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Sustentabilidade no setor privado: painel da ABIHPEC mostrou que a sustentabilidade ganhou espaço na estratégia, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar impacto socioambiental em argumento para quem decide investimentos (AFP)
Repórter de ESG
Publicado em 4 de agosto de 2026 às 18h30.
A agenda climática venceu a disputa dentro das empresas. Agora, o desafio é convencer o financeiro de que ela gera retorno. Essa foi uma das principais mensagens do Fórum de Beleza Sustentável, da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), realizado nesta terça-feira, 4, em São Paulo, como hub oficial da São Paulo Climate Week.
Se antes a discussão era sobre levar sustentabilidade para o centro dos negócios, hoje executivos dizem que o foco mudou: traduzir impactos ambientais em linguagem de risco, custo e geração de valor.
Ao longo do encontro, representantes de empresas como Natura, Ajinomoto, Suzano e Unilever, além da consultoria ERM, defenderam que a agenda climática deixou de ser tratada apenas como compromisso ambiental para ganhar espaço nas discussões sobre competitividade, cadeia de suprimentos, riscos operacionais e continuidade dos negócios.
Para Ricardo Zibas, Regional Head-Climate Change & Sustainability da ERM, a transformação é resultado da aceleração dos impactos climáticos observada nos últimos anos.
"Estamos sendo pegos de surpresa pela velocidade das mudanças climáticas. O cenário projetado pelo IPCC em 2014 era outro e hoje já ultrapassamos a marca de 1,5°C prevista no Acordo de Paris. Essa discussão chegou ao C-level. Agora a pergunta é como operar em um mundo diferente", afirmou.
Segundo Zibas, os efeitos das mudanças climáticas já aparecem na operação das empresas por meio de interrupções nas cadeias de suprimentos, aumento da volatilidade dos negócios e custos indiretos.
Como exemplo, ele citou companhias que precisaram custear hospedagem para funcionários durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. "Mesmo quem diz que as mudanças climáticas não existem continua convivendo com eventos que afetam diretamente a operação das empresas", disse.
O executivo também observou que a América Latina apresenta níveis distintos de maturidade na agenda ambiental. Enquanto o Brasil acumula uma trajetória mais longa, impulsionada por iniciativas que remontam à Rio-92, Conferência da ONU realizada no Rio de Janeiro em 1992, outros países ainda avançam em temas que já fazem parte da rotina de empresas brasileiras.
"No México, por exemplo, a discussão sobre economia circular ainda está ganhando força. No Brasil, temos uma agenda mais extensa e histórica, embora muitas empresas ainda enxerguem sustentabilidade no máximo como compliance", afirmou.
Embora a sustentabilidade esteja mais presente na estratégia das empresas, um dos principais desafios continua sendo demonstrar seu retorno financeiro.
Janaina Adalgiso, gerente do Departamento de Sustentabilidade da Ajinomoto do Brasil, afirmou que a companhia estruturou formalmente sua área de sustentabilidade em 2022, mas ressaltou que a lógica faz parte da empresa desde sua fundação.
Segundo ela, a Ajinomoto, empresa centenária conhecida pela produção de aminoácidos por meio da fermentação da cana-de-açúcar, nasceu com um modelo em que praticamente todos os subprodutos retornam ao processo produtivo. Os resíduos da fermentação, por exemplo, são transformados em fertilizantes utilizados nos canaviais que fornecem matéria-prima para a companhia.
"Quando entrei na empresa, 18 anos atrás, só conhecia o trabalho da Ajinomoto pelo Sazón. Hoje digo que também somos conhecidos pela sustentabilidade sempre presente na forma como produzimos", afirmou.
As metas definidas pela matriz japonesa foram adaptadas à realidade brasileira e hoje incluem temas como redução do uso de plásticos, fortalecimento da cadeia de suprimentos sustentável e inovação.
Para a executiva, entretanto, o maior desafio está em demonstrar o valor econômico dessas iniciativas. "Quando as áreas técnicas apresentam projetos de redução de desperdício, normalmente elas vendem isso como redução de custos. Ainda temos dificuldade de transformar ganhos de sustentabilidade em ganhos financeiros. Essa conversa ainda precisa amadurecer."
Ela contou que uma das metas da companhia previa reduzir desperdícios até 2030, tomando 2018 como referência. O objetivo, porém, já foi superado, com redução superior a 90%. Consequentemente, o ganho financeiro acompanhou o sucesso da iniciativa. Mas como pontuar isso como um ganho da área de ESG?
Zibas acredita que parte dessa dificuldade está na linguagem utilizada pelas áreas de sustentabilidade. "O CFO (diretor financeiro) não fala de IPCC, CDP, SBTi ou NDC. Falta traduzir essas siglas para a linguagem do risco e do dinheiro. Precisamos mostrar quanto custa não agir e quanto custa agir."
Segundo ele, hoje já existem dados suficientes para aproximar sustentabilidade das métricas financeiras, mas as empresas ainda precisam construir essa conexão de forma mais clara para seus tomadores de decisão.
