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Onda de calor na Europa é “praticamente impossível” sem mudanças climáticas

Pesquisa aponta agravamento rápido das temperaturas no continente mais afetado pelo aquecimento global, com impactos já observados em saúde, infraestrutura e rotina urbana

Estudo cita aumento de eventos de estresse térmico em centenas de cidades europeias e destaca dificuldades de recuperação do corpo humano durante noites mais quentes (AFP Photo)

Estudo cita aumento de eventos de estresse térmico em centenas de cidades europeias e destaca dificuldades de recuperação do corpo humano durante noites mais quentes (AFP Photo)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 26 de junho de 2026 às 15h19.

A onda de calor que atingiu a Europa nesta semana teria sido “praticamente impossível” sem a influência das mudanças climáticas provocadas pelo homem. A análise é do World Weather Attribution (WWA), grupo de cientistas dedicado à atribuição de eventos extremos ao aquecimento global.

O estudo aponta que o aquecimento global tornou as temperaturas noturnas extremas até 100 vezes mais prováveis do que eram há cerca de duas décadas. Segundo os pesquisadores, o evento analisado é o mais severo já registrado na região estudada.

O Reino Unido registrou, na quinta-feira, a maior temperatura já observada para o mês de junho, em meio a uma onda de calor que provocou mortes, interrupções no fornecimento de energia, fechamento de escolas e de espaços culturais.

O WWA afirma que o aumento das temperaturas médias globais, impulsionado por emissões de gases de efeito estufa — principalmente da queima de carvão, petróleo e gás — elevou a temperatura do planeta em cerca de 1,4°C acima dos níveis pré-industriais do século XIX, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Onda de calor na Europa

Em um recorte histórico, os cientistas indicam que uma onda de calor semelhante à atual, caso ocorresse em junho de 1976, seria cerca de 3,5°C mais fria do que a registrada hoje.

Dos mais de 800 centros urbanos europeus analisados, 45% registraram ou devem registrar os maiores níveis de estresse térmico para o fim de junho. O conceito de “heat stress” (estresse térmico, condição em que o corpo não consegue se resfriar adequadamente pela transpiração) é apontado como um dos principais indicadores de risco à saúde durante ondas de calor.

Os impactos sobre a saúde ainda estão em consolidação, mas o estudo cita evidências de eventos anteriores. Em 2022, uma sequência de ondas de calor na Europa teria contribuído para mais de 60 mil mortes relacionadas ao calor.

Segundo Clair Barnes, pesquisadora associada de eventos climáticos extremos no Imperial College London e coautora da análise, a tendência é de agravamento se as emissões continuarem elevadas. “Não estamos fazendo o suficiente para desacelerar o ritmo do aquecimento global. À medida que esse aquecimento continua, devemos esperar que recordes de temperatura sejam superados com mais frequência”, afirmou.

O estudo também destaca o papel das temperaturas noturnas elevadas, que reduzem a capacidade do corpo humano de se recuperar do estresse térmico do dia.

Em regiões da França, por exemplo, as temperaturas mínimas permaneceram acima de 20°C por mais de uma semana, com registros próximos de 30°C — patamar conhecido como “noites tropicais”, ou tropical nights, quando as temperaturas noturnas não caem o suficiente para aliviar o calor acumulado.

A análise afirma ainda que o fenômeno climático El Niño, associado ao aumento temporário das temperaturas globais no Pacífico tropical, não teve contribuição para a intensidade da onda de calor na Europa neste episódio.

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