Ciência

Nem a fauna escapou: como a guerra pode ter mudado a rotina de animais em Chernobyl

Pesquisadores registraram alterações na atividade de cervos, corços, raposas e lebres durante a ocupação russa da zona de exclusão em 2022

Chernobyl: câmeras registraram mudanças no comportamento da fauna durante a ocupação russa em 2022 (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Chernobyl: câmeras registraram mudanças no comportamento da fauna durante a ocupação russa em 2022 (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Publicado em 25 de julho de 2026 às 17h26.

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A ocupação russa da zona de exclusão de Chernóbil, na Ucrânia, pode ter alterado o comportamento de animais selvagens que vivem na região. Um estudo recente registrou mudanças nos padrões de atividade de diferentes espécies durante o período em que tropas russas ocuparam a área, entre fevereiro e março de 2022.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Freiburg, na Alemanha, e publicada na revista científica Science no mês passado.

Os resultados sugerem que o conflito armado afetou a fauna local de maneiras distintas, com algumas espécies alterando seus padrões de atividade e outras modificando seus horários de circulação.

O que os pesquisadores observaram em Chernobyl

A zona de exclusão de Chernóbil foi criada após o acidente nuclear de 1986. Com a retirada da população e a restrição permanente ao acesso humano, a região acabou se tornando um dos maiores refúgios de vida selvagem da Europa.

O estudo começou em 2020, quando a pesquisadora Svitlana Kudrenko instalou dezenas de armadilhas fotográficas para monitorar a fauna da região. Os equipamentos permaneceram funcionando durante a invasão russa da Ucrânia, em 2022, permitindo registrar o comportamento dos animais antes, durante e depois da ocupação militar.

Os pesquisadores analisaram imagens registradas por 31 armadilhas fotográficas, que documentaram 11 espécies, entre elas cervos-vermelhos, corços, raposas-vermelhas, lebres-europeias, linces e lobos.

Além das imagens, a equipe entrevistou pessoas que viviam ou trabalhavam na região para estimar a intensidade das atividades militares em cada dia da ocupação. Os cientistas também utilizaram imagens de satélite para identificar incêndios provocados pelo conflito.

Animais responderam de formas diferentes ao conflito

Os resultados mostram que nem todas as espécies reagiram da mesma maneira à presença das tropas. Os corços, conhecidos pelo comportamento mais discreto e cauteloso, passaram a ser registrados com menor frequência conforme aumentava a intensidade das operações militares.

Já os cervos-vermelhos apareceram mais nas imagens das câmeras durante o mesmo período. Segundo os pesquisadores, isso pode indicar que esses animais passaram a se deslocar com mais frequência para fugir das áreas afetadas pelos confrontos.

O estudo também identificou uma mudança no horário de atividade dos cervos-vermelhos, que passaram a circular mais durante o dia e menos durante a noite.

Raposas-vermelhas e lebres-europeias também apresentaram indícios de redução da atividade noturna. Em dias com registro de incêndios, porém, as lebres voltaram a aparecer com maior frequência à noite, possivelmente tentando escapar das áreas atingidas pelo fogo.

Além disso, segundo o estudo, espécies como lobos e linces apresentaram poucas alterações detectáveis durante o período analisado. Os autores ressaltam que isso pode estar relacionado ao número reduzido de registros dessas espécies ou às características da própria zona de exclusão, como sua grande extensão de florestas e a baixa presença humana desde o acidente nuclear de 1986.

Como o estudo ajuda a entender os efeitos da guerra sobre a vida selvagem

Os pesquisadores afirmam que o trabalho oferece uma oportunidade para observar como a fauna responde, em tempo real, a um conflito armado.

Segundo os autores, a guerra pode alterar padrões de deslocamento, atividade e uso do habitat por diferentes espécies. No entanto, ainda não é possível determinar se as mudanças observadas em Chernobyl terão consequências duradouras para essas populações.

Os pesquisadores ressaltam que o estudo se concentrou apenas nas mudanças de comportamento. Outros possíveis impactos da guerra, como a destruição de habitats, a poluição ambiental e a mortalidade direta de animais, ainda deverão ser avaliados em pesquisas futuras.

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