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Usina a fio d’água: modelo reduz áreas alagadas, mas depende diretamente da vazão dos rios.
engenheira eletricista
Publicado em 4 de agosto de 2026 às 15h00.
Você sabia que o conceito de "fio d’água" nasceu muito antes da própria eletricidade? Se voltarmos ao século III a.C., os primeiros moinhos hidráulicos da antiguidade já seguiam essa lógica. Engenheiros gregos e romanos instalavam rodas de madeira no leito de rios rápidos, aproveitando o fluxo natural da correnteza para moer grãos, sem precisar represá-la.
A ideia de seguir o fluxo da natureza ficou adormecida até o final do século XIX, nos primórdios da hidroeletricidade. Em sua maioria, as primeiras usinas hidrelétricas eram pequenas estruturas construídas à beira de quedas d’água naturais. Elas geravam apenas o suficiente para iluminar uma fábrica ou algumas lâmpadas, e, após mover as turbinas, a água seguia o curso do rio. Dessa maneira, os pioneiros da eletricidade criaram ali as primeiras usinas a fio d'água.
Essas usinas possuem duas características principais. A primeira é a ausência de grandes reservatórios: o represamento é necessário apenas para garantir a captação, inundando pequenas áreas. Isso nos leva a uma segunda particularidade: elas são fontes variáveis de energia. Sem estoque, a sazonalidade é um fator relevante: as usinas operam em sua máxima capacidade nas cheias, mas reduzem sua geração durante o período de seca.
As usinas a fio d’água surgem em duas alternativas diferentes. Em pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) que utilizam grandes quedas naturais e necessitam de barramento apenas para garantir a captação das águas para alimentar canais ou túneis, com pequenos reservatórios, em sua maioria, inferior a 3 km². Ou em locais com baixas quedas, onde se pode aproveitar a vazão de rios caudalosos para mover suas turbinas, como ocorre no rio Madeira.
A maioria das grandes usinas construídas no Brasil nos últimos quinze anos foi a fio d'água. No entanto, dada a dependência sazonal dessas fontes, por que o Brasil focou seus investimentos neste tipo de usina?
A resposta está na busca pela redução dos impactos socioambientais e o incentivo à construção de PCHs. Dada a sua reduzida área alagada, essas usinas são vistas como mais vantajosas frente às usinas com reservatórios de regularização, por proporcionarem menos deslocamentos de populações ribeirinhas, menor perda de fauna e flora na região e evitarem os impactos resultantes da variação do nível d ‘água dos reservatórios e da vazão a jusante para os ecossistemas aquáticos.
Esse cenário nos leva a um dilema crucial quanto à disponibilidade de energia no futuro, sobretudo considerando o contexto de mudanças climáticas: será que vale a pena investir apenas na construção de usinas a fio d’água, especialmente num panorama em que cada vez mais o armazenamento é necessário?
É preciso voltar a avaliar as vantagens dos reservatórios de regularização e de usinas reversíveis em contraponto à utilização das térmicas (usinas mais caras e, em geral, mais poluentes) para o atendimento aos requisitos do sistema e como forma de prover segurança hídrica para usos múltiplos da água, mas evidentemente sem deixar de considerar de forma adequada os impactos socioambientais e sua mitigação.