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Lisa Sachs, diretora do Columbia Center on Sustainable Investment: o problema não é a falta de dinheiro, e sim quem tem acesso barato a ele. (Columbia University)
Editora ESG
Publicado em 19 de agosto de 2026 às 19h31.
Última atualização em 1 de setembro de 2026 às 10h33.
Quando os Estados Unidos anunciaram, em janeiro de 2026, que deixariam não apenas o Acordo de Paris, mas a própria Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima, o tratado que ampara a cooperação global no tema desde 1992, a leitura imediata foi a de que o mundo perdia seu principal fiador climático.
Para além das obviedades, porém, ficou no ar uma questão mais complexa: o que aconteceria com o espaço deixado pela maior economia do planeta, e se alguém o ocuparia.
Na COP30 de Belém, no fim de 2025, o Brasil chegou a aventar que a ausência americana seria a chance de amplificar a voz das nações em desenvolvimento e usar sua liderança nos BRICS para reforçar o peso do Sul Global nas negociações de financiamento.
Meses depois, os desdobramentos frustraram essa aposta. O espaço deixado pelos EUA não se redistribuiu, foi absorvido - quase inteiro - por um único país. E esse país é a China, cuja vantagem começa na tecnologia, mas não se limita a ela.
Empresas chinesas responderam por mais da metade de todo o investimento global em manufatura de energia limpa nos últimos anos, segundo a firma de pesquisa Atlas Public Policy, enquanto o aporte americano no setor encolheu pela primeira vez em 2025.
O domínio se estende ao crédito. Em abril de 2026, o juro de dez anos dos títulos soberanos americanos beirava 4,4%, contra 1,75% dos chineses, diferença mantida acima de 200 pontos-base por dezoito meses seguidos, conforme o Carnegie Endowment.
Como nenhum empréstimo costuma sair mais barato do que o juro pago pelo próprio governo, o custo menor da China se propaga para baixo, e seus bancos financiam projetos no mundo em desenvolvimento a preços impraticáveis para o Ocidente.
Para Lisa Sachs, o quadro é mais complexo do que a simples troca de um líder por outro.
Diretora do Columbia Center on Sustainable Investment (CCSI) e uma das maiores referências mundiais em financiamento climático, a pesquisadora concedeu entrevista exclusiva à EXAME às vésperas de uma viagem ao Brasil, na qual percorreu temas que vão da governança climática global ao cerco às universidades americanas.
Sobre o avanço da China, a pesquisadora sustenta que o recuo dos Estados Unidos não transferiu poder ao Sul Global, apenas trocou o fornecedor de tecnologia e de dinheiro, sem tocar nas regras que o encarecem para as economias emergentes.
Na prática, ela explica, o crédito ficou mais barato, mas as regras que o governam continuam as mesmas. E são essas regras que punem justamente as nações mais vulneráveis.
Não à toa, lembra a acadêmica, uma grande tempestade eleva o custo de captação muito mais nos países pobres do que nos ricos. Assim, o dinheiro fica caro bem quando falta o mais essencial: recursos para reconstruir.
E aponta uma segunda armadilha, o prêmio de risco de transição, pelo qual quem descarboniza devagar passa a pagar ainda mais, embora a lentidão seja consequência do próprio custo elevado do capital.
É por isso inclusive que, em sua visão, a África foi penalizada duas vezes, primeiro pelo preço do dinheiro, depois pela transição lenta que esse preço provoca.
O Brasil é um retrato desse arranjo. Conforme o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), o país foi o principal destino mundial do capital que a China direcionou ao exterior em 2025, absorvendo 10,9% do total, à frente dos próprios Estados Unidos.
Foram 6,1 bilhões de dólares em dezenas de projetos, alta de 45% em um ano, concentrados sobretudo em energia limpa e mineração, dois pilares da transição. A oportunidade é evidente. A dependência de um único parceiro, porém, também.
Sachs desembarca no país nesta semana para uma agenda de visitas a universidades e instituições, entre elas a Saint Paul Escola de Negócios, do mesmo grupo da revista, e para inaugurar uma nova fase do Columbia Global Center no Rio, braço latino-americano da universidade.
Recentemente, a unidade brasileira do centro passou a ser comandada pela executiva Ana Paula Vitelli, que dirigiu na América do Sul a operação da Universidade de Manchester e foi a primeira mulher a presidir a Câmara Britânica de Comércio no Brasil em mais de um século, trabalho que lhe rendeu a Ordem do Império Britânico, concedida pelo rei Charles III.
"O papel desses centros é pesquisar e se engajar para entender os desafios do mundo e desenhar, com parceiros de toda parte, soluções ao mesmo tempo locais e globais", afirma Sachs sobre sua visita.
Ou seja, enquanto em casa, Columbia amarga verbas de pesquisa congeladas e um acordo milionário para reavê-las, longe de Washington, faz o caminho oposto e estreita laços com o Sul Global.
Na conversa com EXAME - cuja íntegra estará na próxima edição da revista, nas bancas a partir de 27 de agosto -, Sachs detalha por que o financiamento climático se tornou um conceito confuso.
Também avalia o que esperar do multilateralismo depois da COP30 e o que se perde quando a ciência pública passa a ser tratada como adversária política, algo que ela e seus colegas de Columbia têm vivido de dentro dessa mesma instituição sob cerco.