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Assim como Londres e Nova York, Belém terá Semana do Clima incluída no calendário anual

No pós-COP, evento na capital paraense reuniu mais de 30 instituições correalizadoras em dois dias de debates oficiais. Apenas mais quatro estados têm programação fixa para discutir mudanças climáticas

Belém recebeu debates sobre transição justa, sociobioeconomia e conservação da floresta (Marcio Nagano)

Belém recebeu debates sobre transição justa, sociobioeconomia e conservação da floresta (Marcio Nagano)

Amazônia Vox
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Publicado em 11 de julho de 2026 às 14h00.

*Texto e Natália Mello, com colaboração de Alice Martins Morais

Garantir que os compromissos globais anunciados na COP30 se transformem em ações concretas nos territórios amazônicos é o principal objetivo da II Semana do Clima da Amazônia, que teve início nesta segunda-feira (29), em Belém.

A abertura do encontro foi marcada pelo anúncio de que a capital paraense vai oficializar a programação no calendário anual, confirmado durante a fala da secretária municipal de Meio Ambiente, Juliana Nobre.

Como um dos principais fóruns climáticos realizados na região após a conferência da ONU, o evento segue até o dia 4 de julho com debates focados em sociobioeconomia, transição justa e o protagonismo das populações locais na construção de políticas públicas para manter a floresta em pé.

No Brasil, o Pará será o quinto estado a ter a Semana do Clima — São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Mato Grosso já realizam anualmente uma programação fixa —, além de capitais mundiais como Londres e Nova York.

Para quem vive e trabalha diretamente na floresta, o debate sobre as mudanças climáticas já deixou de ser uma previsão de futuro e virou um desafio diário de sobrevivência. É o que relata Marluce Coelho, de 32 anos, liderança do Quilombo Maria Valentina, localizado no Baixo Amazonas, em Santarém.

“A seca já deixou o nosso solo muito mais enfraquecido e, consequentemente, ano passado vivemos uma temperatura muito elevada. Isso fez com que, no local de onde tiramos o derivado da mandioca, a gente visse um cozimento da própria raiz ainda debaixo da terra.

Eu, que trabalho diretamente com o extensionamento rural, percebi isso na pele: a nossa produção está diminuindo drasticamente e hoje o agricultor precisa de muito mais esforço de trabalho para conseguir uma produção menor. Antes, a regra era outra”, alertou a liderança quilombola.

Extensionista técnica, ela atua na assessoria de projetos da Federação das Organizações Quilombolas de Santarém (FOQS), organização que faz a gestão de 15 territórios quilombolas na região, e destaca a importância da ocupação desses espaços de debate por quem está na ponta da conservação.

“Trazer representantes do território é justamente nos dar a oportunidade de entender o que de fato está acontecendo, como as mudanças climáticas estão avançando, para, juntos, fazermos parte desse processo de multiplicação da informação", destacou.

Para Marluce, é preciso decidir como é possível participar ativamente desse processo, junto com a conservação do meio ambiente, já que o clima influencia diretamente o território e a forma como vivem as pessoas que dependem da agricultura familiar.

Ela acredita que o debate ajuda a entender como também é possível antecipar algumas ações.

“As tecnologias sociais são importantes na Amazônia, mas o agricultor também é fundamental, e esse espaço se torna estratégico por isso: porque passamos a compreender a importância de cada indivíduo nessa engrenagem”, pontuou.

Na prática, a assessora detalha os efeitos severos da última grande seca e do El Niño que atingiram o oeste paraense, em 2024, alterando profundamente a dinâmica de produção do principal alimento das comunidades tradicionais da região: a mandioca.

Presença de povos tradicionais é maior nesta edição

Para dar suporte e escala a essas vozes, a estrutura da Semana do Clima da Amazônia expandiu seu alcance na edição de 2026.

Segundo Lucimar Souza, diretora de Desenvolvimento Territorial do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), uma das instituições correalizadoras, o evento deste ano conseguiu ampliar de forma robusta a presença de povos tradicionais, mobilizando quase 100 agricultores e representantes de comunidades vindos de diferentes territórios e suas realidades, incluindo o Pará, Amapá, Mato Grosso e Maranhão.

