GLP-1: pesquisa aponta benefícios vasculares além do controle da glicemia (Freepik)
Redatora
Publicado em 4 de julho de 2026 às 09h51.
Medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida e a tirzepatida, foram associados a um menor risco de morte, amputações, hospitalizações e revascularizações em pessoas com diabetes tipo 2 e doença arterial periférica (DAP), segundo um novo estudo. A pesquisa acompanhou pacientes por cinco anos e reforça a hipótese de que os benefícios da classe podem ir além do controle da glicemia e da perda de peso.
Os resultados do estudo foram publicados no Journal of the American Heart Association na última quarta-feira, 1º. Os autores ressaltam que a pesquisa é observacional e demonstra apenas uma associação entre o uso dos medicamentos e os desfechos clínicos, sem comprovar uma relação de causa e efeito.
Os pesquisadores analisaram dados da plataforma de prontuários eletrônicos TriNetX, reunidos entre 2010 e 2025. Na análise principal, foram comparados 2.133 pacientes tratados com agonistas do receptor de GLP-1 e outros 2.133 que receberam metformina, medicamento amplamente utilizado no tratamento do diabetes tipo 2.
O objetivo foi avaliar se havia diferenças na ocorrência de complicações vasculares, amputações e mortalidade após cinco anos de acompanhamento.
Na população com diabetes tipo 2 e doença arterial periférica, os pacientes tratados com medicamentos da classe GLP-1 apresentaram melhores resultados em diversos desfechos clínicos.
Em comparação com o grupo tratado com metformina, eles registraram:
Diante dos resultados, os pesquisadores reforçam evidências de que os agonistas do receptor de GLP-1 podem oferecer benefícios vasculares e contribuir para reduzir complicações relacionadas aos membros inferiores.
A equipe também avaliou pacientes com isquemia crônica ameaçadora do membro (CLTI), considerada a forma mais grave da doença arterial periférica.
Nesse grupo, o uso dos medicamentos da classe GLP-1 também esteve associado a menores taxas de mortalidade, hospitalizações, revascularizações e amputações.
Entretanto, foi observada uma frequência discretamente maior de eventos renais adversos entre os usuários de GLP-1, resultado que, segundo os autores, deverá ser investigado em pesquisas futuras.
Apesar dos benefícios observados, não houve diferenças estatisticamente significativas entre os grupos para infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC), eventos cardiovasculares maiores e eventos renais maiores na população geral.
Segundo a autora Akiva Rosenzveig, a menor mortalidade pode estar relacionada ao conjunto de benefícios observados, como menos amputações, hospitalizações e procedimentos de revascularização, mesmo sem redução nas taxas de infarto e AVC.
Os pesquisadores apontam que diferentes mecanismos podem explicar os resultados observados.
Além de melhorar o controle da glicemia e favorecer a perda de peso, estudos anteriores indicam que os agonistas do receptor de GLP-1 podem melhorar a função do endotélio, reduzir o estresse oxidativo e a inflamação vascular, favorecer a vasodilatação, retardar a progressão da aterosclerose e aumentar a perfusão dos tecidos.
Segundo os autores, esses efeitos podem contribuir para preservar a circulação dos membros inferiores e reduzir complicações associadas à doença arterial periférica.
Os pesquisadores também realizaram análises de acordo com o índice de massa corporal (IMC). Entre pacientes com obesidade, o uso de medicamentos da classe GLP-1 esteve associado a menor risco de hospitalização e de amputações menores.
Já entre os participantes sem obesidade, foi observada apenas uma tendência de redução nas hospitalizações, sem diferenças estatisticamente significativas para os demais desfechos avaliados.
Outra análise, envolvendo pacientes com claudicação — manifestação mais comum da doença arterial periférica —, também encontrou associação entre o uso dos agonistas do receptor de GLP-1, menor mortalidade, menos hospitalizações e menor risco de amputações maiores.
Segundo os autores, os resultados complementam os achados do estudo STRIDE, primeiro ensaio clínico randomizado voltado especificamente para pacientes com diabetes tipo 2 e doença arterial periférica tratados com semaglutida.
Naquele estudo, já haviam sido observadas melhorias na capacidade de caminhada, na função física e na qualidade de vida. A nova pesquisa amplia esse conhecimento ao analisar desfechos clínicos mais graves, como amputações, revascularizações e mortalidade, em uma população maior acompanhada durante cinco anos.
Embora o estudo tenha avaliado a classe dos agonistas do receptor de GLP-1 como um todo, a semaglutida concentra atualmente as evidências mais robustas para pacientes com doença arterial periférica. Ainda não é possível afirmar se diferentes medicamentos da classe apresentam efeitos distintos sobre esses desfechos.
Apesar disso, os autores destacam que a pesquisa apresenta limitações típicas de estudos retrospectivos baseados em registros eletrônicos de saúde.
Não foi possível confirmar, por exemplo, se os pacientes utilizaram corretamente os medicamentos prescritos, avaliar diferenças de dose ou acompanhar mudanças no tratamento ao longo dos cinco anos. Além disso, diferentes agonistas do receptor de GLP-1 foram analisados em conjunto, e alguns subgrupos tiveram número reduzido de eventos.
Por isso, os pesquisadores ressaltam que os resultados mostram apenas uma associação entre o uso dos medicamentos e a redução de complicações, sem comprovar que os agonistas do receptor de GLP-1 tenham sido responsáveis diretamente pelos benefícios observados.
Segundo a equipe, ensaios clínicos prospectivos e randomizados serão necessários para confirmar se esses medicamentos realmente reduzem o risco de amputações, hospitalizações e morte em pessoas com diabetes tipo 2 e doença arterial periférica.