilhões em custos de energia e infraestrutura e proteger três bilhões de pessoas até 2050.
O diagnóstico se repete na fala de Ana Toni, CEO da COP30, que considera que o obstáculo não é técnico nem de conhecimento. "Já sabemos o que precisa ser feito e dispomos das ferramentas para isso. Agora o desafio é enfrentar os gargalos que nos atrasam", afirma.
É um ponto que encontra respaldo nos números da transição. Desde 2010, segundo o secretário-geral da ONU, António Guterres, que discursou na semana londrina, o custo da energia solar caiu quase 90%, o da eólica em terra mais de 70% e o das baterias 95%, e o investimento em energia limpa atrai hoje quase o dobro do destinado a combustíveis fósseis.
"Alguns dizem que a sustentabilidade deixou de ser prioridade, mas a adesão à London Climate Action Week prova o contrário", contrapõe Ana Toni, que vê na edição recorde um esforço capaz de mobilizar governos, empresas, setor financeiro e sociedade civil.
A presidência da COP30 tem aproveitado a semana para reforçar como a agenda do clima roda o ano inteiro, não apenas durante as cúpulas, e condiciona o avanço a uma divisão de responsabilidade mais ampla. "Governos nacionais sozinhos não conseguem realizar essa transição", argumenta Ana Toni.
O Uruguai é um exemplo de país que agiu sem esperar por consenso global. Ao apostar em renováveis, blindou a economia contra choques de preço e gerou cerca de 50 mil empregos, equivalentes a 3% da força de trabalho nacional.
Quem conduziu essa virada, Ramón Méndez Galain, diretor-executivo da Asociación Ivy e ex-negociador-chefe do país no Acordo de Paris, resumiu o momento atual em evento da semana londrina como uma crise dos combustíveis fósseis, não uma crise de energia.
É o tipo de benefício local palpável que parte dos debates aponta como condição para sustentar apoio à transição, e que separa o compromisso retórico da entrega concreta.
A própria ONU reforça esse enquadramento. Para Guterres, crise climática e crise energética compartilham a mesma origem nos combustíveis fósseis e exigem a mesma resposta. "Não há embargo sobre a luz do sol nem bloqueio sobre o vento", disse, ao defender que a saída renovável é também uma rota de segurança energética.
Reunir casos assim numa frente comum, porém, esbarra num obstáculo menos visível que o financiamento, o da linguagem.
A linguagem hermética da ciência e da diplomacia do clima aparece como barreira para conquistar adesão ampla e o avanço em descarbonização, eletrificação e proteção da natureza dependeria de ancorar cada medida nas motivações de grupos distintos.
Falar de ganho percebido na vida real, e não de dever moral numa rota abstrata rumo à neutralidade, é o que aproximaria o consenso difuso da ação coordenada.
A programação da semana deve testar essas ideias na prática. A presidência da COP30 prevê a Cúpula Global de Transição Energética e Eletrificação, a construção colaborativa do mapa do caminho contra o desmatamento até 2030, a Cúpula de Financiamento para Resiliência Climática de Londres e o roteiro internacional sobre o afastamento dos combustíveis fósseis.
O encerramento fica por conta da Missão Belém para 1,5°C, que reúne as presidências da COP29, COP30 e COP31 em torno da cooperação climática, antes da temporada que leva a Antália e Adis Abeba.