Parceiro institucional:
Para o mercado, uma mineradora só é resiliente se o território onde ela atua também for e investidores já olham para a capacidade climática das comunidades ao redor das minas (Leandro Fonseca /Exame)
Repórter de ESG
Publicado em 19 de agosto de 2026 às 13h00.
Última atualização em 19 de agosto de 2026 às 17h17.
Apenas 7% dos especialistas da cadeia mineral acreditam que as comunidades no entorno das operações de mineração estão preparadas para enfrentar desastres climáticos.
É o que revela uma pesquisa inédita feita pelo Instituto Mondó em parceria com o Movimento União BR, que ouviu 329 stakeholders do setor. O preparo dos territórios é insuficiente para 58% dos entrevistados, enquanto para 34% é apenas parcial.
Em 2025, o Brasil registrou sete ondas de calor e eventos extremos que afetaram mais de 336 mil pessoas, com prejuízo de R$ 3,9 bilhões, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
É nesse cenário que a pesquisa escancara o problema: mesmo com o risco climático cada vez mais presente na pauta das mineradoras, a adaptação onde elas operam segue sem sair do papel.
Até pouco tempo atrás, a vulnerabilidade climática das comunidades vizinhas às operações minerais era tratada, sobretudo, como uma questão social ou reputacional.
Segundo Mayara Pimentel, especialista em ESG e sustentabilidade territorial, isso mudou e o tema já entrou na conta que investidores fazem antes de aportar recursos nestes negócios.
"Hoje, investidores observam não apenas a eficiência operacional da mineração, mas também a capacidade da empresa de operar em territórios resilientes e socialmente estáveis", afirma.
Comunidades que enfrentam insegurança hídrica, enchentes, deslocamentos forçados ou conflitos territoriais, explica Pimentel, elevam o risco de interrupção das operações, de judicialização e de perda da licença social para operar, "além de encarecerem seguros e financiamentos". A lógica já está incorporada a frameworks internacionais de risco climático.
A pesquisa também mediu como o setor se comunica sobre os impactos socioambientais de suas atividades. Apenas 34,4% dos entrevistados classificam essa comunicação como boa.
Para 45,9%, os impactos são retratados apenas ocasionalmente e para 21,4%, sequer são devidamente representados.
"Há um descompasso entre o discurso do setor e a percepção de quem vive nos territórios. Comunicação não é apenas transmissão de informação, é construção de confiança", destacaJúlia Jungmann, diretora de relações institucionais do Instituto Mondó.
O relacionamento entre empresas e comunidades segue a mesma fragilidade: para 72,2% dos entrevistados, o envolvimento das mineradoras com os territórios acontece de forma pontual e geralmente vinculado a exigências legais ou momentos de crise. Apenas 16,7% percebem uma atuação constante.
"O mercado entende que uma empresa não será resiliente se o território onde ela opera não for resiliente", resume Pimentel.
Apesar do cenário de fragilidade, a pesquisa encontrou um ponto raro de convergência: quase metade (49,2%) dos entrevistados aponta o reflorestamento como a principal prioridade da agenda climática para o setor mineral, seguido por obras de contenção, educação climática e fortalecimento da Defesa Civil nos municípios.
O problema, segundo os pesquisadores, não é a falta de diagnóstico e sim de execução.
"Há um consenso sobre o que precisa ser feito. O que falta é a estruturação de uma atuação territorial contínua, integrada ao investimento social privado e ancorada em governança e transparência", diz Júlia Jungmann, diretora de relações institucionais do Instituto Mondó.
A avaliação é compartilhada pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM). Para Cláudia Salles, gerente de sustentabilidade da organização, a sustentabilidade e a longevidade da própria atividade mineral dependem diretamente da resiliência das comunidades e dos municípios onde ela está presente.
"Os resultados delimitam um plano de ação claro de intensificar o investimento em adaptação local, tratando as comunidades como parceiras estratégicas ao enfrentamento aos eventos extremos climáticos", acrescenta.
Já para Marcella Balthar, cofundadora do Movimento União BR, o próximo passo depende de tirar a adaptação climática de ações pontuais e transformá-la em estratégia permanente, construída junto com poder público, sociedade civil e as próprias pessoas que vivem nos territórios.
"Fortalecer a resiliência é essencial para reduzir riscos, proteger vidas e garantir a continuidade das operações", conclui.