ESG

Parceiro institucional:

logo_pacto-global_100x50

OMM confirma El Niño forte a partir de agosto: o risco de desastres climáticos vai aumentar?

Chuvas intensas no Sul e Sudeste, incêndios florestais na Europa e calor recorde nos EUA marcaram a semana; A nova projeção é de que temperaturas do Pacífico vão superar 2,9°C nos próximos meses

O El Niño deve reforçar a tendência de temperaturas acima da média em grande parte do planeta nos próximos meses (Patricia de Melo Moreira/AFP)

O El Niño deve reforçar a tendência de temperaturas acima da média em grande parte do planeta nos próximos meses (Patricia de Melo Moreira/AFP)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 31 de julho de 2026 às 13h50.

Última atualização em 31 de julho de 2026 às 15h25.

Esta semana foi marcada por eventos climáticos extremos: mais de 500 municípios do Rio Grande do Sul e Santa Catarina em alerta para fortes chuvas, uma tempestade que matou ao menos cinco pessoas em São Paulo e no Rio, incêndios florestais recordes consumindo a Europa e Estados Unidos e Canadá batendo marcas históricas de calor.

Em um planeta já aquecido pelas mudanças climáticas, a preocupação agora é que um novo fator passe a potencializar esses extremos. O mundo já está operando no limite, mas a pergunta de 2026 é: o El Niño vai agravar ainda mais o cenário? E quais os riscos para cada parte do mundo?

A resposta, segundo a atualização climática divulgada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) nesta sexta-feira, 31, é que sim e o fenômeno deve se tornar forte a partir de agora:  as temperaturas médias da superfície do mar nas principais regiões de monitoramento do Pacífico devem ultrapassar 2,9°C entre agosto e outubro, patamar que caracteriza oficialmente um evento intenso.

Além disso, se soma a formação esperada de um Dipolo Positivo do Oceano Índico, quando o lado oeste do oceano fica mais quente que a média e o leste, mais frio.

O resultado é uma combinação de fatores que, segundo a organização, tende a intensificar secas, enchentes e o risco de incêndios florestais especialmente nas áreas ao redor da bacia do Oceano Índico, como África Oriental, Sul da Ásia e Austrália.

As temperaturas do Atlântico Tropical também devem seguir acima da média, o que aumenta ainda mais os efeitos.

Fora dessa bacia específica, o que a OMM projeta com mais confiança é um aumento generalizado das nos termômetros: há uma probabilidade muito elevada de calor acima da média em quase todos os continentes nos próximos três meses, com sinais mais fortes para África, sul da Europa, Península Arábica, subcontinente indiano, leste asiático, América Central, Caribe, África Austral, grande parte da América do Sul e Nova Zelândia.

Ou seja, boa parte dos lugares que já vinham sofrendo com eventos extremos neste primeiro semestre do ano.

Para a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, a mensagem central do novo relatório é mais sobre gestão de risco e adaptação climática do que a previsão em si.

"Previsões, por si só, não evitam desastres. Mas pessoas evitam", disse no comunicado, ao defender que a janela entre o alerta de hoje e a intensificação do fenômeno nos próximos meses é o tempo que governos e comunidades têm para agir.

A atualização é, na prática, a confirmação de um aviso que a própria OMM já vinha fazendo desde junho, quando estimou 80% de probabilidade do El Niño se formar entre junho e agosto, com possibilidade de intensidade forte.

Dois meses depois, a previsão se confirmou: o fenômeno está em curso, e a classificação "forte" passou de projeção para expectativa consolidada pelos modelos climáticos, reforçando os alertas da comunidade científica sobre seus potenciais impactos.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, tratou o dado com o tom mais duro e destacou que o El Niño chegou para aumentar um calor que já é recorde, enquanto a expansão de combustíveis fósseis segue alimentando a crise climática. 

Chuva de um lado, seca do outro: os efeitos desiguais no Brasil

O mecanismo por trás do El Niño é conhecido: as águas da região central e leste do Oceano Pacífico Equatorial ficam anormalmente mais quentes, o que altera a circulação atmosférica e modifica padrões de chuva, temperatura e vento em diferentes partes do mundo.

O fenômeno tende a aumentar o risco de seca em regiões da Ásia, da Austrália e da Amazônia, ao mesmo tempo em que intensifica as chuvas em áreas da América do Sul.

Os efeitos, porém, variam bastante entre as regiões. No Brasil, são sentidos de forma desigual: enquanto o Sul tende a enfrentar chuvas mais intensas e risco maior de enchentes, partes da Amazônia, do Nordeste e do Centro-Oeste caminham para o cenário oposto, com seca, calor extremo e condições mais favoráveis a incêndios florestais.

Em abril, o Cemaden caracterizou 2026 como um "desastre térmico" no país, pela combinação de uma dupla ameaça: El Niño e mudanças climáticas em curso. 

Embora a OMM não utilize oficialmente a classificação "Super El Niño", um estudo da Uniasselvi, que cruza dados de NOAA, NASA, INPE, Inmet, Cemaden e do Instituto Internacional de Pesquisa sobre Clima e Sociedade (IRI) usando inteligência artificial, adota esse termo para descrever um cenário ainda mais severo, com impactos em cadeia sobre a produção de alimentos, geração de energia, logística e qualidade de vida da população.

Segundo a análise, há 97% de probabilidade de o fenômeno permanecer até o início de 2027 e 81% de atingir a intensidade muito forte. 

Há perdas na produção de arroz e trigo no Sul por excesso de chuva, pressão sobre soja, milho e café no Centro-Oeste e Nordeste por estiagem, aumento no acionamento de termelétricas, alta nos preços de alimentos e agravamento das queimadas na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal.

Na saúde, o risco é para o aumento de casos de dengue, chikungunya e zika e de leptospirose em áreas de enchente.

A mensagem da OMM é que o El Niño não cria sozinho os eventos extremos, mas tende a atuar como um amplificador de um sistema climático já alterado pelas emissões de gases de efeito estufa.

Por isso, o período entre agora e o pico do fenômeno representa uma janela para que governos, empresas e comunidades reforcem medidas de preparação e adaptação dos territórios. 

Acompanhe tudo sobre:ESGSustentabilidadeClimaMudanças climáticasEl Niño

Mais de ESG

Competitividade, produtividade e clima: a agenda que ganhou força

EXCLUSIVO: São Paulo sediará encontro global de cidades inteligentes

'Não adianta nos chamar de guardiões e nos deixar de fora das decisões', diz Sônia Guajajara

Camil reutiliza casca de arroz como biomassa e gera 335,7 MWh de energia limpa