Economia circular transforma estoques remanescentes em ativo financeiro no varejo de moda (Vera Prokhorova/Shutterstock)
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Publicado em 23 de julho de 2026 às 10h00.
Por Leonardo Mencarini*
Durante muito tempo, a economia circular foi tratada como uma agenda ligada quase exclusivamente à sustentabilidade.
No setor da moda, porém, esse conceito passou por uma transformação importante: deixou de ser apenas uma resposta às demandas ambientais para se tornar uma estratégia de negócios capaz de aumentar a eficiência operacional, recuperar capital e criar novas fontes de receita.
A mudança acontece em um momento em que varejistas enfrentam margens mais apertadas, custos elevados e consumidores cada vez mais atentos ao impacto de suas escolhas.
Nesse cenário, produtos que antes eram vistos apenas como passivos — estoques parados, devoluções ou peças fora da coleção — passaram a representar ativos que podem voltar ao mercado e gerar valor.
A lógica é simples: toda mercadoria encalhada representa dinheiro imobilizado. Quanto maior o tempo de permanência no estoque, maior o custo financeiro, logístico e operacional.
Em vez de recorrer apenas a liquidações que comprometem margens e podem afetar o posicionamento da marca, muitas empresas passaram a adotar modelos de revenda, recompra e redistribuição para recuperar parte desse investimento.
Esse movimento acompanha uma mudança no comportamento do consumidor. A busca por alternativas mais sustentáveis vem acompanhada de uma visão mais racional sobre consumo.
Produtos seminovos, recondicionados ou provenientes de estoques remanescentes ganharam espaço porque unem preço competitivo, qualidade e menor impacto ambiental. O conceito de valor deixou de estar associado apenas ao novo e passou a considerar durabilidade, procedência e custo-benefício.
Para as empresas, os ganhos vão além da geração de receita adicional. A circularidade melhora indicadores de gestão de estoque, reduz desperdícios, diminui perdas financeiras e aumenta a eficiência da cadeia produtiva.
Em um setor marcado pela sazonalidade e pela rápida renovação das coleções, transformar excedentes em faturamento tornou-se uma vantagem competitiva.
Outro efeito relevante está no relacionamento com o consumidor. Programas de recompra e devolução de produtos criam novos pontos de contato entre marcas e clientes, ampliando oportunidades de fidelização e recorrência.
Em vez de uma relação encerrada na venda, a empresa passa a acompanhar todo o ciclo de vida do produto, fortalecendo o vínculo com o público.
A tecnologia é uma das principais viabilizadoras dessa transformação.
Ferramentas de inteligência artificial, análise de dados e rastreabilidade permitem identificar quais produtos possuem maior potencial de revenda, definir estratégias de precificação, organizar estoques e conectar oferta e demanda de forma muito mais eficiente.
Com isso, operações que antes eram complexas e pouco escaláveis tornam-se processos estruturados e rentáveis.
Além dos ganhos operacionais, a economia circular também dialoga com um tema cada vez mais presente nas decisões corporativas: a geração de valor no longo prazo.
Investidores passaram a olhar com maior atenção para empresas capazes de transformar práticas sustentáveis em resultados financeiros concretos.
Mais do que atender critérios de ESG, o mercado busca organizações resilientes, eficientes e preparadas para responder às novas dinâmicas de consumo.
A moda vive, portanto, uma mudança estrutural. O crescimento do setor não dependerá apenas da produção de novas coleções, mas também da capacidade de prolongar o ciclo econômico dos produtos já existentes.
Em vez de tratar excedentes como perdas inevitáveis, empresas que adotam estratégias circulares conseguem reduzir custos, aumentar a rentabilidade e fortalecer sua competitividade.
No fim, a economia circular deixa de ser apenas uma agenda ambiental para se consolidar como um modelo de gestão.
Em um mercado pressionado por eficiência e inovação, transformar desperdício em receita pode ser um dos diferenciais mais relevantes para o futuro do varejo de moda.
*Leonardo Mencarini, CEO e cofundador do Mercado Único, plataforma B2B que conecta marcas de vestuário a lojistas interessados em adquirir produtos originais, criando novos caminhos para o escoamento de estoques remanescentes.