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Obesidade consome 2% do PIB brasileiro por ano, mostra estudo

A obesidade custa mais de R$ 40 bilhões por ano das finanças públicas brasileiras. Entenda o que é a doença, por que ela é perigosa e como penaliza especialmente as mulheres no mercado de trabalho.

Obesidade sobrecarrega cofres públicos e prejudica mais mulheres do que homens (Getty Images/Getty Images)

Obesidade sobrecarrega cofres públicos e prejudica mais mulheres do que homens (Getty Images/Getty Images)

Diandra Guedes
Diandra Guedes

Colaboradora

Publicado em 26 de junho de 2026 às 14h07.

A obesidade é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal.

O diagnóstico pode ser feito usando o Índice de Massa Corporal (IMC) — quem tem IMC igual ou superior a 30 kg/m² é considerado obeso —, mas, por ser um problema multifatorial, deve ser analisado com cuidado por médicos e especialistas.

No Brasil, segundo a Pesquisa Vigitel 2025, do Ministério da Saúde, o número de adultos com obesidade cresceu 118% entre 2006 e 2024, passando de 11,8% para 25,7% da população.

O excesso de peso, considerando também o sobrepeso, já atinge 62,6% dos adultos brasileiros. E essa epidemia traz consequências para os cofres públicos.

Uma análise conduzida pelo Instituto Cordial, realizador do Painel Brasileiro da Obesidade e financiada pela farmacêutica Novo Nordisk, estima que a prevalência do sobrepeso e da obesidade custa entre R$ 41,7 bilhões e R$ 44,6 bilhões por ano ao Brasil.

O valor equivale a 2% do PIB nacional. Sem uma resposta estruturada, esse custo pode ultrapassar R$ 60,5 bilhões até 2033.

Como o estudo foi feito?

Para chegar a esses números, os pesquisadores adaptaram ao contexto brasileiro um modelo fiscal internacional desenvolvido pela consultoria GMAS (Global Market Access Solutions).

A análise cruzou microdados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 com variáveis de gênero, idade e mortalidade, medindo o impacto da obesidade em três frentes:

  • custos no sistema de saúde;
  • reflexos no mercado de trabalho;
  • impacto fiscal nas contas do governo.

Para chegar aos valores finais, os pesquisadores aplicaram modelos de regressão estatística que compararam os indicadores reais de 2024 com um cenário hipotético de "prevalência zero" da doença.

O maior bloco dos custos está nos gastos de saúde associados à obesidade e às suas comorbidades: R$ 29,56 bilhões por ano.

Em seguida, vem a perda de arrecadação tributária, estimada em R$ 9,94 bilhões, sendo R$ 7,35 bilhões em impostos diretos e R$ 2,59 bilhões em indiretos.

Gastos com invalidez somam R$ 6,05 bilhões anuais, considerando que mais de 240 mil aposentadorias no Brasil estão associadas à condição.

Vale ressaltar que o estudo foi financiado pela Novo Nordisk, fabricante dos medicamentos Ozempic e Wegovy — o que não invalida os dados, mas é uma informação relevante para avaliar o contexto da pesquisa.

O impacto no SUS 

Apenas dentro do sistema público de saúde, os custos diretos da obesidade, principalmente como internações e medicamentos, já ultrapassam R$ 1,89 bilhão por ano:

  • R$ 911,6 milhões com hospitalizações;
  • R$ 983,8 milhões com medicamentos.

Mas esse número cresce quando são contabilizadas as doenças associadas à obesidade, como hipertensão, diabetes e dislipidemias. Nesse cenário ampliado, o custo chega a R$ 29,56 bilhões anuais.

Outro dado relevante: pesquisas avaliadas pelo Instituto apontam que o Brasil gastou US$ 654 milhões (cerca de R$ 3,4 bilhões) com doenças crônicas associadas ao excesso de peso apenas em 2022, com destaque para doenças cardiovasculares, respiratórias e neoplasias.

Cada ponto a mais no IMC médio da população representa um custo extra de R$ 387,3 milhões por ano ao sistema público de saúde.

Cada 1% de redução na prevalência da obesidade, por outro lado, pode gerar uma economia de R$ 444,6 milhões por ano aos cofres públicos.

Por que a obesidade é perigosa?

Apesar do que muitos pensam, a obesidade não é apenas uma questão estética e, sim, uma doença que abre caminho para uma série de condições graves.

O Ministério da Saúde reconhece que, das seis doenças que mais matam no Brasil, quatro estão diretamente relacionadas ao excesso de peso: AVC, infarto do miocárdio, diabetes e hipertensão.

Entre as principais comorbidades associadas à doença estão:

  • doenças cardiovasculares;
  • diabetes tipo 2;
  • hipertensão arterial;
  • alguns tipos de câncer (mama, útero, próstata, intestino);
  • apneia do sono, doenças renais;
  • problemas ortopédicos;
  • dislipidemia (colesterol e triglicerídeos alterados).

No mesmo período em que a obesidade cresceu 118%, o Brasil também registrou aumento de 135% nos casos de diabetes, 47% no excesso de peso e 31% na hipertensão.

A doença também tem impacto direto na capacidade de trabalho.

A pesquisa do Instituto Cordial aponta que mais de 240 mil aposentadorias no Brasil estão vinculadas ao excesso de peso, o que gera gastos de R$ 6,05 bilhões por ano com invalidez.

Apesar da gravidade, o SUS ainda não oferece medicamentos específicos para obesidade.

O tratamento na rede pública está restrito a mudanças de estilo de vida (dieta e exercício) e, em casos mais graves, à cirurgia bariátrica.

Em agosto de 2025, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) rejeitou a inclusão da semaglutida — princípio ativo do Ozempic e do Wegovy — por custo estimado de até R$ 8 bilhões em cinco anos.

Mulheres são mais penalizadas

A obesidade não afeta homens e mulheres da mesma forma, especialmente no mercado de trabalho.

Segundo a análise do Instituto Cordial, mulheres com obesidade têm maior dificuldade de acesso ao emprego e recebem salários entre 4% e 9% menores do que mulheres sem a condição.

Em casos mais extremos, essa diferença pode chegar a 15%.

A análise dos microdados da PNS de 2019 mostrou que a participação de mulheres na força de trabalho cai progressivamente conforme o IMC aumenta.

Esse padrão não se repete entre os homens com a mesma intensidade.

Para os homens, parte dos modelos analisados mostra que a obesidade não apresenta efeito estatisticamente significativo sobre salários.

O estudo destaca que esses impactos geram desigualdades estruturais no acesso à renda e à previdência social, contribuindo para o aumento de transferências públicas e aposentadorias precoces.

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