O crescimento também se reflete nos números institucionais do fórum, que agora conta com uma rede de mais de 30 instituições correalizadoras e uma programação paralela que saltou para mais de 70 eventos autogestionados — mais do que o dobro da primeira edição, que contou com cerca de 30 atividades geridas pelas organizações parceiras.

De acordo com a diretora do IPAM, essa articulação robusta cumpre um papel político essencial para o futuro do território no cenário pós-COP30.

“Há uma importância crucial em manter a Amazônia, a partir de Belém e com a força da COP30, permanentemente no calendário das grandes discussões globais sobre mudança climática e transição justa”, defendeu Lucimar.

A abertura da II Semana do Clima da Amazônia também contou com a participação da jornalista e documentarista Sônia Bridi, que reforçou o alerta da ciência de que o planeta corre o risco de aquecer 2,6 °C até o fim do século caso as metas globais não sejam aceleradas, e pontuou como os ecossistemas estão interligados.

Que legado da COP30 a Amazônia precisa manter?

A agenda climática continua quente sete meses após a COP30.

Coordenador de Parcerias da Presidência da COP30, Mauro O’de Almeida, destacou que a Agenda Global de Ação Climática da conferência segue atuando, com uma visão de cinco anos (2026-2030), por meio dos 30 grupos de trabalho que unem setor privado, academia, instituições financeiras, governos e sociedade civil.

Além disso, os mapas do caminho para a transição para longe dos combustíveis fósseis e de combate ao desmatamento seguem sendo discutidos entre os países.

Enquanto isso, sociedade civil e governos precisam cumprir o dever de casa de perpetuar o legado da Conferência do Clima na Amazônia.

Para Joaquim Belo, enviado especial da Sociedade Civil Amazônica para a COP30, o único modo de dar continuidade às lições do evento global é mantendo os povos tradicionais no centro das discussões.

"O mapa do caminho precisa ter reparação social", afirma Joaquim, que é líder extrativista do Amapá e presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).

Beto Veríssimo, enviado especial de Florestas da COP30, avalia que o Brasil já tem “a faca e o queijo na mão” para se tornar uma referência ainda maior em sustentabilidade — basta focar no potencial das florestas.

Um estudo publicado neste mês pelo projeto Amazônia 2030, do qual Beto é coordenador, revela que o Brasil pode inverter a curva do desmatamento e expandir a cobertura florestal até 2035, passando de 517 milhões para 525 milhões de hectares em dez anos.

“O Brasil terá que errar muito para não conseguir cumprir suas metas”, diz Beto Veríssimo.

Pesquisador sênior e cofundador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Beto ressalta que é preciso inverter a ordem do financiamento: injetar mais dinheiro em conservação do que em atividades predatórias e formalizar a proteção das florestas.

"Ninguém quer investir na Amazônia se houver confusão entre, de um lado, a ilegalidade e o desmatamento, e, do outro, a floresta. Isso tem que ser resolvido politicamente", explica.

Segundo o estudo, há um volume significativo de áreas privadas pouco aptas para a agropecuária que podem ser destinadas à restauração florestal:

“A extensão de glebas públicas não destinadas cobre 50,9 milhões de hectares na Amazônia, de acordo com o Cadastro Nacional de Florestas Públicas 2024. A destinação dessas áreas, na forma de Unidades de Conservação, Terras Indígenas, áreas de concessão florestal e projetos de REDD+ Jurisdicional, é uma condição para a gestão do desmatamento na Amazônia”, informa o documento.

Joanna Martins, membro da rede Uma Concertação pela Amazônia, complementa que o mundo precisa financiar as soluções que já existem na Amazônia, como a sociobioeconomia.

“A gente tem soluções, mas muitas vezes não são implementadas porque a gente não acredita nelas. Sem medo, podemos mostrar para o mundo que as soluções existem e estão aqui na Amazônia", conclui.

Leia a reportagem no site da Amazônia Vox. 

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