Ciência

Procedimento inspirado na bariátrica pode transformar tratamento do diabetes tipo 2

Resultados reforçam o papel da cirurgia metabólica como alternativa para pessoas com diabetes tipo 2 e obesidade

Cirurgia Metabólica: procedimento modifica o funcionamento do sistema digestivo e melhora o controle da glicose mesmo antes da perda de peso (Morsa Images/Getty Images)

Cirurgia Metabólica: procedimento modifica o funcionamento do sistema digestivo e melhora o controle da glicose mesmo antes da perda de peso (Morsa Images/Getty Images)

Publicado em 30 de junho de 2026 às 15h52.

Durante décadas, a cirurgia bariátrica ficou conhecida como um tratamento voltado à perda de peso. Hoje, porém, cresce o reconhecimento de que o procedimento também exerce um poderoso efeito sobre o metabolismo. A chamada cirurgia metabólica, considerada uma "irmã" da bariátrica por utilizar técnicas semelhantes, vem demonstrando resultados expressivos no controle do diabetes tipo 2, com taxas de remissão que podem chegar a 89% em pacientes cuidadosamente selecionados.

As evidências mais recentes mostram que os benefícios vão muito além da redução dos quilos na balança. Alterações hormonais provocadas pela cirurgia melhoram rapidamente a produção e a ação da insulina, permitindo que muitos pacientes reduzam ou até suspendam o uso de medicamentos para controlar a glicemia. Em alguns casos, essa melhora acontece poucos dias após o procedimento, antes mesmo de ocorrer uma perda significativa de peso.

O que é a cirurgia metabólica?

Embora utilize técnicas semelhantes às da cirurgia bariátrica, como o bypass gástrico, a cirurgia metabólica tem um objetivo diferente. Seu foco principal é tratar o diabetes tipo 2 em pessoas que apresentam obesidade ou excesso de peso associado à dificuldade de controlar a doença apenas com medicamentos e mudanças no estilo de vida.

O procedimento modifica o caminho percorrido pelos alimentos no sistema digestivo, desencadeando alterações hormonais importantes. Entre elas está o aumento da produção do hormônio GLP-1, responsável por estimular a liberação de insulina, reduzir o apetite e melhorar o controle da glicose no sangue. Essas mudanças ajudam a diminuir a resistência à insulina, um dos principais mecanismos envolvidos no diabetes tipo 2.

A cirurgia metabólica é realizada com anestesia geral e, atualmente, a maioria dos procedimentos é feita por via robótica, utilizando pequenas incisões de aproximadamente 8 milímetros no abdômen. A operação costuma durar entre uma hora e uma hora e vinte minutos.

Atualmente, o Conselho Federal de Medicina (CFM) reconhece quatro técnicas cirúrgicas para esse tipo de tratamento. Em maio de 2025, a entidade atualizou as regras por meio da Resolução CFM nº 2.429/25, ampliando as indicações para a cirurgia bariátrica e metabólica. Entre as mudanças estão a inclusão de novas técnicas e a redução do índice de massa corporal (IMC) mínimo exigido para pacientes com diabetes tipo 2 de difícil controle.

A recuperação costuma ser rápida. Em geral, a internação dura apenas uma noite e, no dia seguinte, o paciente já pode caminhar, subir escadas e retomar boa parte das atividades do cotidiano. A principal recomendação é seguir rigorosamente a dieta prescrita para o período pós-operatório.

Nos primeiros 30 dias, a alimentação evolui gradualmente em três etapas. A primeira consiste em uma dieta líquida, composta principalmente por caldos e sopas. Em seguida, o paciente passa para uma fase líquido-pastosa, com alimentos de maior consistência. A última etapa é formada por preparações pastosas, semelhantes a purês mais espessos. Após esse período, a alimentação tende a voltar ao padrão habitual, sempre com orientação da equipe médica.

Estudo aponta remissão em até 89% dos pacientes

Uma pesquisa conduzida pelo Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e publicada na revista científica JAMA Surgery em 2020 comparou pacientes submetidos à cirurgia metabólica com aqueles tratados apenas com terapia clínica intensiva. 

Os pesquisadores observaram que a cirurgia foi significativamente mais eficaz para controlar o diabetes tipo 2 e reduzir complicações associadas à doença. Em grupos específicos de pacientes, as taxas de remissão alcançaram até 89%, resultado muito superior ao obtido apenas com medicamentos e mudanças no estilo de vida.

Segundo os autores, a cirurgia representa uma estratégia capaz de interromper a progressão do diabetes em muitos casos. Eles destacam que o procedimento atua sobre diversos mecanismos metabólicos simultaneamente, e não apenas sobre a perda de peso, ampliando seu potencial terapêutico.

Quem pode fazer o procedimento?

Apesar dos resultados promissores, a cirurgia metabólica não é indicada para qualquer pessoa com diabetes tipo 2. A recomendação depende de uma avaliação detalhada, que considera fatores como índice de massa corporal (IMC), tempo de diagnóstico da doença, produção de insulina pelo organismo, presença de complicações e resposta aos tratamentos convencionais.

Os pesquisadores ressaltam que pacientes com diabetes mais recente costumam apresentar maiores chances de remissão, embora pessoas com doença mais avançada também possam obter benefícios importantes, como redução da necessidade de medicamentos e melhor controle glicêmico.

Cirurgia não representa uma cura definitiva

O estudo enfatiza que remissão não significa cura. Mesmo quando os níveis de glicose retornam à normalidade e o paciente deixa de utilizar medicamentos, ainda é necessário manter acompanhamento médico regular, alimentação equilibrada, atividade física e controle do peso corporal.

O sucesso a longo prazo depende da combinação entre os efeitos da cirurgia e a adoção permanente de hábitos saudáveis. Casos de retorno do diabetes podem ocorrer, principalmente quando há recuperação significativa do peso ou abandono do acompanhamento multidisciplinar.

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