O executivo comparou a sustentabilidade a um quarto de hotel. "Quando tudo funciona, as pessoas não reparam. Quando algo deixa de funcionar, todo mundo reclama."
Na avaliação dele, os benefícios da agenda ambiental costumam ficar invisíveis até que um desastre climático ou uma ruptura operacional revele seu valor.
A descarbonização da cadeia produtiva também apareceu como um dos principais desafios para o setor.
Fernanda Facchini, gerente de Sustentabilidade da Natura, explicou que a companhia estabeleceu inicialmente uma meta de reduzir em 42% suas emissões ao longo da cadeia de valor e já alcançou cerca de 40%. Os pontos restantes, segundo ela, dependem de tecnologias ainda pouco disponíveis ou de investimentos elevados de médio e longo prazo.
Boa parte desse trabalho envolve fornecedores de diferentes portes. Como exemplo, a executiva citou uma parceria com a Ultragaz para utilização de biometano em caldeiras industriais. O projeto incluiu a instalação de um ponto de abastecimento compartilhado, permitindo que transportadoras e parceiros logísticos também utilizassem o combustível renovável. "O consumo acabou sendo três vezes maior do que o previsto no business case", afirmou.
Outro exemplo citado foi um projeto de economia circular envolvendo os liners — o papel que protege o verso de adesivos — das figurinhas da Copa do Mundo. O material passou a funcionar como mecanismo de desconto para consumidores, estimulando sua devolução e aumentando a participação dos fornecedores na iniciativa.
Segundo Facchini, a ação elevou em cerca de 5% a receita do projeto. Ela afirmou que a estratégia da empresa considera diferentes níveis de maturidade entre os fornecedores. "Tem parceiros que ainda precisam ser educados e outros que já chegam mais maduros e regulados. Quando mostramos sustentabilidade sob a ótica dos ganhos para o negócio, conseguimos criar benefícios para os dois lados."
A executiva contou ainda que a Natura trabalha com demonstrações integradas de resultados desde 2012 para aproximar indicadores financeiros e socioambientais. Neste ano, segundo ela, a empresa submeteu um case simplificado ao Festival de Cannes com o objetivo de democratizar metodologias de mensuração de impacto.
Ela também observou uma mudança na relação das demais áreas da companhia com a sustentabilidade. "Antes eu precisava buscar as áreas para discutir sustentabilidade. Hoje elas me procuram."
Além dos desafios internos, os executivos também discutiram o avanço das exigências regulatórias relacionadas ao clima e à economia circular.
Na mediação do debate, Fábio Brasiliano, diretor executivo de Desenvolvimento Sustentável da ABIHPEC, alertou para o risco de uma "fadiga regulatória", em que o aumento do número de exigências acaba elevando a burocracia sem necessariamente produzir benefícios ambientais e sociais proporcionais.
Zibas concordou que a insegurança regulatória continua sendo um dos principais desafios para as empresas.
Ele classificou o cenário brasileiro como um "cipó regulatório", marcado por normas diferentes entre municípios, estados e governo federal, além de alterações frequentes em regras que afetam investimentos de longo prazo.
Como exemplo, citou mudanças em exigências da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e alterações envolvendo certificados ligados ao mercado de biometano. "Às vezes cada órgão enxerga apenas o seu problema. Cabe ao setor privado lembrar qual é o elefante na sala."
Para Fernanda Facchini, o avanço da agenda climática depende de identificar quais temas são realmente materiais para cada negócio.
Segundo ela, na Natura a discussão sobre clima atravessa temas como biodiversidade, circularidade, inovação e abastecimento de matérias-primas. "Se 90% das nossas fórmulas utilizam ingredientes naturais, sem natureza não existe negócio."
Ela afirmou que a compra de créditos de carbono na Amazônia foi escolhida justamente por estar conectada à estratégia da companhia, funcionando como instrumento de mitigação de riscos ligados à continuidade do negócio.
A executiva também defendeu uma atuação mais coordenada das empresas em pautas comuns por meio de entidades setoriais, em vez de iniciativas isoladas.
Para Janaina Adalgiso, consolidar uma cultura de sustentabilidade continua sendo um trabalho de longo prazo. Segundo ela, é preciso ampliar o letramento sobre o tema em todos os níveis da organização, da liderança às equipes operacionais, traduzindo conceitos técnicos para situações do cotidiano. "Sustentabilidade tem assuntos infinitos. Quanto mais a gente aprende, mais percebe o quanto ainda falta conhecer."
Ela defendeu que ciência, inovação e transparência caminhem juntas para fortalecer a confiança entre empresas e seus diferentes públicos. "É uma jornada. Às vezes damos passos para frente e para trás. Precisamos contar não apenas as histórias de sucesso, mas também onde erramos e o que aprendemos."
Na avaliação da executiva, educação passa por diálogo constante e pela capacidade de conectar a agenda climática à vida das pessoas. "As empresas precisam pensar com mais paixão, gastar saliva e sola de sapato. Quando a ciência encontra histórias e fatos concretos, fica mais fácil mostrar por que essa agenda importa."