Flávio e Lula: debate foi marcado por debate de propostas
Publicado em 23 de outubro de 2026 às 22h49.
Última atualização em 24 de outubro de 2026 às 00h43.
O último debate das eleições de 2026, realizado pela TV Globo na noite desta sexta-feira, 23, a dois dias do segundo turno, foi marcado pela discussão de propostas e pela disputa sobre a autoria de medidas já em vigor. Diferentemente do primeiro confronto, realizado no domingo, 18, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) evitaram trocar acusações sobre casos de corrupção.
O formato do debate favoreceu a discussão de propostas. Os candidatos tiveram que fazer perguntas relacionadas às cinco regiões do país, abordando temas como infraestrutura, salário mínimo, transporte público e desenvolvimento regional. Nos blocos seguintes, as perguntas eram temáticas.
Na primeira troca, dedicada à infraestrutura e às exportações, Flávio Bolsonaro criticou os investimentos do governo federal, afirmou que mais de 11 mil obras estão paralisadas e prometeu "rasgar" o Brasil de ferrovias caso seja eleito.
Lula, por sua vez, defendeu os investimentos de sua gestão em portos, rodovias, ferrovias e hidrovias e afirmou que pretende concluir obras já iniciadas, como a Transnordestina. Segundo dados da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), os últimos anos registraram recordes de investimentos no setor. A previsão é que os aportes cheguem a R$ 300 bilhões em 2026.
O salário mínimo foi outro ponto de divergência. Ao abordar a região Sudeste, Lula afirmou que o piso nacional seria de R$ 900 em São Paulo se não fossem os reajustes concedidos durante os governos do PT. O presidente também criticou as gestões de Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL), afirmando que ambas deixaram de conceder aumentos reais ao salário mínimo.
Durante o governo Bolsonaro, a política de reajuste não previa ganhos acima da inflação. Pela regra atual, o salário mínimo é corrigido pela inflação acrescida do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes, o que permite aumentos reais quando há crescimento econômico.
Em resposta, Flávio Bolsonaro retomou o discurso de campanha de que o poder de compra dos brasileiros diminuiu e questionou quando havia sido a última vez que Lula tinha ido ao supermercado.
Os candidatos também discutiram a possibilidade de oferecer transporte público gratuito aos fins de semana. Questionado por Lula sobre a proposta, Flávio afirmou ser favorável à gratuidade nos ônibus, mas relacionou a medida ao aumento de impostos, aos gastos públicos e à inflação.
O senador disse que o trabalhador "merece sim ter um transporte gratuito", mas criticou o que considera uma contradição na política econômica do governo.
"Você dá com uma mão e tira com a outra", afirmou Flávio.
A discussão sobre a região Norte elevou o tom do confronto. Lula acusou o adversário de desconhecer a realidade do país e fez referência à atuação do ex-presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia de covid-19, especialmente à crise de falta de oxigênio no Amazonas.
"A única imagem que ele tem do Amazonas é essa: o pai dele rindo de quem não tinha oxigênio", disse Lula.
O presidente também sugeriu que o senador estudasse mais sobre a região amazônica.
"Quando você não souber, pesquise no Google. Você não conhece o Brasil. É importante você estudar um pouco e ser mordido por um carapanã", afirmou, em referência ao mosquito comum na região.
No debate sobre o Nordeste, Lula destacou a instalação da montadora chinesa BYD em Camaçari, na Bahia, no antigo complexo industrial da Ford, que deixou o Brasil em 2021, durante o governo Bolsonaro. Sem citar o nome da empresa chinesa, o presidente questionou quais medidas a gestão anterior havia adotado para desenvolver a região.
Flávio respondeu, destacando as obras da transposição do Rio São Francisco, e afirmou que o governo de seu pai havia concluído o projeto, citando o ramal do Agreste. A transposição, no entanto, não foi integralmente concluída na gestão anterior. Os ramais do Apodi e do Salgado ainda tinham obras em andamento em 2025.
Além das discussões entre os candidatos, o debate contou com a presença de aliados políticos e integrantes das duas campanhas. Lula levou ao estúdio o ministro Sidônio Palmeira, o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e o senador Camilo Santana (PT-CE). Flávio Bolsonaro esteve acompanhado de Daniella Marques, do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e do marqueteiro Duda Lima.
Entre os convidados da campanha de Lula estava Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, menina morta por um disparo de fuzil que, segundo a suspeita mencionada no caso, teria partido de um policial militar de quem Flávio Bolsonaro atua como advogado. Cristiane acompanhou o debate na primeira fileira da plateia, ao lado da primeira-dama Janja e do vice-presidente Geraldo Alckmin.
