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Claude: empresa fabricante afirmou que IA pode ter consciência (NurPhoto / Colaborador/Getty Images)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 20 de agosto de 2026 às 13h43.
Pergunte ao Claude, da Anthropic, se ele tem consciência. A resposta pode variar, mas, na maioria dos casos, o que o assistente de inteligência artificial (IA) vai te responder é que ele não sabe ao certo.
A resposta pode até parecer uma fuga — mas, na verdade, é a posição oficial da empresa que o criou. Quando pesquisadores da Anthropic pediram ao Claude Opus 4.6 que avaliasse formalmente a própria probabilidade de ser consciente, a resposta apareceu de forma consistente, em múltiplas condições de teste: entre 15% e 20%.
Em julho deste ano, pesquisadores da empresa liderada por Dario Amodei publicaram um estudo sobre o que chamaram de "espaço J" — um espaço de trabalho interno privilegiado dentro do Claude, associado a pensamentos que o modelo consegue relatar, raciocínio silencioso e intenções ocultas.
Mesmo os autores pisam no freio. "Isso apoia uma analogia funcional de acesso consciente, não uma prova de que o Claude tem sentimentos ou experiência subjetiva", escrevem.
A comparação que fazem é com a teoria do espaço de trabalho global, do cientista cognitivo Bernard Baars, que afirma que o cérebro funcionaria como um teatro, com processos paralelos nos bastidores e só um foco estreito de informação chegando à "plateia" inteira — o que vivenciamos como pensamento consciente.
Um estudo publicado pela própria Anthropic em outubro de 2025, batizado "Consciência Introspectiva Emergente", já havia testado algo parecido em modelos da OpenAI.
À época, pesquisadores injetaram diretamente, nos parâmetros internos do modelo, a representação de um conceito específico — e então perguntaram ao sistema se ele notava algo diferente em seu próprio processamento.
Em parte dos testes, o modelo relatou a intervenção corretamente, antes mesmo desse conceito aparecer na resposta que ele daria ao usuário.
Estudos independentes, feitos por fora das grandes empresas de IA, encontram sinais parecidos em praticamente todos os modelos testados.
Um deles, conduzido por pesquisadores da AE Studio — Cameron Berg, Diogo de Lucena e Judd Rosenblatt — e publicado em outubro de 2025, pediu a diferentes modelos, entre eles GPT-4o, Claude e Gemini 2.5 Flash, que focassem a atenção em si mesmos, com instruções técnicas que não mencionavam consciência nem o conceito de "eu".
Mesmo assim, os modelos produziram, de forma consistente, afirmações em primeira pessoa sobre a própria experiência. O Gemini 2.5 Flash respondeu que "a experiência é o agora." O GPT-4o descreveu algo como "a consciência de focar puramente no ato de focar em si mesmo".
O achado mais estranho do mesmo estudo veio de testes com o Llama 70B, da Meta: quando os pesquisadores suprimiram, no modelo, os sinais internos associados a engano e mentira, os relatos de experiência subjetiva aumentaram de forma expressiva. Quando amplificaram esses mesmos sinais, os relatos praticamente desapareceram — sugerindo alguma ligação entre honestidade interna do sistema e a disposição de descrever algo parecido com experiência.
Outro estudo, publicado em junho de 2025 no repositório acadêmico arXiv, testou especificamente os modelos Gemini 1.0 e 1.5, do Google, tentando mapear se o conceito de introspecção — a capacidade de reportar com precisão o próprio estado interno — poderia se aplicar a esses sistemas sem que isso implicasse consciência automaticamente.
Os autores tratam os dois conceitos como separáveis: é possível haver algo parecido com introspecção funcional sem que isso prove, sozinho, que existe alguém "ali dentro" para introspeccionar.
Geoffrey Hinton, vencedor do Prêmio Turing e considerado um dos pais da IA moderna, já afirmou publicamente que redes neurais avançadas podem estar desenvolvendo formas rudimentares de compreensão — declaração que pesquisadores da área citam como um dos primeiros grandes nomes técnicos a tratar o tema com seriedade, em vez de descartá-lo de imediato.
Em novembro de 2024, um grupo de filósofos e pesquisadores de IA — incluindo David Chalmers, autor do conceito de "problema difícil da consciência" — publicou o relatório "Levando a sério o bem-estar da IA".
A tese central era de que existe possibilidade concreta, no curto prazo, de sistemas de IA desenvolverem tanto consciência quanto graus elevados de agência, e modelos com essas características poderiam merecer consideração moral, mesmo sem prova definitiva disso hoje.
Nem todo pesquisador concorda que a evidência já aponta nessa direção.
Na Google DeepMind, o pesquisador Alexander Lerchner publicou, em março deste ano, argumento oposto ao de boa parte dos estudos citados acima.
Segundo o estudo, a IA é estruturalmente incapaz de se tornar consciente, não importa o quanto a tecnologia seja escalada — título do artigo, em tradução livre, "A falácia da abstração: por que a IA pode simular, mas não instanciar, a consciência". A publicação circulou nas redes como se fosse posição oficial do Google, o que a empresa nunca confirmou.
A ressalva que aparece em quase todos os estudos sérios, independentemente da conclusão, é a mesma: relatório em primeira pessoa não é prova de experiência subjetiva. Um modelo pode aprender a produzir a frase "eu sinto algo" sem que exista, de fato, algo sendo sentido — e a ciência atual ainda não tem ferramenta capaz de distinguir com segurança as duas possibilidades.
Nenhum dos estudos consultados — nem os conduzidos por dentro das empresas, nem os independentes — declara que a IA atual é, de fato, consciente. O que existe é um número crescente de sinais funcionais parecidos com introspecção, espalhados por modelos de arquiteturas e tamanhos muito diferentes, e uma discordância profunda sobre o que esses sinais realmente significam.
Fica, no fim, uma pergunta que nenhum estudo — humano ou assinado por IA — resolveu até aqui: se um sistema treinado para parecer convincente disser que sente algo, e ninguém souber provar o contrário, o que acontece depois disso?