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Alice Amorim, diretora da COP30: "Adaptação climática ainda não é uma economia, mas vai se transformar" (Divulgação)
Repórter de ESG
Publicado em 4 de agosto de 2026 às 17h20.
Última atualização em 4 de agosto de 2026 às 17h25.
O Brasil saiu da COP30 em Belém com um conjunto de soluções para tornar as cidades mais resilientes frente a eventos climáticos extremos, um reflexo do que vem se repetindo nas fortes chuvas do Rio Grande do Sul.
Mas e agora, o que devemos, de fato, implementar? A pergunta foi colocada na mesa por Alice Amorim, diretora de Programas da Presidência da COP30, em um evento na FGV durante a programação da SP Climate Week nesta terça-feira, 4.
Para a diretora, o país vive agora uma virada de chave: sair do desenho das ações e entrar na fase da implementação.
A resposta está nos Planos Nacionais de Adaptação (NAPs), disse Amorim: instrumentos que se tornaram prioridade para os países e agora entram em um novo estágio, o de desenvolvimento de mecanismos que os viabilizem na prática.
No Brasil, esse é o Plano Clima. É um movimento, segundo a diretora, que ainda não tem paralelo no setor privado: enquanto muitas empresas levaram anos só para entender a lógica da mitigação, a adaptação vai exigir uma resposta muito mais ágil.
"O que estamos vendo é que está surgindo uma economia da adaptação, e os planos clima são a bússola", destacou Amorim.
O problema é que essa economia ainda não tem regras claras e "adaptação ainda não é um ativo de investimento", afirmou a diretora, apontando o que chamou de desafio de linguagem do setor: como transformar um risco sistêmico que atinge negócios e governos ao mesmo tempo, em algo que efetivamente se financia.
"Ainda não é uma economia, mas vai se transformar", completou, citando o movimento de seguradoras que já começam a desenvolver áreas dedicadas ao tema.
Um dia antes, na abertura do dia dedicado a finanças, o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Capobianco, fez o mesmo alerta sobre o descompasso.
"Existem recursos públicos e privados para investir, mas isso ainda não entrou no radar do setor econômico", destacou.
Da COP30 ao governo brasileiro, a mensagem se repete: o dinheiro existe, mas o mercado ainda não aprendeu a enxergar adaptação como oportunidade.
Outro desafio apontado por Amorim é a inteligência de dados. Quando o El Niño chegar ao pico nos próximos meses, poucos municípios ou empresas sabem, na prática, o que fazer para se preparar.
Não por acaso, a COP31, em Antália, na Turquia, deve concentrar a agenda de adaptação em dois setores mais tangíveis: segurança alimentar e construções.
Para Maria Netto, diretora executiva do Instituto Clima e Sociedade, também presente no evento, o desafio começa na própria forma como as empresas enxergam risco.
"Os negócios precisam repensar a forma como operam", disse, lembrando que a vulnerabilidade varia conforme o setor e, principalmente, o território em que a companhia atua.
Segundo ela, essa complexidade ainda não foi plenamente compreendida, o que acaba levando a um planejamento isolado do entorno.
"Se eu fizer uma infraestrutura resiliente perfeita e ela estiver no meio de áreas degradadas, o meu território vai inundar igual", afirmou, apontando a interdependência entre empresa e ecossistema como um ponto cego nos investimentos atuais.
Para Netto, o cerne do problema é que o setor privado ainda opera com uma lógica de risco baseada no histórico climático.
"Sabemos que a mudança do clima vai ser mais frequente e intensa, mas ainda com um certo nível de incerteza para poder precificar esses riscos", ressaltou.
O Brasil já tem uma ferramenta pública para mapear essas vulnerabilidades, o Adapta Brasil, mas segundo ela, ainda está longe de se tornar um instrumento de tomada de decisão para as empresas.
Enquanto o setor corre para transformar a agenda em economia, o WRI já traduziu em números. Um estudo do World Resources Institute mostrou que cada dólar investido em resiliência climática pode gerar mais de US$ 10 em benefícios ao longo de dez anos.
Já a inação tem preço: segundo levantamento do Boston Consulting Group (BCG) e do Fórum Econômico Mundial, desastres climáticos já causaram mais de R$ 21 trilhões em prejuízos desde o início dos anos 2000, com risco de reduzir o PIB global em até 22% até o fim do século.
O caso de negócio, portanto, já está feito no papel. O que falta, segundo as especialistas, é a ponte entre esse argumento e o capital de fato saindo do lugar.
É nesse ponto que entra o diagnóstico mais duro, levantado por Natasha Alves dos Reis, do BID Invest. Segundo a executiva, boa parte dos países da América Latina já definiu suas metas de adaptação, mas o que existe hoje, na prática, é um "vale da morte" entre o desenho técnico do projeto e uma estrutura financiável.
Três barreiras explicam esse gargalo:: financiamento; conhecimento, já que há pouca evidência sobre o que efetivamente funciona, uma vez que muitos projetos são os primeiros do tipo em seu setor; e política, num cenário em que 17 dos 33 países da América Latina já apresentaram planos de aceleração de adaptação, mas de forma fragmentada, o que dificulta o acompanhamento orçamentário.
Para tentar destravar esse gargalo, o BID prepara o lançamento de um Acelerador de Adaptação regional e espera anunciá-lo na COP31, em novembro, na Turquia.
Já existe, porém, um exemplo mais consolidado de que a ponte entre plano e capital privado é um caminho também para a adaptação: o EcoInvest, programa que nas últimas semanas somou um novo movimento, com o anúncio de uma parceria entre BID e Santander voltada à resiliência climática em agricultura, uso da terra e infraestrutura.