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Dados mostram que estrutura institucional e desenho do sistema explicam diferenças de desempenho na reciclagem entre os dois países (HADI ZAHER/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 24 de junho de 2026 às 14h46.
Quando o assunto é gestão de resíduos, a Suíça aparece como um dos casos mais estruturados entre países desenvolvidos.
O desempenho no setor não está associado a uma única política ou a um aumento recente de conscientização, mas a um sistema construído ao longo de décadas, com regras, infraestrutura e integração entre Estado e setor privado.
Hoje, o país recicla cerca de 52% dos resíduos municipais. Em 2024, foram 3,1 milhões de toneladas de materiais recicláveis recuperados, enquanto 2,9 milhões de toneladas foram enviadas para incineração.
Esse arranjo mostra que a gestão de resíduos não depende apenas da reciclagem: parte significativa do material segue para incineração controlada com recuperação energética, antes do descarte final em aterros.
Em fluxos específicos, o desempenho suíço é ainda mais elevado. O vidro chega a 100% de reciclagem, mais de 80% nas garrafas PET e cerca de 75%, o mínimo legal, para embalagens de bebidas. Esses números ajudam a explicar um padrão recorrente: os melhores resultados estão nos materiais com logística de retorno mais organizada e regras mais claras de circulação.
O funcionamento do modelo suíço é sustentado por um conjunto de mecanismos que reduz a dependência de ações individuais isoladas.
A política de resíduos é orientada por obrigações legais e metas específicas para diferentes materiais. O princípio do poluidor-pagador estrutura o sistema ao determinar que quem gera o resíduo participa do custo da sua destinação. No caso de embalagens de bebidas, há metas mínimas de reciclagem e um sistema nacional que organiza PET, alumínio e vidro.
A infraestrutura também é um elemento central. O país opera com pontos de coleta distribuídos, triagem eficiente e sistemas de devolução organizados por tipo de material. Em muitos municípios, há calendários definidos de descarte e regras específicas sobre como os resíduos devem ser apresentados, o que reduz improviso e melhora a qualidade do material coletado.
Esse desenho faz com que a reciclagem deixe de ser apenas um comportamento individual e passe a funcionar como parte de um serviço público estruturado.
Outro componente do sistema suíço é a integração entre reciclagem e valorização energética. Os resíduos que não podem ser reaproveitados seguem para incineração com recuperação de energia, reduzindo a dependência de aterros e incorporando parte do lixo ao sistema energético.
A consolidação desse modelo começa a partir dos anos 1980, quando a política ambiental passa a incorporar a lógica da economia circular — conceito baseado na manutenção de materiais em uso pelo maior tempo possível, com reaproveitamento e recuperação de recursos.
Entre 1970 e 2010, a geração de resíduos por habitante mais que dobrou na Suíça, passando de 309 kg para 706 kg. Em 2024, esse volume recuou levemente para 670 kg per capita, indicando estabilização após décadas de crescimento.
No Brasil, o quadro é marcado por um descompasso entre geração, coleta e reaproveitamento de resíduos.
O país gerou mais de 81,6 milhões de toneladas de resíduos urbanos em 2025, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025 citado na imprensa. Apesar disso, a taxa de reciclagem efetiva aparece em torno de 4,5% em estimativas recentes do setor.
Em outra leitura, o dado oficial do Ministério das Cidades, com base em 2023, aponta apenas 1,82% de recuperação de resíduos recicláveis secos e orgânicos, o que reforça a distância entre o que é descartado e o que volta à cadeia produtiva.
Ao mesmo tempo, o Brasil apresenta avanço na cobertura de coleta seletiva. Segundo o IBGE, 60,5% dos municípios brasileiros tinham o serviço em 2023, o equivalente a 3.364 cidades. Isso indica que o sistema existe em parte relevante do território, mas não necessariamente se traduz em reciclagem efetiva.
A distribuição regional também é desigual. O Sul concentra 81,9% dos municípios com coleta seletiva, enquanto o Norte e o Nordeste registram 37,0% e 33,5%, respectivamente. Na prática, isso significa que o acesso ao serviço varia significativamente dentro do próprio país.
A comparação entre Suíça e Brasil evidencia diferenças estruturais na forma como a gestão de resíduos é organizada.
No modelo suíço, há integração entre regulação, infraestrutura e mercado: regras nacionais, metas por tipo de material, canais bem definidos de devolução e reciclagem, além da articulação com a incineração com recuperação energética.
No Brasil, mesmo com mais da metade dos municípios com coleta seletiva, a baixa taxa de reciclagem indica que a existência do serviço não garante a transformação do resíduo em matéria-prima secundária ou energia na mesma proporção.
O contraste entre os dois países mostra que o desempenho não depende apenas da geração de resíduos ou da adesão da população, mas da forma como o sistema é desenhado para capturar, processar e reinserir materiais na economia.