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Fora das quadras, autoridades francesas relataram sete mortes direta ou indiretamente ligadas ao calor (IMAGO)
Repórter de ESG
Publicado em 31 de maio de 2026 às 07h51.
Um dos torneios mais tradicionais do tênis mundial virou, nesta semana, um retrato dos riscos que o clima extremo já impõe aos grandes eventos esportivos. Disputado anualmente em Paris, Roland Garros é um dos campeonatos mais importantes da modalidade.
Foi nesse palco que a onda de calor que atinge a Europa expôs um problema cada vez mais difícil de ignorar: a crise climática já interfere na operação, na segurança, na performance e no modelo de negócios dos eventos esportivos.
Segundo o serviço meteorológico nacional, a França registrou temperaturas máximas diárias acima de 32 °C desde sábado, nível considerado incomum para esta época do ano. Em Paris, a previsão chegou a 35°C, em uma onda de calor excepcionalmente precoce. A semana também marcou o dia mais quente de maio já registrado no país.
Nas quadras de Roland Garros, os efeitos foram visíveis. A cada pausa, jogadores corriam para os bancos em busca de sombra, bolsas de gelo, ventiladores portáteis e bebidas de reposição de eletrólitos. A imagem de atletas tentando se refrescar entre um game e outro se tornou uma das marcas da abertura do torneio.
O norueguês Casper Ruud, número 16 do mundo, precisou de atendimento médico e afirmou ter se sentido “andando como um zumbi” após vencer sua partida de estreia em cinco sets. Segundo ele, a sensação foi parecida com a de uma insolação. Já o checo Jakub Menšík classificou como “insano” jogar por mais de quatro horas sob sol forte. Após vencer Mariano Navone em cinco sets, o atleta desabou na quadra e precisou de assistência.
O caso reacende uma discussão para eventos esportivos atuais, especialmente com a aproximação da Copa do Mundo de 2026: até que ponto regras tradicionais de competição continuam adequadas em um cenário de calor extremo?
Menšík defendeu uma abordagem mais flexível para as pausas em Roland Garros, já que os intervalos previstos não seriam suficientes para a recuperação dos atletas em condições tão severas.
O calor também passou a interferir nos equipamentos. A americana Coco Gauff chamou atenção ao guardar raquetes reservas em uma caixa térmica para proteger a tensão das cordas, que pode cair mais rapidamente em altas temperaturas. Em um esporte decidido por detalhes, o clima extremo deixa de ser apenas desconforto físico e se torna uma variável técnica.
As próprias condições de jogo mudam. Com temperaturas elevadas, as bolas tendem a quicar mais alto e a produzir mais efeito topspin, favorecendo determinados estilos de jogo, como atletas com devoluções potentes e saques fortes. Ou seja: o clima também pode alterar o equilíbrio competitivo de uma partida.
Para a indústria do esporte, o alerta é direto. Grandes torneios dependem de bilheteria, direitos de transmissão, turismo, alimentação, hospitalidade, patrocínios e ativações de marca. Quando o calor ameaça a saúde dos atletas, reduz o conforto do público ou coloca em risco a continuidade das partidas, toda essa cadeia de valor fica exposta.
O risco não está restrito aos competidores. Fora das quadras, autoridades francesas relataram sete mortes direta ou indiretamente ligadas ao clima durante o período da onda de calor, incluindo casos associados a eventos esportivos. A ministra dos Esportes da França, Marina Ferrari, afirmou que os episódios são um lembrete de que a prática esportiva em calor extremo exige “vigilância absoluta”.
Na prática, isso pode exigir revisão de horários de partidas, ampliação de áreas de sombra, distribuição de água, protocolos médicos mais robustos, sensores climáticos, sistemas de alerta, zonas de resfriamento, mudanças na arquitetura de arenas e novos critérios para decidir quando uma partida deve ser interrompida ou adiada.
A ciência climática reforça a urgência. Segundo a organização Climate Central, o calor observado em Paris nesta semana teve ao menos quatro vezes mais probabilidade de ocorrer por causa das mudanças climáticas.