No segundo bloco, dedicado a perguntas temáticas, Lula e Flávio Bolsonaro debateram Bolsa Família, SUS e autonomia do Banco Central. Os candidatos também divergiram sobre propostas para reduzir o endividamento das famílias e protagonizaram um dos momentos de maior tensão do encontro, após o presidente criticar o senador por chamá-lo de "nove dedos".
Ao falar sobre programas sociais, Flávio prometeu reajustar o Bolsa Família e permitir que beneficiários continuem recebendo o auxílio por um período após conseguirem emprego com carteira assinada ou abrirem uma empresa. Segundo o senador, a medida daria maior estabilidade financeira às famílias durante a transição para o mercado de trabalho. A possibilidade de manutenção temporária do benefício, no entanto, já existe nas regras atuais do programa.
Lula também questionou Flávio sobre uma declaração atribuída ao senador, na qual teria chamado o Bolsa Família de "bolsa farelo". Na sequência, criticou o adversário pelo uso da expressão "nove dedos". "Eu não vou permitir que um miliciano fale isso sobre mim", afirmou o presidente, que também disse que o primeiro emprego de Flávio foi no gabinete do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Após ser questionado por Lula, Flávio pediu desculpas por ter usado a expressão "nove dedos" para se referir ao presidente.
Os candidatos também disputaram a autoria de propostas para reduzir o endividamento das famílias. Flávio defendeu a compra de dívidas de brasileiros inadimplentes, enquanto Lula afirmou que a iniciativa reproduz uma medida já encaminhada por seu governo ao Senado.
"Quando ele fala que vai comprar a dívida, está copiando uma coisa que já mandei ao Senado. Não adianta ficar falando que vai fazer. Nós já fizemos", afirmou o presidente.
Lula associou a proposta ao Desenrola 3, que prevê a aquisição, pelo Tesouro Nacional, de dívidas de até R$ 10 mil. Pelo modelo mencionado, a compra das carteiras de crédito de bancos e empresas credoras ocorreria por meio de leilões, com desconto mínimo de 90% sobre os valores devidos.
Na discussão sobre política econômica, Flávio defendeu a autonomia do Banco Central e afirmou que a medida impede interferências políticas na definição dos juros. O senador também comparou os riscos de uma eventual interferência à situação econômica da Argentina durante os governos de Cristina Kirchner e a atuação de Guillermo Moreno, ex-secretário de Comércio Interior do país.
"Você ia transformar o Brasil no que a Cristina Kirchner e Moreno transformaram lá na Argentina. E ia explodir a taxa de juros, ia explodir a inflação", disse Flávio, que atribuiu a independência do Banco Central ao governo de Jair Bolsonaro.
Na área da saúde, Lula questionou Flávio sobre uma declaração de seu indicado a respeito dos investimentos no Sistema Único de Saúde (SUS). Em resposta, o senador prometeu atualizar a tabela SUS, utilizada como referência para o pagamento de procedimentos médicos na rede pública.
Considerada defasada há mais de uma década por especialistas, a tabela passou a ter previsão de revisão periódica anual por uma lei sancionada por Lula em janeiro de 2024. Em dezembro do mesmo ano, o Ministério da Saúde atualizou os valores de procedimentos de atenção especializada e anunciou reajuste de 3,5% nos repasses a entidades filantrópicas.
No terceiro bloco, os candidatos discutiram endividamento, apostas online, educação e segurança pública, em uma das etapas mais tensas do debate. O confronto foi marcado por críticas à política econômica e por uma troca de acusações sobre a regulamentação das apostas e a atuação dos governos na segurança pública.
Na discussão sobre endividamento, o senador Flávio Bolsonaro acusou o governo petista de "enrolar" os brasileiros com os programas de renegociação de dívidas e prometeu utilizar a Caixa Econômica Federal para comprar débitos da população. O candidato atribuiu o endividamento das famílias aos juros elevados e criticou os gastos do governo, que, segundo ele, teriam como objetivo favorecer a reeleição de Lula.
Flávio também ironizou a promessa de picanha feita pelo presidente na campanha de 2022 e afirmou que a situação financeira das famílias chegou ao ponto de os brasileiros precisarem parcelar até mesmo a compra de uma pizza.
"Você está prometendo um monte de coisa que você não vai entregar, como você prometeu a picanha e não entregou a picanha. Você prometeu devolver o poder de compra para o brasileiro e não entregou, está entregando dívida", afirmou. "Vou ajudar o brasileiro a sair dessa dívida."
