Ciência

Como envelhecer bem? Filósofo japonês explica o que devemos abandonar com a idade

Ichiro Kishimi questiona a relação entre envelhecimento, produtividade e felicidade e apresenta reflexões sobre como lidar com a passagem do tempo

Envelhecimento: filósofo e psicólogo Ichiro Kishimi propõe abandonar a lógica da produtividade e repensar a forma como encaramos a velhice (Freepik)

Envelhecimento: filósofo e psicólogo Ichiro Kishimi propõe abandonar a lógica da produtividade e repensar a forma como encaramos a velhice (Freepik)

Publicado em 20 de outubro de 2026 às 15h38.

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O envelhecimento costuma ser associado à perda de capacidades, às mudanças na rotina e à redução da produtividade. Para o filósofo e psicólogo japonês Ichiro Kishimi, porém, envelhecer bem exige uma mudança na maneira como as pessoas avaliam a própria vida, sobretudo em relação às expectativas sociais e ao valor atribuído às conquistas pessoais.

No livro "A coragem de envelhecer: como a filosofia pode ajudar você a aceitar os efeitos da passagem do tempo", o autor questiona a ideia de que a juventude seja necessariamente a melhor fase da vida. A obra apresenta reflexões sobre a relação entre idade, felicidade, autonomia e reconhecimento pessoal.

Seguidor das ideias de Alfred Adler, psiquiatra e psicólogo austríaco contemporâneo de Sigmund Freud, Kishimi defende que o desenvolvimento individual não deve ser medido apenas pelas realizações profissionais ou pela capacidade de produzir.

O medo de envelhecer

Uma das questões abordadas por Kishimi é a associação entre envelhecimento e perda de valor pessoal. Segundo o filósofo, essa percepção pode estar relacionada à maneira como as pessoas são avaliadas por suas conquistas e pela capacidade de trabalhar.

No livro, ele relata que costuma perguntar aos pacientes se gostariam de voltar aos 18 anos. De acordo com o autor, a maioria responde que não, o que o leva a questionar a ideia de que ser jovem é uma condição necessária para ser feliz.

A reflexão também envolve a comparação com outras pessoas. Para Kishimi, avaliar constantemente quem conquistou mais resultados ou ocupa uma posição superior pode dificultar o reconhecimento da própria trajetória.

Em vez disso, o filósofo propõe que cada indivíduo considere seu desenvolvimento pessoal sem transformar a idade em uma medida de sucesso ou fracasso.

O que devemos abandonar para envelhecer bem?

Um dos principais argumentos apresentados por Kishimi é a necessidade de abandonar a lógica da produtividade como critério para determinar o valor de uma pessoa.

Segundo o autor, essa lógica está presente principalmente no ambiente profissional, onde resultados, desempenho e competitividade são utilizados como parâmetros de avaliação.

O problema, em sua interpretação, surge quando esses critérios passam a determinar também a maneira como alguém avalia a própria existência. Com o envelhecimento, mudanças na saúde, na capacidade física e na rotina podem reduzir a participação em determinadas atividades. Para Kishimi, isso não significa que a pessoa tenha perdido sua importância.

O filósofo também questiona a comparação constante com outras pessoas. Em sua abordagem, o desenvolvimento pessoal deve ser considerado a partir da própria trajetória, e não de uma competição permanente por resultados.

3 conselhos para envelhecer melhor

No livro, Kishimi apresenta três atitudes que considera fundamentais para a maturidade. As orientações fazem parte de sua abordagem filosófica sobre as relações pessoais e a passagem do tempo.

1. Reconhecer o próprio valor

O primeiro conselho é reconhecer o próprio valor independentemente da opinião de outras pessoas. Na perspectiva do autor, a maneira como alguém avalia a si mesmo não deve depender exclusivamente de aprovação externa, conquistas profissionais ou produtividade.

2. Assumir a responsabilidade pelas próprias escolhas

Kishimi também destaca a importância de tomar decisões e assumir a responsabilidade por elas. A proposta envolve desenvolver autonomia e considerar as consequências das próprias escolhas, sem orientar a vida apenas pelas expectativas alheias.

3. Evitar impor expectativas aos outros

O terceiro ponto é reconhecer que cada pessoa possui objetivos e necessidades diferentes. Para o filósofo, assim como ninguém deve viver exclusivamente para satisfazer as expectativas dos outros, também não é adequado exigir que outras pessoas organizem suas vidas em função das nossas.

Essa reflexão se aplica sobretudo às relações familiares, incluindo situações em que o envelhecimento modifica a dinâmica entre pais e filhos.

Como lidar com as mudanças e limitações da idade?

Para Ichiro Kishimi, aceitar o envelhecimento também envolve reconhecer que as capacidades e necessidades mudam com o passar dos anos, sem considerar essas transformações uma perda de valor pessoal.

O filósofo defende que a autonomia deve ser preservada sempre que possível, inclusive quando a pessoa passa a precisar de ajuda para realizar determinadas atividades. Nesse processo, reconhecer as próprias limitações não significa abrir mão da capacidade de tomar decisões.

Outra reflexão apresentada no livro é a importância de concentrar a atenção no presente, em vez de avaliar a vida apenas pelas habilidades ou condições que já não são as mesmas.

Kishimi também questiona a ideia de que a idade torna alguém automaticamente mais sábio. Segundo o autor, a disposição para ouvir, admitir quando não se sabe algo e respeitar diferentes pontos de vista continua sendo importante em qualquer fase da vida.

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