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João Capobianco, ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima: "Preparar os municípios para frente à crise climática também significa preparar uma nova carteira de investimentos em resiliência" (Divulgação )
Repórter de ESG
Publicado em 3 de agosto de 2026 às 17h00.
Última atualização em 3 de agosto de 2026 às 17h55.
Depois da COP30, o Brasil deixou de ser apenas anfitrião de uma negociação climática e "passou a ser avaliado pela capacidade de executar o que defende".
A declaração de João Capobianco na abertura da São Paulo Climate Week, em evento no AYA Earth Partners, resume o espírito da edição deste ano do evento, que se propõe a discutir como transformar os compromissos assumidos em Belém em projetos, investimentos e políticas concretas rumo à COP31.
Nesta segunda-feira, 3, quando o tema da programação é finanças, é justamente no capital financeiro que o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima expôs o ponto mais frágil da transição ecológica brasileira: a falta de uma carteira voltada à resiliência climática.
"Existem recursos públicos e privados para investir na adaptação, mas a agenda ainda não entrou no radar do setor econômico", afirmou Capobianco.
Como maior desafio atual, ele destacou que o financiamento climático brasileiro deixou de ser apenas uma questão de quanto capital mobilizar, mas também de onde alocar: "é sobre como construímos as condições para que esse recurso encontre boas oportunidades e produza a transformação econômica, social e ambiental".
Para setores como energia limpa e florestas, a lógica avança, conforme mostram os números bilionários do Ecoinvest e do BNDES Florestas. Para a adaptação, no entanto, falta o que ele chama de projetos "bancáveis": estruturados o suficiente para atrair o capital já disponível.
Segundo o ministro, execução é sinônimo de investimentos saindo do papel e chegando à economia real, sejam voltados à indústria de baixo carbono, restauração florestal, infraestrutura resiliente ou inovação tecnológica.
Para isso acontecer, o MMA aposta em uma estratégia apoiada em três movimentos que precisam avançar simultaneamente: ampliar o financiamento público, mobilizar o investimento privado e criar um ambiente regulatório capaz de orientar a economia para um desenvolvimento de baixo carbono.
"Nenhum dos dois sozinhos entregará a transformação de que precisamos sem regras claras, previsibilidade e segurança jurídica", afirmou, sobre a combinação entre capital público e privado.
É o que mostram os programas de financiamento apresentados por Capobianco. O Ecoinvest Brasil, que usa capital público para atrair investimento privado, já realizou quatro leilões e destinou R$ 141 bilhões a projetos de energia limpa, recuperação de terras degradadas, indústria verde e bioeconomia.
O Fundo Clima, por sua vez, ilustra a mudança de escala do financiamento climático no Brasil: saiu de R$ 90 milhões em 2020 para uma previsão de R$ 27,5 bilhões em 2026. Sua carteira ativa fechou o ano passado em R$ 8,85 bilhões, um crescimento de 216% em apenas 12 meses.
Já o BNDES Florestas, voltado à conservação e restauração de florestas nativas, consolidou uma carteira de R$ 14,1 bilhões.
Segundo Capobianco, cada R$ 1 de crédito mobilizado pelo banco atrai R$ 1,52 do setor privado, em um efeito multiplicador que o ministro tratou como prova de que "recursos dessa magnitude não são mobilizados se os investidores não enxergarem oportunidades concretas, perspectivas de retorno e confiança na capacidade brasileira de realizar esses investimentos."
É nesse contexto de capital em expansão para a transição ecológica que a adaptação precisa avançar.
"É uma dimensão da agenda climática que ainda precisa conquistar muito mais espaço no sistema financeiro", destacou o ministro, ao lembrar que a conta da emergência do clima chegou: em forma de enchentes, secas, ondas de calor e na pressão sobre a infraestrutura das cidades.
A ideia ganha ainda mais urgência ao se olhar para o cenário dramático da região Sul: o Rio Grande do Sul voltou a registrar risco de novas enchentes, com rios passando da cota de inundação após chuvas fortes.
E a tendência é o quadro se agravar: segundo atualização da Organização Meteorológica Mundial (OMM) divulgada em 31 de julho, o El Niño deve se intensificar a partir de agosto e se tornar forte entre agosto e outubro, elevando o risco de eventos extremos.
Para Capobianco, o caminho passa por tratar a adaptação como ativo financeiro, não como gasto público. Na prática, isso significa preparar municípios para estruturar projetos "bancáveis", o que, segundo ele, é o verdadeiro gargalo atual.
É esse raciocínio que sustenta o programa Adapta Cidades, que já conta com 600 planos em elaboração e com a expectativa de alcançar 57 milhões de brasileiros até 2027.
"Preparar os municípios para planejar como irão se adaptar também significa preparar uma nova carteira de investimentos em resiliência", resumiu Capobianco.
Questionado sobre a preparação frente a eventos climáticos extremos e sobre o papel do setor privado nesses projetos, o ministro confirmou que o governo já destina cerca de R$ 30 bilhões a obras de segurança hídrica para reduzir os impactos de secas e enchentes como no caso de barragens, canais de irrigação e sistemas de drenagem no semiárido.
No entanto, ele destacou que enquanto o setor econômico não abraçar a adaptação, esta seguirá restrita a poucas obras de grande porte como estradas e hidrelétricas, mesmo havendo recursos públicos disponíveis para viabilizá-la em outras frentes. "As empresas devem fazer a diferença", concluiu.