Em resposta, Lula voltou a afirmar que a proposta do adversário é semelhante a uma iniciativa já defendida pelo governo federal. O presidente disse que pretende realizar um leilão de dívidas que poderá movimentar até R$ 150 bilhões, com o objetivo de ajudar brasileiros a regularizar sua situação financeira e retirar seus nomes dos cadastros de inadimplentes.
"Nós vamos fazer um leilão que pode chegar a R$ 150 bilhões. E poderemos tirar as pessoas do Serasa, para que possam trabalhar e ganhar dinheiro", disse Lula.
O presidente também defendeu o incentivo ao empreendedorismo e afirmou que o governo reconhece as mudanças nas relações de trabalho. "Nós queremos que o empreendedorismo vença neste país. Entendemos que o mundo do trabalho mudou", declarou.
A discussão avançou para as apostas online quando Flávio acusou Lula de ser o "pai do tigrinho", em referência à regulamentação das apostas esportivas e dos cassinos online no Brasil.
Lula rebateu a crítica e afirmou que o chamado jogo do tigrinho chegou ao país durante o governo de Jair Bolsonaro. "Não só o seu pai é o pai do tigrinho, como você é o irmão", disse o presidente ao senador.
As apostas esportivas de quota fixa foram autorizadas no governo Michel Temer, mas não chegaram a ser regulamentadas durante a gestão de Jair Bolsonaro.
Na área da educação, Lula questionou Flávio sobre seus planos para o setor e afirmou que o senador não apresentou propostas concretas. O presidente também acusou o governo de Jair Bolsonaro de ter desmontado o Ministério da Educação. Em resposta, Flávio criticou a gestão petista por, segundo ele, reduzir os investimentos em escolas de tempo integral e voltou a defender suas propostas para a área.
O momento de maior tensão ocorreu na discussão sobre segurança pública. Lula questionou Flávio por sua atuação na defesa de um policial acusado de envolvimento na morte de Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, atingida por um tiro de fuzil durante uma operação policial em Niterói, no Rio de Janeiro, em 2021.
"Aqui hoje está a mãe de uma menina chamada Ana Clara. Certamente, ela está vendo a sua fisionomia falando sobre segurança pública e quer saber: o que leva um senador a defender um policial que deu um tiro em uma menina de 5 anos?", questionou Lula.
Ao responder, Flávio se confundiu e chamou Cristiane Gomes da Silva, mãe da criança, pelo nome da filha.
"Ana Clara, eu quero falar para a senhora, deixar de verdade a minha solidariedade para a senhora. É uma tragédia o que aconteceu, eu não consigo imaginar o que é perder uma filha de 5 anos de idade", afirmou o senador.
Na sequência, Flávio associou a violência ao tráfico de drogas e acusou o governo Lula de não combater adequadamente as organizações criminosas.
Ana Clara morreu em 2 de fevereiro de 2021, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói (RJ). A menina brincava perto de casa com o irmão, então com 2 anos, quando foi atingida por disparos de fuzil durante uma operação policial. Ela chegou a ser socorrida, mas não resistiu aos ferimentos.
Em 2024, Flávio Bolsonaro integrou a equipe de defesa do policial acusado e assinou um recurso apresentado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar reverter a decisão que determinou o julgamento pelo Tribunal do Júri. O pedido foi negado, e o julgamento ainda não havia sido realizado.
Ainda sobre segurança pública, Lula afirmou que pretende criar um ministério específico para a área após a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. Segundo o presidente, a nova estrutura seria responsável por enfrentar a atuação de organizações criminosas nos territórios.
"Aprovada a PEC da Segurança, eu vou criar um ministério para resolver essa questão dos territórios. Ele fala, fala que vai fazer, mas isso é só bravata de quem não vai fazer nada", disse Lula.
O presidente também criticou o posicionamento de Flávio em relação aos Estados Unidos e defendeu a atuação brasileira na segurança do território nacional.
"Ele quer entregar para o Trump, eu quero cuidar do nosso território", afirmou.
O quarto bloco do debate presidencial na TV Globo foi marcado por uma troca de acusações entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Após discutirem propostas, os dois candidatos elevaram o tom e passaram a abordar questões envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master.
Durante o confronto, Flávio Bolsonaro afirmou que Lula foi condenado por ocultação de patrimônio. A declaração provocou uma reação do presidente, que rebateu o adversário e o acusou de mentir.
A discussão sobre o Banco Master ampliou o embate entre os candidatos, que deixaram de lado a apresentação de propostas para trocar acusações pessoais e questionar as declarações um do outro.
O episódio marcou uma mudança no tom do quarto bloco, com a disputa passando das propostas de governo para um confronto direto entre Lula e Flávio Bolsonaro.